sábado, 12 de julho de 2014

GENUÍNOS SÃO OS RAIOS DE SOL

Para a AS

Genuínos são os raios de sol que iluminam o sótão pela manhã, o canto madrugador dos pássaros, o vagabundo que lava o rosto na fonte e mata a sede com saliva e suor, genuínas são as marcas que vamos deixando à nossa passagem, uma nuvem que faz sombra, a poeira que se levanta sempre que a terra treme, e as rugas que anunciam a morte, e os farrapos de memória que o esquecimento tece numa manta de retalhos, genuínas são as pinhas que apanhamos da terra para acender o lume, o cão que ladra, o gato que mia, tudo o que cresce para lá das cercas, dos museus, dos jardins, a casa abandonada em ruínas, imagem tão batida como o cheiro da terra molhada, que, enfim, perdura em quase todas as páginas de um alfarrábio imenso, genuína é a distância que separa dois pontos, o infinito descoberto por Zenão, a efemeridade dos cigarros, a perenidade doentia dos adjectivos, genuína é nem sequer a linguagem, talvez uma cartografia dos poros, mas a poesia não, a poesia, quando é, somente autêntica, que é já encenação e mentira e jogo e respiração aflita, porque genuínas são todas as coisas tocadas pela luz do vento, o rosmaninho que ficou na infância, a guitarra encostada a uma parede, a falta de ar debaixo de água, a sede do copo vazio, a embriaguez do vinho e o sabor da cereja, sim, o sabor da cereja é genuíno, que nos livra de julgar genuínas coisas tão impuras como a poesia.

2 comentários:

Sol disse...

Hermoso, Henrique.Permiso, me lo llevo para mi casa.
Abrazos (que también son genuinos)

hmbf disse...

olá sol

que bom é saber-te por aqui

saúde
h