Inclina-se o rosto para o sol, voltam-se as costas ao mundo.
É simples, mesmo quando pesam sobre os ombros toneladas de frio negro. Com a merda
que somos podemos adubar inúmeras terras. Não restem vidas nem dúvidas nem
dívidas, para com os outros apenas o dever de uma certa honestidade: dizer
branco quando é azul não tem problema, baralha os neurotransmissores com que as
coisas ganham forma; e verde mais amarelo dá um castanho muito belo e
invejável. Sentindo alguma ligeira vergonha por dentro do peito se o nó
do ressentimento se formar, faz-se assim mesmo de rosto inclinado para o sol e costas
voltadas para o mundo. Achamos sempre que merecíamos melhor do que temos porque
temo-nos. Mais fundo ou à superfície, medra quase sempre a estima rastejante
que chega ao fundo das garrafas cheia de sede. Pelo caminho, campos de
girassóis atapetam memórias livres… as memórias estendem-se nos beirais e
reclinam a paisagem de angústia com carinho. Das inúmeras terras adubadas
colhemos agora o texto, o suco da palavra que talvez escorregasse melhor com
açúcar dietético. Enfim, não é para saber bem nem sequer gulosar a saúde. É mesmo
para aligeirar os tempos mortos.
Beja, 2014.

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