Essas mulheres que engolem sapos em busca de príncipes
encantados
desafiam as leis com a idade grave dos sonhoscaem na real sem rede
estatelam-se no chão
e voltam a erguer-se como Lázaro sem Cristo
para o braço do primeiro sonho que lhes aparece
têm bicos de papagaio na consciência
e por isso mentemou simplesmente espantam as pulgas do pêlo com omissões
querem-se casadas mesmo que mal fodidas
querem-se fodidas mesmo que mal casadas
e tudo ou quase tudo julgam resolver com um dia de compras
se bem que lá no fundo ordinário dos dias
sejam acometidas de choro e raiva
funguem, tremam
nas pausas do ansiolítico tomado com vodka
e de mais uma noite a dançar quizomba
Essas mulheres melhor fariam se fossem simplesmente
mulheres
impressionantes equilibristas em saltos agulhacom que entrelaçam as malhas da vida
numa esplanada onde fazem planos para nada
e contam umas às outras dos desaforos extraconjugais
que maridos, amantes, outros que tais
sustentam em prisão domiciliária
Se sonham com idas a Paris tudo fazem pelo sonho
dedicam-se com férrea vontadeà consumação da realidade
e sisíficamente carregam fantasias ao longo dos anos
ao longo das pernas
pelo tronco acima
até estancarem no peito com a nítida percepção de que o tempo não as poupou
precisam emagrecer o pânico
depurar as sombras dos olhos
rever por dentro das sombras cada ruga cada estria cada grama a mais
no encalço absurdo de uma frescura que ficou para trás
Essas mulheres trazem filhos onde menos suspeitamos
lavram noites inteiras de foliaà revelia dos traumas
se choram é porque cantam
se cantam é porque tremem
se tremem é porque dentro delas um frio imenso as lança
nos braços do primeiro refolgo que aparece

2 comentários:
Porra! Está mesmo muito bom, Henrique!
Eu diria a sinopse perfeita do filme que vi na quarta feira.
Vimos o filme no mesmo dia. :)
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