segunda-feira, 25 de agosto de 2014

TEMPOS MORTOS



Inclina-se o rosto para o sol, voltam-se as costas ao mundo. É simples, mesmo quando pesam sobre os ombros toneladas de frio negro. Com a merda que somos podemos adubar inúmeras terras. Não restem vidas nem dúvidas nem dívidas, para com os outros apenas o dever de uma certa honestidade: dizer branco quando é azul não tem problema, baralha os neurotransmissores com que as coisas ganham forma; e verde mais amarelo dá um castanho muito belo e invejável. Sentindo alguma ligeira vergonha por dentro do peito se o nó do ressentimento se formar, faz-se assim mesmo de rosto inclinado para o sol e costas voltadas para o mundo. Achamos sempre que merecíamos melhor do que temos porque temo-nos. Mais fundo ou à superfície, medra quase sempre a estima rastejante que chega ao fundo das garrafas cheia de sede. Pelo caminho, campos de girassóis atapetam memórias livres… as memórias estendem-se nos beirais e reclinam a paisagem de angústia com carinho. Das inúmeras terras adubadas colhemos agora o texto, o suco da palavra que talvez escorregasse melhor com açúcar dietético. Enfim, não é para saber bem nem sequer gulosar a saúde. É mesmo para aligeirar os tempos mortos.
 
Beja, 2014.

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