domingo, 24 de agosto de 2014

DESINTEGRAÇÃO


 
De tantas vezes me sentir desajustado, deixei de atribuir valor à integração. Ainda ontem pedia à Ana que não me falasse do mundo, que respeitasse o meu voto de ignorância. Dissesse-me de um bom filme, de uma peça artística, de um livro, de uma frase, da descoberta de uma nova especiaria. Há tanta coisa boa no mundo por descobrir que é um desperdício perder tempo com a previsibilidade e a superficialidade dos dias.
Desastres, tragédias, assuntos sérios, convém estar a par. Mas dispenso baldes de gelo pela cabeça abaixo, manifestações de pesar efémeras e inconsequentes, arroubos de estupidez, o sensacionalismo insuportável dos media. Por isso estou-me nas tintas se querem sóis escaldantes, sinto-me bem no nevoeiro; e não quero saber, na verdade nunca quis, das tendências, sinto-me perfeitamente fora de moda. Faço mesmo questão de estar fora de moda.
Nada nem ninguém censuro, simplesmente prefiro a dignidade do isolamento à estupidificação da vida gregária. Por isso desconfio dos benefícios da integração tal como geralmente é entendida. A opinião pública é demasiado volátil para que me mereça consideração, e os métodos de manipulação e intoxicação da mesma são tão flagrantes que chega a ser incomodativo uma pessoa sentir-se minimamente escudada pelo mais ténue espírito crítico. Prefiro sentir-me excluído a ser parte de um palco cuja peça não me entusiasma.
Dito de outra forma, concluo que à beira dos quarenta não troco mais um minuto de cante alentejano por uma vida inteira de fandango.
 

6 comentários:

A VIDA NUMA GOA disse...

Ótimo.

A VIDA NUMA GOA disse...

Posso publicar em meu blog na seção 'escritor visitante'?

hmbf disse...

sim

sonia disse...

Também sinto assim. Não conseguiria viver de outra forma. Pena ter descoberto um pouco tarde. Você descobriu isso antes. Mas está valendo de agora em diante, isso é melhor que não descobrir nunca...

sonia disse...

Também descobri que essa é a única forma possivel de viver em paz consigo mesma. Apesar de ter acontecido um pouco tarde, melhor que nunca.

hmbf disse...

É isso, melhor que nunca.