domingo, 6 de julho de 2014

DO CANTO DA COTOVIA NÃO SEI

Para o ND

Do canto da cotovia não sei, mas sei de me aventurar pelos pinheirais para ouvir o restolho dos meus passos, de me sentar na falésia a olhar o mar que esbofeteia as rochas, enquanto por cima de mim o voo ameaçador de uma gaivota fazia sombra, sei de parar no meio da serra para gritar na esperança de um eco devolvido, sinal de uma onírica fusão com o mundo, o ar que respiro debaixo d’água quando mergulho, o ar que me falta quando venho à superfície, sei de uma nuvem que passa e me aponta, diz: a primeira pessoa do singular não importa, evita-a, por isso rasuro o eu mesmo quando parece ser de mim que estou a falar, falo sempre de outra coisa qualquer, coisa coisificada, descansadamente desencantada, como diria o poeta, que se matou apesar de ter escrito belíssimos versos, ambos sabemos, porém, da efemeridade que tudo relativiza, transforma as pedras em pó, o pó em pegadas, as pegadas em tempo perdido, ambos sabemos apressadamente distantes o quão bela foi a infância, se vagabundos fôramos, quando nos rios ainda corria água, quando nas árvores ainda nasciam frutos, quando pelo caminho ainda encontrávamos cartas perdidas, manuscritos borrados, e ninguém se preocupava mais em fotografar do que ver, ninguém se preocupava mais em gravar do que ouvir, oferecia-se ao olfacto a função intensa de ser o tacto dos pulmões, porque não bastava ver ao longe, por intermédio de um monitor, o acidente espectacular, era preciso tocar e desse toque, creio, ambos sentimos uma tremenda nostalgia, que tempo este, meu velho, de diabólica chuva onde nem já ao domingo à tarde passam filmes românticos e os dias se escrevem com minúsculas, ai que porra que estou a ficar velho, e confesso uma certa saudade (será nostalgia?) de escrever à mão. 

9 comentários:

Marina Tadeu disse...

Desconheço se quem escreve assim cresceu antes ou depois de tempo. De qualquer forma pedrada, ou melhor, vidrada em todas as extravaganzas, todas. Foi só há menos de um ano que dei com a poesia de Nuno Dempster -associei-o logo ao Henrique, não sei porquê. Tudo o que de vocês quero é que escrevam e não morram. Por isso não tenho vergonha de vos agradecer.

hmbf disse...

olá marina, muito grato

Soledade disse...

É isso, Henrique, sim, ler o Nuno, uma comoção, uma memória magoada, o coração dos seres do fim do tempo. Mas tu não estás a ficar velho, tu não!

Um abraço da
Soledade

hmbf disse...

O Tempo não mente.

Abraço,

Marina Tadeu disse...

Chegar a velho é o fito possível, o mais nobre talvez e nós com os nossos mortos atravessados no caminho sabemos que é também uma espécie de vingança. Chegar a velho é espezinhar o tempo até nos afundarmos com ele, é ter aprendido a cair, que é cair de facto com a dor toda de quem custou mas foi. Os que não envelhecem não têm destino. É como se tivessem nascido em Ítaca, sem propósito algum para além de atrair turistas, pentear macacos, posar para o retrato…

Nuno Dempster disse...

Está a ficar velho ou mais sábio? Para muitos, para a maioria, para a tal grande maioria esta disjunção é um paradoxo. Deveria dizer-se - pensam eles - ,está a ficar mais velho e mais sábio. Só que há sentidos que não envelhecem para alguns. O olhar, o ouvido. O restolho nos pinheirais. O mar. A gaivota. E já agora ouça a cotovia, com o nosso ouvido igual e sem cronologia:

www.xeno-canto.org/29797

Obrigado pela dedicatória do seu belo texto. Abraço.

hmbf disse...

Grato pelo canto. Saúde,

Soledade disse...

Pá, quando forem ouvir o vento no restolho - e sobretudo a passarada! - convidem-me, sim? :-)

Ana Alexandre disse...

Desde que não seja o "Restolho" da Mafalda Veiga também vou ;-)