terça-feira, 19 de agosto de 2014

CITADORES

 
Imants Tillers
The Philosopher's Walk
 
Quando andava na universidade, uma das discussões que excitava tanto alunos como professores era a da existência de uma filosofia portuguesa. Deveríamos falar em filosofia portuguesa ou em filosofia em Portugal? Passei sempre à margem do debate, até porque o julgava enfadonho. Parecia-me que tanto podíamos falar de uma coisa como da outra conforme as expressões fossem aplicadas no seu devido contexto. Mas não era bem assim. Com o tempo, apercebi-me que a putativa filosofia portuguesa se resumia a exercícios hermenêuticos sobre questões levantadas acerca de autores estrangeiros. Raramente se encontrava um filósofo português que reflectisse exaustivamente um assunto, um problema, sem reduzir o seu pensamento ao comentário, à exegese, à interpretação de obras alheias.
Esta miséria contribui para a ausência de um espírito crítico autêntico, onde vigore a capacidade de debater e discutir na base de argumentos próprios. Constata-se a dificuldade do processo quando lemos ou ouvimos as estrelas da opinião em Portugal, incapazes de argumentar sem o recurso a citações várias com as quais adornam e crêem reforçar o seu pensamento. Infelizmente, o seu pensamento não emerge – tão sufocado que fica no pântano excessivo do consumismo académico.
Prática similar contamina, desde sempre, a feira opinativa dos weblogs. Sem consistência reflexiva que sustente uma ideia própria, o weblogger recorre amiúde à citação não para a desmontar mas para autojustificar-se. A citação torna-se o crédito que agradará à agência de rating da popularidade mediática, que é cada vez mais o trampolim a partir do qual partimos para a conquista do mundo. Existem excepções, mas não passam disso e ficam quase sempre a falar sozinhas.
O facto de alguém conceituado ter dito uma coisa não legitima mais nem menos uma opinião semelhante que possamos ter. Aquilo que pensamos, quando pensamos, pode suscitar felizes encontros, mas não são esses encontros (tantas vezes utilizados sem critério, descontextualizados, mal interpretados) que validam o nosso pensamento. O que valida o nosso pensamento é a capacidade de, aceitando premissas contrárias e oponentes, sabermos fundamentá-lo no confronto que é sempre mais dúvida do que certeza.
A inexistência de uma filosofia portuguesa estará relacionada com esta incapacidade de discutir, por assim dizer, no isolamento da reflexão, ao mesmo tempo que está relacionada com a dependência constante do pensamento alheio enquanto fundamentação, prova, credibilização e exemplo de uma ideia. Discutir na base de hipóteses é sempre mais lucrativo para o pensamento do que discutir na base de ideias.

3 comentários:

Diogo C. disse...

Tempo, Auto-Crítica. Já não existem génios dispostos a virar tudo do avesso, não porque não existam as cabeças, mas porque já tudo foi virado e revirado. Resta a citação.

Portugal é mais poesia. E está bem.

hmbf disse...

"já tudo foi virado e revirado"

salvo erro, já no renascimento se dizia o mesmo.

Miguel (St. Orberose) disse...

Manteve-se longe do Grupo '57? Isso é bom. Embora eu goste de ler Álvaro Ribero pelas gargalhadas que o chauvinismo dele me suscita:

"Eu não posso estudar o mínimo problema filosófico sem que na minha alma uma voz mais íntima proclame a superioridade do génio português!"