sábado, 28 de junho de 2014

PORTUGAL EM RUÍNAS

De onde vem este fascínio pela ruína? Quando era criança, percorria os açudes e, pelo caminho, encontrava casas abandonadas, velhas estruturas industriais, vestígios de tempos e hábitos perdidos. Nunca resisti a espreitar um local abandonado. Mais tarde, no Egipto, fiquei espantado com as obras de deslocação de Abu-Simbel. A construção de uma barragem ameaçava submergir um templo escavado na rocha. O esmero na conservação do passado espantou-me, com a mesma intensidade que me deprimiram alguns esforços de reconstrução da Acrópole (Atenas). O contraste entre as pedras originais e as novas, usadas para restauro e conservação, era chocante: demonstrava, com inigualável crueza, o poder do tempo, que até a pedra transforma num corpo sujeito ao envelhecimento. A ruína apresenta-se aos nossos olhos como fragmento do passado, resquício de uma vida que se perdeu, esqueleto que só não enterramos porque é menos custoso deixá-lo a apodrecer à superfície da terra. É a morte ainda erguida, rosto a rosto com a vida que medra e transforma o espaço. Alguns portugueses queixam-se do abandono a que são sentenciadas obras outrora eloquentes, condenação de todo um povo para quem, reconheça-se, a preservação do património nunca foi uma prioridade. Talvez porque não exista uma consciência desse património, culturalmente errantes, transmigratórios, transitáveis que somos. O apego às raízes senti-o apenas, em termos colectivos, aquando dos movimentos que se bateram contra a construção de uma barragem no Vale do Côa. Quem visite o local e fale com os populares que ali fazem a vida, aperceber-se-á das contradições de espírito que prevalecem sobre a opção tomada. Portugal tem sido, ao longo dos séculos, uma Aldeia da Luz. Ou nem isso, porque essa teve direito a réplica. O sangramento demográfico dos últimos anos sinaliza apenas um dado evidente: quem decide não tem consciência do mais rico dos seus patrimónios, ainda que apregoe a língua e a sua putativa estatura internacional enquanto bem inalienável. O Acordo Ortográfico é a obra de restauro da língua que rivaliza com a simpática Cecília Giménez o prémio de mais caricato trabalho de conservação patrimonial. Neste pequeno livro publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, as fotografias de Gastão de Brito e Silva não mostram apenas um Portugal em ruínas. Evidenciam algo que a introdução de Vítor Serrão sublinha logo à partida: «as ruínas têm direito inalienável à sua própria «inutilidade», esse novo estatuto que foram gradualmente adquirindo à medida que a sua pretérita utilitas se transmudava e desaparecia» (p. 11). Monumentos erguidos à inutilidade pela corrosão, as ruínas são a poesia do espaço geográfico, uma poesia ao mesmo tempo bela e dolorosa, elegíaca, mas, em certos casos, epopeica, que elevam o esquecimento e a decadência, o destroço e a devastação, a valores cujas dimensões ética e estética só são entendíveis num confronto cúmplice com a nossa própria natureza. O abandono, enquanto “denominador comum” aqui retratado, reflecte muito do que somos: «Portugal não quer recordar nem quer ver aquilo que foi ontem, ainda ontem, há bocadinho, e quando aceita fazê-lo, esconde a vergonha e o remorso debaixo de estatísticas (que mentem e triunfam porque simplificam tudo)» (pp. 26-27). Há nisto um sinal identitário que, mais uma vez, devia obrigar-nos a reflectir, evitando a contaminação de uma natural nostalgia que não ajuda, pela melancolia que imprime, a encontrar soluções, a ter pelo menos a esperança de que essas soluções sejam possíveis. É inquietante a noção de que «algumas das imagens destes Retratos, estamos certos, não sobreviverão ao próximo Inverno», não porque tudo deva ou possa perdurar (mais uma vez se prova que a eternidade não é uma característica essencial da obra de arte), mas porque o sentido de perenidade é fundamental à construção de um olhar culto e exigente. Nenhuma perspectiva do mundo, seja ela filosófica ou artística, social ou meramente popular, faz sentido sem esse sentido de perenidade, do qual nos temos vindo a alhear enquanto a nosso lado fortes, castelos, palácios, conventos, ermidas, igrejas, mosteiros, hospitais, definham para nossa vergonha e, pior que isso, como testemunho do nosso intratável desleixo.

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