sexta-feira, 5 de setembro de 2014

#41


Sinónimo de elegância, as canções de Joni Mitchell partilharam desde sempre a genuinidade folk com a inclinação experimental do jazz. À entrada do séc. XXI, os dois universos equilibraram-se com extraordinária lucidez numa colectânea bastante original. Both Sides Now (2000) é literalmente um romance, uma recolha de canções especificamente escolhidas para contar uma história. As orquestrações algo rígidas e convencionais abraçam a colaboração com estrelas inquestionáveis do jazz tais como Herbie Hancock (piano), Peter Erskine (bateria) ou Wayne Shorter (saxofone). Duas canções de Mitchell (A Case of You, de 1972, e Both Sides Now, de 1967) aparecem revestidas ao lado de standards da primeira metade do séc. XX, sendo curioso notar como a versão romântica da compositora canadiana para canções outrora cativas do êxtase amoroso (repare-se na versão de Comes Love) se torna muito mais trágica e melancólica do que seria expectável face a interpretações anteriores. As nuvens que se atravessam no caminho de Joni Mitchell fazem-nos olhar o mundo sob diversas perspectivas, não aceitando nenhuma delas como absoluta e total. Frente e verso, tal como se apresenta retratada na capa e na contracapa, são apenas lados complementares. Sempre foi assim, na música, na vida, na arte, no amor, e sempre ficamos com a única certeza de nada sabermos. Tentem resistir:


1 comentário:

Anónimo disse...

(Não tento resistir.)
Bela análise! Até hoje não tinha conseguido descrever esse álbum com outra palavra além de "agridoce".
"Both sides now" é irresistível, sem dúvida. Mas gosto ainda mais de "Blue".

É um gosto visitar esta "ilha deserta".
LM