quarta-feira, 10 de setembro de 2014

AVÔ, COMO ERA A VIDA NO TEU TEMPO?



Quando a imagem começa a desfazer-se em água somos introduzidos na analepse, separador de tempos que anuncia um recuo cronológico. Usado até à exaustão, este efeito desapareceu dos ecrãs. É, pelo menos, muito mais raro.
Sabíamos do flashback pela sua mágica sugestão, é como se recuar no tempo fosse um mergulho nas águas profundas de um rio qualquer. Nas águas do Hades, talvez. Habituámo-nos a associar o tempo à água, o rio que corre, as águas paradas, o mar revolto das amarguras, o iceberg freudiano nos mares do ser.
Interrupção cronológica no interior da personagem, portal por onde o pensamento penetra os labirintos da memória e aí se perde até de novo ser despertado para a realidade, efeito mágico, talvez, que recupera o passado para dele fazer prova no presente: a imagem que treme em remoinho e se transforma numa aparição mais ou menos lúcida do passado, por vezes acompanhada de vozes distorcidas, esboços de figuras, espectros, é a porta do tempo que atravessamos diariamente.
 Divagações, ensimesmamentos, sonhos, momentos de introspectiva apatia, todos temos. E sempre antes de neles mergulharmos se forma, como que por magia, essa imagem flutuante no pensamento. Porque a memória enturvece a realidade, a realidade insidia a consciência, e entalados entre o que fomos e o que estamos a sentir pensamos quase sempre sob a luz deturpadora dos anseios.
Tenho vários destes momentos ao dia, quando pauso para o cigarro, enquanto bebo mais um café, durante a imperial no final da noite de trabalho. Não porque viva arreigado ao passado, passado que ainda não tenho ou é demasiado curto para o que uma vida carece de experiência. Tenho vários destes momentos ao dia porque me perco, naufrago amiúde nas marés da nostalgia e me questiono: que futuro é este sem passado?
E lembro-me como era bom não me lembrar de nada, sonhar apenas com amigos imaginários (todos os que tive na infância) e vidas virtuais. Lembro-me sem ilusões nem devaneios, lembro-me apenas porque se torna inevitável lembrá-lo. De certo modo, o mundo tecnológico devolve-nos o lado mágico da infância. Assim que ligamos o computador, dá-se o efeito que induz o flashback. Mesmo que circulemos pelas notícias do presente, é no passado que estamos - protegidos da realidade pelo mundo da fantasia.
O virtual não nos desliga da realidade, simplesmente produz sobre ela o tal efeito mágico de a tornar coisa passada. Porque é tudo efémero e hipersónico, superficial e epidérmico no mundo virtual. Mesmo quando da nossa vida já pouco resta de verdadeiro, autêntico, genuíno, mesmo quando da nossa vida já pouco resta que não seja separado pelo efeito mágico do remoinho, mesmo quando tudo se misturou ou fundiu para se confundir e ficamos sem saber se é no abismo ou sobre a terra que tocamos o ar, mesmo quando assim é ficamos sozinhos e à deriva.
Talvez o efeito tenha deixado de ser um separador para se tornar na realidade ela mesma, talvez estejamos todos a viver dentro de um flashback que já não é flashback, é apenas esta realidade espectral e distorcida que obsidia a mente e nos faz pensar nas coisas como se não fossem coisas, no homem como se não fosse homem, na vida como se não fosse vida, ou seja, na vida como se não fosse estar à morte, no homem como se não fosse amestrado instinto, nas coisas como se não fossem ruína, podridão, poeira, cinza, esquecimento, decomposição, morte e floração.
Deixando de haver esta separação, tudo se torna urgência, presente, ausência de projecto porque ausência de passado. E numa ensimesmada navegação reparamos que aos nossos netos teremos apenas para oferecer a entediante história de um homem que passava os dias sentado ao computador, numa infância resgatada pelo sonho virtual. Avô, como era a vida no teu tempo? Era assim, como a tua, nada a acrescentar.

Sem comentários: