terça-feira, 1 de julho de 2014

FUI FELIZ

Para a MVdG


Fui feliz quando aprendi a andar de bicicleta sem rodinhas, fui feliz quando desci o rio numa placa de esferovite, fui feliz quando comi das primeiras peras que nasceram numa pereira por mim plantada, fui feliz quando o meu cão ladrou, fui feliz quando me deram romãs no pão por deus, fui feliz quando andei de burro com o meu avô e quando, por sua iniciativa, pisei uvas a entoar a oliveirinha da serra, fui feliz sempre que a minha avó fez fatias, quando o meu pai me levou a ver o Jordão marcar um golo em campo pelado, quando o Joaquim Agostinho passou perto de casa na volta a Portugal, fui feliz quando a minha mãe me acordou a meio da noite para que eu pudesse ver neve a cair, fui feliz, estranhamente, quando senti a terra tremer, quando o meu pai me convidava a engarrafar o vinho, quando fumei o primeiro cigarro sem tossir, fui feliz quando fiz um bom jogo contra o Riachos meses a fio a faltar aos treinos, fui feliz quando aprendi a tocar na guitarra Blowin’ in The Wind, quando fugi de casa numas férias na Nazaré, quando passei uma tarde inteira na maré baixa da Costa, quando me deixaram passar da assistência para o punho dos matraquilhos, quando perdi o medo de ver se as galinhas tinham ovo, quando a porca pariu, quando a professora primária me disse o menino não tem perfil para palcos, quando fui ao quadro negro e em vez de escrever 2+2=4 escrevi 1+1=amor, fui feliz quando me disseram espera, voltarei, ou quando me disseram vou partir, não fiques triste, estou feliz, fui feliz quando varejei oliveiras e dos ramos caíram pássaros (odeio pássaros), fui feliz quando escrevi pela primeira vez o meu nome sem sentir o peso do apelido, isto foi, se bem me lembro, há dias, fui feliz quando as filhas nasceram e com elas um outro eu, fui feliz sempre que o meu amor me massajou o pescoço e quando te ouvi dizer um poema meu, porra, que feliz eu fui, fui feliz quando pela primeira vez os meus dedos dedilharam cordas sob a voz do Nuno, fui feliz sempre que me despedi de um emprego, fui feliz quando caminhei sozinho na Costa Vicentina e senti o medo que a verdadeira felicidade instiga, fui feliz algures num sonho, quando um amigo me visitou de surpresa e disse amigo, fui feliz no dia tantos de tal, numa praia algures, com um abraço registado por uma selfie que, enfim, é o único testemunho desse momento de felicidade, fui feliz debaixo de árvores, à sombra, em silêncio, porra, sou sempre feliz em silêncio, menos quando toco guitarra, bem, outra forma de silêncio, a guitarra, porque o som da felicidade é todo ele um ruído silencioso, se é que me faço entender, fui feliz em carácter times new roman, mas nunca o disse a ninguém, fui feliz a ler um poema que escreveste sobre comboios, para mim é sobre comboios, fui feliz a rir-me de mim próprio e quando o Sporting ganhou o campeonato e o meu pai me abraçou, fui feliz quando as minhas irmãs foram felizes, porque elas fazem-me sentir feliz, e quando o meu pai apanhou um pifo, e quando as filhas nasceram sou tão feliz, fui feliz a cometer erros, acasos, acidentes, sobretudo daqueles que me levam a concluir o quão parvo, patético, estúpido sou, porque, valha-me Deus, ser feliz é precisamente dar cabo das horas a cada segundo que passa, fui feliz quando andei à boleia e, queres saber, quando um tipo que me deu boleia entre Rio Maior e Santarém ficou com a merda do volante do mini nas mãos, esses momentos de sorte fazem-me sentir feliz, feliz por instantes, enquanto leio aqui ao lado que a tua voz é horizontal e branca, ó planície luminosa dos momentâneos encontros, fui feliz assim que algures, tardiamente, alguém me disse de súbito: vamos beber um copo.

6 comentários:

CCF disse...

Bem bonito!
~CC~

hmbf disse...

agradecido

Ana disse...

Tb não gosto de pássaros.
E tb gosto qd me dizem "vamos beber um copo"

hmbf disse...

os pássaros são bons para depenar

Magda disse...

A simplicidade profunda, que bonita, assim, sem falsos enredos a (dis)simular pretensões! Obrigada

hmbf disse...

de nada