segunda-feira, 7 de julho de 2014

AONDE NOS LEVA O LIXO?

Para o JAO

Aonde nos leva o lixo que não nos traz a morte?, a pergunta não é retórica, amigo, imagina que acabei de ler nas páginas de um periódico que a criminalização de sem-abrigo avança pela Europa, provavelmente ao mesmo ritmo que avança a nostalgia nazi, isto anda tudo ligado, dois mil e tal anos depois Platão ressuscita para expulsar os poetas das ruas, ressuscita reencarnado nos agiotas que trazem a carruagem pela rédea, o filósofo, exangue de ideias e inchado de sombras, volta a perorar para expulsar das ruas os poetas, vamos ficar sem mendigos, amigo, sem vagabundos, sem poetas, neste mundo desinfectado não cabem versos de Sebastião Alba, muito menos o próprio Sebastião, trespassado de setas, perdido para sempre no deserto, e a gente à espera dele com uma saudade imensamente inexplicável, tristeza filha da puta, amigo, feita de detritos encontrados na separação das águas, país ecológico de nobre fachada, com contentores verdes para poetas cheios de esperança, contentores azuis para poetas aristocráticos, contentores amarelos para poetas com disenteria, esta coisa de proibir a fome usurpando a carne, esta coisa de multar a rua é um lixo que nos leva onde não nos traz a morte, aonde nos leva, então, o lixo que não nos traz a morte?, talvez aos desertos do norte de África onde São Sebastião foi combater os mouros muito antes de ter ascendido aos céus da fé homossexual, que é ter tronco e coxas para lanças e flechas atiradas sabe-se lá por quem, pelos mouros?, pelos agiotas? pelos mendigos?,  aonde nos leva o lixo que atiramos para as ruas, amigo, e agora das ruas queremos varrer para não vermos o cancro apascentado que, como se diz?, as estratégias de integração semeiam, semeiam como cacos, farrapos, restos, onde outros restos ainda mais restos vão buscar alimento e os poetas tema e o tema meta e a meta física, que isto de andar pelas estações de tratamento de resíduos como quem entra todos os dias num shopping para servir livros a granel é como fazer reciclagem, contentores verdes para poetas cheios de esperança, contentores azuis para poetas aristocráticos, contentores amarelos para poetas com disenteria, e cada vez menos mendigos nas ruas, cada vez mais escravos apartamentados, cada vez menos vagabundos nas praças, cada vez mais cretinos no Panteão Nacional.

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