Eu sou seresteiro, poeta e cantor
Comecei a ouvir Chico Buarque muito cedo. O pai de um amigo
de infância tinha o vinil de Meus Caros Amigos (1976) – ainda não havia CDs -,
e a gente ficava tardes inteiras a ouvir de frente para trás e de trás para a
frente O que será?, Mulheres de Atenas, Vai Trabalhar, Vagabundo… Mais tarde,
explorei a discografia de Chico Buarque em múltiplas direcções. Este Retrato em
Preto e Branco (2005) oferece-nos sessenta momentos imprescindíveis do início
de carreira, os primeiros singles, as primeiras composições, os primeiros
passos na religião do samba e da bossa nova. Estas canções, de uma poesia
incomum, ensinaram-me que a intervenção política pode assumir vários rostos. Canções
como Pedro Pedreiro ou Funeral de um Lavrador, de explícita orientação social, não
esgotam a filosofia. Esta, encontramo-la em versos de Tem Mais Samba (Se todo
mundo sambasse / Seria tão fácil viver) ou Fica (Diga ao primeiro que passa /
Que eu sou da cachaça / Mais do que do amor) ou Madalena Foi Pró Mar (É preciso
não chorar / Maldizer, não vale a pena)… As canções de Chico Buarque encenam
uma alegria onde o humor se recosta numa tristeza tímida, e isso é definição de
melancolia que dança, que ri, que chora, que se entrega nos braços do tempo em “gerúndia”
esperança. E olha aí essa Benvinda, que «a despeito das vaias, vence o IV
Festival da MPB da Record»:
Benvinda, benvinda, benvinda
Que essa aurora está custando, que a cidade está dormindo
Que eu estou sozinho
Certo de estar perto da alegria, comunico finalmente
Que há lugar na poesia
1 comentário:
Mostrei ontem o vídeo a duas amigas brasileiras cinquentonas aqui em Londres. Declamámos o poema inteiro e as vozes embargaram-se (ah, as mulheres!). Disseram que Benvinda venceu o voto popular do mesmo Festival.
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