segunda-feira, 15 de setembro de 2014

ABSTRACTION-CRÉATION


 
Da modelo nua do lado esquerdo à postura escolástica dos intervenientes, passando pela arrumação dos chapéus na parede do fundo e o cavalete em primeiro plano no canto inferior direito, tudo parece bastante convencional. A pose dos artistas é até um pouco confrangedora. Mas se aumentarmos a imagem e repararmos no pouco que se consegue ver dos trabalhos executados, talvez sejamos surpreendidos pelo distanciamento das obras face ao modelo. Estamos numa fase em que a base da abstracção ainda era o modelo. Entre este e o resultado final, processava-se uma reconfiguração da realidade. Abstrair seria, de certo modo, reconfigurar. A abstracção ainda não negava a figura, simplesmente a afastava do modelo e a aproximava de uma perspectiva subjectiva. Hoje os artistas raramente usam chapéu e prescindem quase sempre da gravata, os bengaleiros deixaram de ter a utilidade que tinham. Os cavaletes e as modelos também. Talvez se pense menos sobre o que se faz, talvez esteja tudo mais absorvido pelas técnicas de sedução, pelas modas, pelo estilo, pelas novas tendências, pelo design enquanto capacidade de atrair e satisfazer multidões. Há qualquer coisa de grandioso e ao mesmo tempo desconfortável nesta fotografia, qualquer coisa que não pode ser reduzida à vulgar declaração de um tempo em trânsito. Há nesta fotografia uma atitude que esvaeceu, uma vontade de transformar que ainda não tinha sido ameaçada pela presunção de que já nada de novo é possível acrescentar ao mundo.

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