quinta-feira, 12 de junho de 2014

REDUCTIO AD IMPOSSIBILE

Retiramos vários ensinamentos das aporias de Zenão, sendo o mais relevante de todos a natureza paradoxal do pensamento. A lógica a que submetemos qualquer raciocínio apoia-se sempre num estribo facilmente desmontável, pelo que os seus fundamentos são inevitavelmente ilógicos. Pontos de encontro numa discussão, aproximações retóricas, concordâncias, só são possíveis quando o absurdo se afina entre duas cabeças. Mas isto quer dizer que tudo é contraditório, o que, seguindo os ensinamentos de Zenão, significa que a contradição não existe. Porque se podemos negar a possibilidade do movimento a partir da subdivisão do espaço — é impossível alcançar um número de pontos num tempo finito —, o que nos impede de negar o espaço a partir da subdivisão do movimento? Tem, por isso, toda a lógica o argumento de Zenão de Eleia relatado por Simplício:

«Se existe um lugar, ele está em alguma coisa, porque tudo o que existe está em alguma coisa; mas o que está em alguma coisa está também num lugar; portanto o lugar deveria estar, ele próprio, num lugar, e assim até ao infinito; portanto, não existe nenhum lugar.»


Aplicado a um corpo, por exemplo o nosso, isto quer dizer que nós não existimos, a matéria não existe, nada existe. Pela lógica, tudo se nega e refuta. Mas também tudo se comprova, inclusive a irracionalidade da lógica. Tem lógica a ilógica, tem ordem o caos, tem sentido o absurdo. Zenão faz da pluralidade um conjunto infinito, incomensurável, de unidades. O uno é sempre divisível. Esta é a maior desgraça do solitário, saber-se sempre em companhia: podemos dividir em tantos quantos quisermos um único homem. Resta-nos o consolo de sabermos inútil tal tarefa. A consciência do inútil é consoladora.

1 comentário:

Marina Tadeu disse...

Sempre nivela mais que a democracia