segunda-feira, 12 de maio de 2014

MULHER BARBUDA

A minha filha mais velha está curiosa sobre a natureza da Filosofia. Há dias questionou-me sobre o que era a Filosofia e em que consistia o meu trabalho quando leccionei a disciplina. Comecei por dizer-lhe o que sempre disse aos meus alunos, que na origem da filosofia estava, sem dúvida, um enorme amor ao saber. Mas enquanto professor, cedo me apercebi de que este amor só seria devidamente estimulado combatendo preconceitos. É uma atitude que, olhando a história da humanidade, me parece justa. Tudo o que de verdadeiramente mau aconteceu na história da humanidade teve na sua origem preconceitos, ideias pré-concebidas, estereótipos, lugares comuns que importa questionar, problematizar, até espicaçar no sentido de se poderem alcançar, vá lá, conceitos, isto é, ideias mais firmes e justas e universais. Um filme que apreciava debater com os alunos era o The Elephant Man (1980) do David Lynch, a história ao mesmo tempo comovente e revoltante de um indivíduo cultíssimo e de fino trato transformado em atracção de circo por causa da sua aparência física. O filme recria a vida de Joseph Carey Merrick. Recordemos uma sequência:



O que fica patente nesta cena é o falhanço da civilização. Desde o rapazinho impertinente, aos jovens que se lhe juntam com instintos de crueldade, passando pelo cidadão comum transformado em justiceiro, logo depois unido, ajuntado, aproximado pelo gozo da barbárie, fica, digamos assim, representada a verdadeira essência disso a que chamamos civilização. Já sabíamos, obviamente, das grandes conquistas do mundo civilizado. Da chacina dos índios ao tráfico de africanos, daqui à máquina de morte nazi, passando pela Santa Inquisição, não faltam exemplos de quão bondosos são os intuitos do mundo civilizado. Dito isto, cabe perguntar se avançámos no bom sentido. Cabe questionar se progredimos na nossa humanidade, conceito do qual sempre desconfiei por ter as mais ambíguas opiniões acerca do que seja a humanidade. Um exemplo actual do nosso falhanço é o espalhafato em torno da mulher barbuda, outra aberração de feira, pelos vistos, que ganhou o Festival da Eurovisão. Acabei de ler algures que esta vitória marcava o “fim do Império Europeu”. Foda-se, o que as pessoas dizem!!! Não pretendo armar-me em professor de Filosofia, nem sequer tenho a veleidade de tomar os meus leitores por alunos, mas queria chamar a atenção para um facto que me parece tão básico que pode passar despercebido: tal como Joseph Carey Merrick, rodeado de cidadãos alvoroçados num urinol público, tem que lembrar que é um entre os demais – sou um de vós, sou um ser humano, não sou um animal – também a mulher barbuda, pelos vistos, terá que o fazer; isto porque, na realidade, as verdadeiras aberrações não são as pessoas que existem em função da sua identidade, mas antes todos os outros que, querendo ser iguais à maioria, rejeitam a diferença, opõem-se-lhe tantas vezes criminosamente, resistem inclusive a si próprios desejando um mundo fardado, normal, formatado, enfim, civilizacionalmente estereotipado. Um mundo criado à semelhança dos urinóis públicos. 

P.S.: Por outro lado, é pura ignorância. Androginia no universo da música popular é o que não falta. De Boy George a Ney Matogrosso, de Jay Jay Johanson e Antony and The Johnsons, de António Variações a Klaus Nomi, dos New York Dolls a Marilyn Manson, é só escolher. Há para todos os gostos e idades.

4 comentários:

Marina Tadeu disse...

Que se lixem os bárbaros. Ao menos o elefante era boa pessoa.

hmbf disse...

Até fazia catedrais com paus de fósforos :-)

PJ Nelson disse...

Mas a decadência parece-me que vem dessa normalização que falas, em que até os Países são apenas lixo ou qualquer coisa do género num computador de Wall Street.
O David Lynch é muito bom a retratar a diferença e nesse filme com uma sensibilidade extraordinária.
Abraço.

Ivo disse...

Li estes dias o Filho de Deus, do Cormac McCarthy, e não sei porquê agradou-me aquela perversidade do Ballard. Perversidade/humanidade??
E também sempre deu para aprender uma boa expressão para os dias de hoje - de sempre? - "filho da puta a 360 graus, um gajo que é um filho da puta qualquer que seja o ângulo de visão. Um infantilismo diria eu. A conferir na mesma edição do Público em que alguém muito bem relembra o que esse espécime dizia há uns tempos - a inevitabilidade do programa cautelar. Um autêntico 1984 Orwelliano em andamento aos nossos pés...