domingo, 31 de agosto de 2014

SOBRE "ESTAÇÃO 2012"











O sujeito poético não se deixa iludir pelos "cartazes fluorescentes das utopias", não exige nem procura um mundo perfeito, apenas um que seja "menos mau", um "mundo assim-assim". Dirigindo-se a um vago 'tu', lança em jeito de desafio: "Escreve um livro que denuncie o lixo / reciclado do mundo em que vives". Mas é ele próprio a atirar-se, com garbo, a essa missão. Ao contrário dos poetas amansados que escrevem "sobre amores-perfeitos" ou "como quem lê uma pauta", ele suja as mãos e os olhos, enquanto espreita a realidade através de "janelas negras". Desencantados, os versos enchem-se de imagens cortantes, deflagrações, violências, mas também de devaneios, de ensimesmamentos e dos golpes de luz do amor.

José Mário Silva
Expresso
30 de agosto de 2014
ATUAL 

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