segunda-feira, 5 de maio de 2014

DIZER POESIA

Suponho que não gere debate a dúvida sobre a natureza oral da poesia. Parece-me óbvio que antes de ter passado à escrita, o poeta expressou-se oralmente. A escrita permitiu desenvolver processos de construção do poema, ao mesmo tempo que ofereceu à palavra uma maior resistência face ao desgaste imposto pela passagem do tempo. Gravadas no papel, as palavras mantêm uma singularidade que a transmissão oral tende a atraiçoar. A questão que hoje se coloca é de outro tipo. Há quem defenda que a poesia é para ser lida em silêncio. Entre o lido e o ouvido surge o anátema da dicção, ou seja, a leitura em voz alta de algum modo impõe a quem ouça uma interpretação do que está escrito. Não vem ao mundo problema de maior, se aceitarmos que sobre o escrito ou o ouvido o sujeito passivo exercerá sempre o papel do tradutor. É verdade que traduzir da tradução pode ser perigoso, aumenta a distância face ao objecto original. Mas por vezes, reconheça-se, percebe-se melhor o objecto original através de quem o saiba dignificar com uma boa interpretação do que estando em contacto directo com ele mesmo. Ou então, podemos admiti-lo, estar em contacto com um mesmo texto através da leitura ou através da audição é estar em contacto com dois textos diferentes. Seja como for, importa sublinhar, antes de mais, o efeito que o texto produza sobre quem esteja em contacto com ele. 
Não me recordo se comecei por ouvir poesia ou por lê-la, mas desconfio que seja mais provável a segunda hipótese. Ainda assim, guardo como bastante enriquecedoras as horas passada a ouvir Palavras Ditas (1984), série de programas através dos quais o saudoso Mário Viegas interpretava, dizia, divulgava, fazia chegar a um vasto auditório poemas de proveniência distinta. Fora do contexto televisivo, ainda hoje me impressiona ouvi-lo a dizer Daniel Filipe (Ei-la a cidade envolta em dor e bruma…) ou José de Almada Negreiros. A interpretação oferecida ao Manifesto Anti-Dantas ou ao poema A Cena do Ódio são elas próprias um poema. Infelizmente, não são muitos os actores portugueses que digam bem poesia. Ou então dizem, mas eu não os entendo – fico como estava, a preferir os poemas escritos, lendo-os em silêncio, fazendo a minha própria interpretação muda. Com Mário Viegas era diferente, havia uma encenação da palavra que tornava tudo como a poesia é: verosímil na sua artificialidade. Também não são muitas as pessoas que dizem bem poesia, que a pronunciam oferecendo às palavras uma vivacidade que as torne orgânicas. Um poeta que diga bem os poemas dos seus pares é um achado.
É isso que sinto quando ouço Nuno Moura, além da felicidade de poder acompanhá-lo em projectos comuns. Ouvi-lo dizer os seus próprios poemas, escritos, porventura, para serem mais ditos do que lidos - ou lidos no dizer por quem os escreveu, que será sempre quem, mais do que outros, saberá dizê-los, por serem tão únicos e singulares -, é já momento de alegria, mas ouvi-lo interpretar poemas de outrem é uma bênção. Estou a lembrar-me da leitura que registou das Memórias de um Craque. As palavras de Fernando Assis Pacheco adquirem nesse contexto aquele sentido que liberta a poesia da prosa, acrescentando à leitura, como quem conta um tonto, sem necessidade de estratagemas, a entusiástica pronúncia de uma voz. Vem-me agora à memória a primeira vez que senti na espinha o arrepio da emoção com uma leitura ao vivo. Foi no bar do teatro A Barraca, não consigo precisar quando, que apanhei por mero acaso o poeta Joaquim Castro Caldas a dizer poemas (seus? de outros?) com uma ironia tão serena que nunca mais vi. De tão raros, esses momentos são preservados pela memória. Ecoam imagens, versos esfumando-se como o fumo de um cigarro, a voz retida pelo uísque num êxtase sem pressa. Tudo
ao contrário desses excessos datados de Ary Por Si Mesmo, poeta infelizmente desprezado, talvez por culpa das canções contra as quais a intelligentsia lusa guardará sempre incompreensíveis reservas. Mas a verdade é que o histerismo da leitura de Ary irrita, teatraliza a raiva e a revolta com desnecessária agitação. Já no seu tempo, outros como Alexandre O’Neill ou Mário Cesariny davam assas à liberdade sem precisarem de soltar gritos ensurdecedores. É fácil decepcionarmo-nos com um poeta a dizer a sua poesia. Heberto Helder comove, pese embora a voz usurpar aos poemas o mistério que os obsidia quando lidos em silêncio. Um poeta que dizia muito bem os seus poemas era Al Berto.
No entanto, dizia-os como se não estivesse a dizê-los. Lia-os. Tem uma voz que sustenta a empatia reclamada pelas palavras, abre-lhes a janelinha do som e deixa-as respirar. Nós respiramo-las pelos ouvidos com o agrado da criança embalada. Quem escute com atenção a leitura na Casa Fernando Pessoa (1995) ficará surpreendido até com os lapsos, que de tão humanos e indisfarçáveis transformam o momento numa espécie de liturgia: este é o meu corpo, esta é a minha voz, ofereço-vos o meu corpo a partir da minha voz. Mais tarde, tive a oportunidade de o escutar num registo diferente. Acompanhado à guitarra por Rafael Toral, despediu-se num espectáculo intitulado Filhos de Rimbaud. Comemorava eu mais um aniversário, jamais julgaria estar perante a celebração do fim. Outra forma de aniversário.


2 comentários:

Pedro Góis Nogueira disse...

Comecei por ver o Primeiro dos Ventilan no You Tube ("é de origem entronca e de pais separos
e teve mais de noventa mil pessoas delírias no estádio das antas..."). Muito bom. Acabei por limpar tudo o que há de Ventilan no You Tube (salvo seja) e do Nuno Moura (aí em doses ainda mais generosas, grande poeta, ganhou aqui um leitor). Ainda vos gostava de ver ao vivo. Para além disso, e por outro prisma, o teu "Suicidas", que estou a ler agora, tem muito poema/texto que dá vontade de ler em voz alta. É mais um grande livro que escreves. Extraordinária obra. Parabéns!

hmbf disse...

Caro Pedro, muito obrigado. Abraço,