segunda-feira, 29 de setembro de 2014

ENTROPIA


Tenho uma relação difícil com a fotografia. Detesto ser fotografado, tal como detesto ir ao dentista ou cortar o cabelo. Sinto que me estão a roubar qualquer coisa, sinto-me violado, enfraquecido. Durante muitos anos pura e simplesmente recusava tirar fotografias, preferia guardar dentro de mim as imagens que o meu cérebro, por razões que só ele sabe, pretendesse conservar ou reciclar. A fotografia enquanto arte também não me entusiasmava, chegava-me como mera destreza técnica. Parvoíce minha. Num tempo onde a imagem se nos impõe com a carga de uma tortura, um bom fotógrafo é aquele cujo trabalho logra resistir a estas minhas resistências. (Escusado será dizer, embora o faça por precaução, que toda a classificação aqui insinuada é assumidamente subjectivista.) Fala-se na sensibilidade do olhar, na capacidade de escolher o momento, na destreza para o enquadramento. Neste caso, entre o homem e a máquina acentua-se a interdependência do artista com a ferramenta. O fotógrafo precisa conhecer bem a máquina, precisa entender o olhar da máquina para, através desse olhar, conseguir uma representação fiel à perspectiva que pretende fixar. Não sei se a fotografia fixa momentos, pressinto que o fotógrafo seja fixado pela escolha desses momentos.
Este pequeno livro da Sara Rocio reúne alguns momentos reveladores de uma forma de olhar o mundo. Nas fotografias seleccionadas encontramos interiores, cenas aparentemente domésticas, objectos, algumas pessoas em ambiente geralmente descontraído, rostos mais ou menos desfocados, pormenores onde ressalta uma certa ruína paisagística. Em todas elas, uma dominante: o rasgo de luz que se intromete na cena como se fosse sombra. Nestas fotos, quase sempre verticais, os papéis da luz e da sombra parecem inverter-se. A sombra, a que podemos chamar negro ou escuro, embora não sejam necessariamente uma e a mesma coisa, é o manto que obsidia um espaço onde a luz surge como se fosse uma projecção do escuro. Assim é na luz que penetra a sala escura, através das janelas, e incide sobre o soalho, assim é nos corredores sombrios com fundo iluminado, assim é nos jogos de espelhos recorrentes. Gosto particularmente desta imagem por me parecer fortemente exemplificativa do que estou a dizer:


O entorpecimento resulta de uma suspensão da visibilidade que o ponto luminoso sugere, apontando uma forma humana, o fragmento de um corpo humano, no meio do escuro, mas não permitindo formulações objectivas sobre esse corpo. Isto porque não é o corpo que importa ali, mas a relação que esse fragmento humano estabelece com o ponto luminoso no meio do escuro. Repare-se como, pelo menos em certa medida, a luz parece a sombra do corpo que a escuridão projecta. Numa outra imagem de que gosto muito percebemos a silhueta de um cão no que pode ser um terraço, um viaduto, uma ponte… Tudo parece indiferente nessa imagem, excepto a silhueta animal e a claridade que se projecta de cima para baixo como se um holofote ali tivesse sido colocado. Pelo menos, é essa a primeira impressão. Mais atentos, perguntamo-nos: terá sido colocada “uma cortina” à frente da lente? Ou então são “as pestanas da máquina” revelando uma espécie de atordoamento. É como se os nossos olhos estivessem embaciados ou semiabertos, reflectindo porém a bela metáfora (contraste?) do animal vigilante e isolado:



Os momentos de claridade que as fotografias da Sara delineiam escondem um trabalho que expressa princípios estéticos muito conscientes da sua poeticidade. Apetece dizer, como Ruy Belo dizia da poesia, que estas imagens “metem-se pelos olhos dentro, são uma forma de visão que ensina a ver”. Mas são também a musicalidade das formas, um tango onde a treva guia a luz. O meio do volume é partilhado entre um extraordinário auto-retrato e uma fotografia retirada no interior de uma casa que nos mostra a luz que vem de fora, a luz que entra pela porta aberta da varanda e se estende pelo chão como um tapete onde podemos limpar os olhos. Penso que é isso que a Sara melhor regista, essa luz que a obscuridade projecta fundando uma nova perspectiva da distorção e da ausência de brilho que marcam a realidade. Não busca transparências onde elas não podem ser vislumbradas nem exibe o deslustre do mundo com hiperbólica prostração, simplesmente procura captar o ponto luminoso no meio do vazio saturado pela ruína. É a esta procura, cujos caminhos são tão ínvios quão diversos, que eu gosto de chamar arte.

5 comentários:

MJLF disse...

Belo texto sofre as fotos da Sara. saúde e bjs para toda a tribo

MJLF disse...

escrevi sofre em vez de sobre, estou patareca de todo :P

antonio cabrita disse...

estupendo

Anónimo disse...

"A sombra, a que podemos chamar negro ou escuro, embora não sejam necessariamente uma e a mesma coisa, são o manto que obsidia um espaço onde a luz surge como se fosse uma projecção do escuro."

A sombra é o manto...

hmbf disse...

agradeço a correcção