Passei a adolescência num bairro burguês, paralelo a uma linha
de casas de mineiros na Rua de Santa Bárbara. Padroeira dos mineiros, Santa Bárbara
é evocada na pungente canção do Mineiro que o cante alentejano celebrizou. Numa
passagem por Monsaraz, encontrei este águaterracante (2011) pelo Grupo Coral da
Freguesia de Monsaraz. É uma recolha notável pela entrega e pela dedicação,
acompanhada de um DVD que documenta em breves sketches a Festa do Cante em
Monsaraz. Adoptando uma terminologia anglo-saxónica, estamos no domínio das
work songs à portuguesa. Pastores, ceifeiras, mineiros, almocreves, a lavoura, habitam
uma paisagem cantada ora em pranto ora em louvor, intrometendo-se apontamentos
românticos como a do amor ausente e distante. A saudade encontra a sua hipérbole,
mas também estranhos desejos como os expressos em Não quero que vás à monda: «No
dia em que me eu casar / Hás-de ser minha madrinha / Não quero que vás à monda
/ Ó meu lindo amor / Nem à ribeira sozinha». Aliás, este poema é toda uma pérola
do universo popular que não fica mal recordar em duas estrofes:
Dizem que o tabaco tira
As mágoas ao coração
Tanto que eu tenho fumado
Ó meu lindo amor
E as minhas ainda cá estão
(…)
Dei um ai entre dois montes
Responderam-me as montanhas
Ai de mim que já não posso
Ó meu lindo amor
Sofrer ausências tamanhas
Representação coral de um povo, o cante alentejano conjuga
sabedoria popular com sentimentos universais. A solidão, as agruras da vida, o
mundo do trabalho, encontram no sol sinal de conforto e esperança, à mansidão dos
campos vão buscar equilíbrio para a desordem do coração. Não há melhor oração.
2 comentários:
Há 3-4 anos atrás vi e ouvi este grupo de Monsaraz a cantar na Casa do Alentejo. Foi no lançamento de um livro de uma amiga de lá, que era sobre Monsaraz e foi lindo. Porque cantaram uma peça nova em que a letra se referia ao Alqueva que dizia algo como: " pouca-terra, tanto mar" :D. saúde e bjs para toda a tribo
Temos que ir é à Festa do Cante.
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