quinta-feira, 3 de julho de 2014

THE POETRY DOS NOT MATTER

Para o JRN
 
The poetry dos not matter, já dizia o outro, mas depois bate-nos à porta e a gente não fala de bola nem de gajas, é de poesia, porque ela não importa mas ocupa-nos o corpo, edifício devoluto desta coisa de ir morrendo, ela não importa como a morte, pois, que também não importa, quando acontecer aconteceu, assim a poesia, mas rouba-nos o tempo e leva-nos a cabeça para outros mundos, os antimundos, onde plantamos árvores de gesso, semeamos areia, regamos com pó as plantas dos edifícios, trasladamos raízes, fazemos o enterro das memórias e, por vezes, confessamos não sem receio os males por que nos batemos, receio das penitências com que o senhor padre, maldita figura, mais do que nos ouvir nos cala, porque ele é como a poesia, fala silenciosamente, intromete-se, e a gente diz que a poesia não interessa mas depois olha para o céu e vê nuvens de terra e olha para a terra e vê poças de vapor, assim possa a poesia vir preencher a página enquanto um velho arruma a esplanada e medita nos cinquenta anos de trabalho sem férias de que se orgulha, estranho orgulho, logo ele para quem, de facto, the poetry dos not matter, nem para ele nem para a mulher de quem sabemos o nome por nos servir a bucha e o vinho, também para ela não importa, na realidade estamos isolados, somos ilhas entre um mar de gente para quem a poesia não importa e, lá isso é um facto, por vezes formam-se ondas gigantes no mar e as ilhas são engolidas, algumas desaparecem com o nível das águas, não desaparecem, ficam submersas, na realidade permanecem debaixo de água sendo sempre aquilo que foram, a gente é que diz desaparecido o que se afasta das nossas vistas, como a poesia, mas ela não desaparece, simplesmente foi engolida pelo mar de gente para quem a poesia não interessa, por isso eu digo que morreu, claro que morreu, embora pouca gente entenda o quão presente estão certas mortes na minha vida, morrer não é ausentar-se, percebes?, morrer é perdurar numa estranha forma de estar, isto assim torna-se difícil, muito mais difícil do que andar entre os vivos por simplesmente andar, e sentir tudo de todas as maneiras como mandava o mestre, que provavelmente não sentiu absolutamente nada de especial porque passou a vida a escrever o que sentia, um homem que passa a vida a escrever não sente senão escrevendo, para sentir sentindo precisa de dormir na rua, cortar os pés, abrir covas fundas na terra com as mãos, rachar lenha, atravessar desertos, ir de aqui até ao infinito, mesmo que o infinito seja o outro lado da rua, de sentidos abertos, deixando entrar a podridão das sombras que, como ele, andam à procura do sentir, para sentir não basta dizer-se, é preciso sentir-se, e o homem que queria sentir tudo de todas as maneiras também terá sentido que a poesia não interessava e sentiu-o no poema que escreveu sobre o assunto, porque ele há formas muitas de a poesia não interessar sendo a mais vulgar de todas aquela que se apresenta sob a forma de poema escrito, para mim importa, importa tanto quanto isto aqui agora de estar a sentir os meus mortos, os dias que tendo passado se mantêm dentro de mim e as horas que tendo passado perpetuam o tempo, e o tempo que tendo acabado se estende sobre o espaço e abre fendas nas paredes, buracos no alcatrão, pequenas manchas na pele.

5 comentários:

HMM disse...

Textão valente.

hmbf disse...

Obrigado Hugo. Estes últimos têm saído de jorro.

HMM disse...

Tenho lido, sim.

rapaz disse...

'somos ilhas entre um mar de gente para quem a poesia não importa'

não vinha aqui faz muito tempo, fui sem notar pelas linhas como se cantasse, chegado ao fim vi um arquipélago.

saudações,
Francisco

hmbf disse...

olá francisco, bom regresso. obrigado pelo comentário. saúde,