Durante uma partida de futebol, reparo que a música de fundo
antes do jogo começar, no intervalo e no fim é de Carlos Paredes. As melodias
do guitarrista atingiram uma tal familiaridade com o público português que é
hoje possível escutar Verdes Anos onde antes se escutava We Are The Champions. Podemos
falar, pois, em capacidade de risco quando alguém se aventura na recriação
dessas melodias, mais ainda fazendo uso de um instrumento tão pouco popular e
arredado do grande público como é o cravo. Joana Bagulho registou em Acção
(2010) dezoito das mais emblemáticas peças de Carlos Paredes. Trata-se de uma
transcrição, verbo usado pela intérprete, onde ressalta uma leitura
apaixonada capaz de surpreender quando a sonoridade do cravo mais se distancia,
pela sua gravidade, dos dedilhados na guitarra. São vários os momentos em que
pressentimos uma entrega absoluta ao espírito melancólico e exaltado
destas composições, sendo que o barroquismo emprestado a temas como Canção ou
Sede desviam essas emoções de uma dimensão exclusivamente popular sem que as
mesmas sejam desenraizadas. Neste caso, nem o cravo precisava de descer ao
território da guitarra nem esta precisaria de se elevar aos salões do parceiro.
Joana Bagulho desconsidera eventuais hierarquias entre os instrumentos. Como
que dançam ambos um com o outro, conduzindo o cravo na realidade o que retemos
da guitarra na memória. A escutar, esta entrevista na Antena 2.
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