quarta-feira, 27 de agosto de 2014

NUVEM CLARA



este sol que pela manhã amansa a nuvem clara
aligeira o despertar com seus braços de ouro
 
escorre pelo regaço a primeira pessoa do singular
que a tudo se impõe como se relevância tivesse
ao pé do recorte secular que vento e sal e chuva e fogo tecem




já desprovidos d’ego e fundidos com a terra
somos pedra rocha mineral sem pensamento
 
que bom seria escoar também esta mania
de conceder expressão  ao silêncio
permitindo que indizível permanecesse tudo o que recusa
a palavra choca que nada multiplica na página branca
 
mas é mais forte que a bebedeira azul este esforço
por isso escrevemos quando simplesmente olhamos
por tal olhamos quando simplesmente vamos




não tem história que se conte nem narrativa este verso
nada tem que mereça mais do que a aventura
de olhar para fora da redoma colectiva
 
rasurar do verso a identidade
como na rocha inscrevemos a passagem do vento
inclinados que fomos pelo reflexo que faz de tudo o que é e foi
um pouco do que por certo virá a ser
 
exibe-se pois a nuvem clara na transparência das águas
estende-se no lençol d’areia e espreguiça a manhã
mais claros são os dias quando deixamos para depois
nossos próprios grãos de angústia
e simplesmente caminhamos paralelos à nuvem que passa