quinta-feira, 3 de julho de 2014

O HOMEM MODERNO É UM MITO

Para o MAD
 
 
O homem moderno é um mito, mais pêlo menos pêlo continuamos bárbaros, mesquinhos, idiotas, vagueamos nas ruas do pensamento mas fugimos das ruas a céu aberto, o acolhimento dos telhados é-nos conveniente, mais coisa menos coisa o homem moderno mantém-se por um fio, mata, sacrifica, tortura, falseia, não sabe andar de pé como as árvores, cambaleia, gatinha, rasteja e anda de porta em porta a barrar com peçonha as dúvidas dos outros, é um óptimo mito, o homem moderno, aprendeu a escrever para meter nos livros as acções adiadas, para registar intenções nunca concretizadas, para declarar promessas jamais cumpridas, para arquitectar projectos tão brancos como a banha com que barra as dúvidas dos outros, banha de elefante branco, banha da cobra, o homem moderno rapa os pêlos do peito para não se sentir macaco, mas o que nele há de símio reside muito para lá da superfície da pele, algures entre o gene e o glóbulo, circulando nas veias como o ar que se respira, ele tem de macaco todos os pêlos nos genes, basta assistir aos primeiros minutos de 2001: A Space Odyssey para perceber que Arthur C. Clarke tinha a razão que Stanley Kubrick entendeu, e nem por isso o 2001 do título datou a obra para o futuro porque já naquele tempo era mais do que perceptível não haver futuro para as obras, entre o macaco de osso na mão e o homem na mão do osso não há diferença alguma, talvez apenas um pormenor utilitarista, talvez hoje o homem roesse o osso, tal é a fome de ser cão que o macaco alimenta, é pois um mito o homem moderno, penteia-se, faz a barba, tem as vacinas em dia, prefere as caixas de pagamento automático ao atendimento personalizado, não suporta o contacto físico, é um animal em vias de extinção, escreve a vida que não leva, vive a vida que rejeita, morre com todos os sonhos inacabados e, na melhor das hipóteses, morre cedo, sem dar por isso, subitamente arrecadado pelos acidentes, esse homem moderno de que falam os anúncios publicitários usando para exemplo corpos esculturais, sorrisos plásticos, a fotogenia das máquinas com seu discurso de sedução, o homem moderno é um piropo da máquina económica à humanidade, é a máquina económica a dizer à humanidade o quão bem está, quando, na realidade, a humanidade tem varizes espalhadas pelas pernas, rugas no rosto todo, pontos negros nas costas, acne, micoses, vírus, cancro, estrias, a humanidade sente-se bem quando alguém lhe assobia e diz cara linda, por detrás do rosto maquilhado um esqueleto corroído pela maldade, pelo preconceito, pelo ódio capaz de amar a troco de qualquer coisa com um amor que não é amor, uma espécie de investimento tóxico, uma aposta na casa da sorte, destino, esse homem mitológico que canta e dança e lê e pinta e faz coisas magníficas no entretanto da morte.