sábado, 30 de agosto de 2014

MANHÃ, TARDE, CREPÚSCULO, NOITE



Não é por coincidência que certos poetas se assemelham aos mágicos
a agilidade com que estes baralham as cartas
é a mesma com que aqueles baralham as palavras
para que em ambas as circunstâncias possam ser geradas ilusões
Deste modo chamam ao amanhecer sublime ritual
talvez por não pressentirem na lua da manhã
as manhas do dia atravessado por cabos de alta tensão
De sublime retenho apenas os pinheiros a espreguiçarem o vento
enquanto nos campos já se lavra e o gado apascenta




A verdade porém desalinha o rosto das falésias
com barracas ecologicamente erguidas onde vagas de calor
não temem agitações marítimas
E sentados o dia inteiro podemos dali observar
o ritmo votivo das horas distraídos da carne que envelhece
porque para nós toda a magia reside nessa distracção da morte
esse carimbo com que Deus nos reclama
mesmo que dele estejamos tão afastados como a noite do dia
É tarde
e arde nos dedos da poesia o baralho dos dias
e luz algures dentro do homem uma estranha simpatia
por tudo o que é desumano autêntico natural




Eis que a tarde expira seu fulgor derradeiro
nenhum mágico logra tais efeitos
jamais poeta algum conseguiu expressar este sopro
Palavras não há nem truques nem larvas
transformadas em crisálidas
que aqui sirvam sequer num mínimo de legenda
pois para lá do que aos olhos é possível alcançar
há uma sarça que medra dentro do peito e envolve o coração
com seu manto espinhoso
Não é possível determinar sua origem
manifesta-se em não se manifestar
como porventura certos modernistas fingiram entender
em poemas consumidos pela raiz




Ah leitor
não tem silêncio algum esta noite
é toda ela ruído de grilos em fúria e vento e luz
pássaros cujo nome desconhecemos
melancolias que voam dentro da nossa cabeça em remoinhos d’insónia
lobisomens fumando o último cigarro
antes de fingirem que adormecem
com canaviais restolhando noite dentro uma música medonha
rumor de álcoois profundos onde afogamos dias inteiros
manhãs tardes crepúsculos noites
para no lusco-fusco da magia vivermos eternamente

 

 

Esteveira, Vale dos Homens, Barradinha.