segunda-feira, 21 de julho de 2014

QUARTO CICLO

 
 
A experiência leva-me a pensar que a vida se cumpre em ciclos. O meu primeiro ciclo durou dezassete anos, terminou quando saí de Rio Maior e fui estudar para Lisboa. Da terra onde nasci, guardo boas memórias de uma infância livre, no meio da terra, com um rio onde se podia mergulhar e açudes, pinhais, eucaliptais, olivais, pomares onde era possível sonhar. O segundo ciclo cumpriu-se entre 1992 e 2000, ano em que vim residir para Caldas da Rainha. Os oito anos em Lisboa não foram felizes. Apesar de Lisboa ser uma cidade relativamente pequena e acolhedora, nunca gostei dos chamados grandes centros urbanos. Nesses espaços, a dita urbanidade das pessoas revela-se amiúde de uma tacanhez insuportável. Lisboa é uma matilha à volta de um osso, gente ambiciosa, calculista, intriguista, desfeita pela distância e pela poluição afectiva. Não é só isto, é certo. Redutos encontramos sempre onde quer que vamos, mas ninguém pode negar o clima mesquinho e profundamente hipócrita que paira sobre a cidade. Há catorze anos numa pequena cidade do oeste, sinto-me relativamente bem. Estou entre o mar e a serra, conheço as pessoas que quero e faço por não conhecer as que não quero. Há quem manifeste espanto, por vezes, com o meu alheamento, perguntam-me com admiração: “mas você não conhece fulano de tal?” Nesta fase da vida não é, honestamente, missão que me estimule: conhecer fulano de tal. No terceiro ciclo da vida aconteceram-me coisas mais determinantes: fui pai duas vezes, amei. E comecei a publicar com alguma regularidade, actividade que, apesar de tudo, me expurga do quotidiano demoníaco da vida profissional. Mantenho sobre Caldas da Rainha uma opinião desinteressada: gosto de aqui dormir quando durmo, gosto de aqui despertar quando acordo. Faltam agora seis dias para um novo ciclo, pressinto-o. Dezassete anos, oito anos, catorze anos. Têm sido assim os meus ciclos, como será no futuro não sei nem quero saber. Sei que isto não tem importância nenhuma senão para mim próprio, como todas as vidas não têm importância alguma senão para elas próprias. Para elas próprias e para os milhões de estrelas que as iluminam num universo revelador da infimidade que define cada ser humano isoladamente.

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