quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O FEIO FEIO MESMO FEIO

Em Wrecking Ball, Miley Cyrus aparece de cuecas e botas da tropa, ou algo parecido, a lamber um malho (há quem lhe chame martelo ou marreta, talvez por nunca ter experimentado a diferença entre as respectivas ferramentas). Já Jennifer Lopez deixou de fora os malhos e concentrou-se nas curvas femininas. Em Booty o tema são os cus, pelo que o vídeo não se poupa a exibi-los. Depois há as danças de varão da Shakira, os ringues da Christina Aguilera, o sadomasoquismo em papel celofane de Rihanna, entre outras preciosidades congéneres. Amigo acérrimo defensor da teoria segundo a qual a beleza não se conjuga com a inteligência aponta estes exemplos como sinal de um total esvaziamento na música pop, reduzida aos efeitos provocados por vídeos de índole erótica com discursos sedutores rasteiros. Talvez eu seja idealista e conservador, mas continuo a acreditar que a inteligência é bela. Por isso mesmo, procuro não confundir os dois planos.
Estamos aqui num plano diferente, o mesmo plano dos jogos comerciais cujo fim é somente aliciar o consumidor para um produto, independentemente da qualidade do mesmo. Sempre que vejo reduzida uma obra aos dotes físicos do seu (ou da sua) autor (ou autora), fico desconfiado quanto à qualidade da mesma. Porém, hoje em dia essa qualidade parece medir-se exactamente pela capacidade de vender o produto recorrendo à exibição da sensualidade. A linguagem sexual continua a atrair multidões numa sociedade onde o culto do corpo tornou o culto do intelecto uma atitude obsoleta e um comportamento pateta. Isto vê-se em diversas dimensões da vida social, desde os videoclipes das estrelas pop à partilha mais ou menos inofensiva de fotografias nas redes sociais, dos anúncios publicitários à proliferação de literatura pseudo-erótica com os seus príncipes encantados e alvos meticulosamente delineados.
Basta passear cinco minutos por uma livraria para nos depararmos com escaparates repletos de títulos sugestivos tais como Pede-me o que Quiseres, Deseja-me, Obsessão, Quero-te, Os Segredos da Noite, Entrega-te ao Amor, Ama-me (que certos clientes solicitam referindo-se a um eventual título "Mama-me"), etc., etc., etc., etc.. Reality shows como A Casa dos Segredos, que nunca vi senão fragmentariamente em breves trechos publicitários suficientemente esclarecedores, limitam-se a radicalizar este cenário de exibicionismo erótico com concorrentes (chamar-lhes personagens seria um atentado terrorista) onde a tal sensualidade esvaziada de inteligência se impõe como único factor de atracção disponível. Porém, não há beleza alguma naquelas indivíduas e naqueles indivíduos cujos atributos físicos não superam a fealdade da idiotice, dos disparates, da burrice, da estupidez, ostentadas, desde logo, na forma como se apresentam e definem em sketches cujo efeito é precisamente chamarem a atenção das massas para o quão grotescos e aberrantes são os concorrentes.
Os corpos esculturais, as tatuagens, a indumentária, são apenas adereços em figuras cuja essência se dissolve na aparência. O meu lado idealista, romântico, conservador quer acreditar que por detrás daquela imbecilidade há seres humanos com bons e maus sentimentos, com problemas, com frustrações, com oportunidades distintas, assim como acredita que por detrás dos vídeos acima aludidos haverá máquinas comerciais eficazes. Nem tudo o que parece estúpido é desprovido de inteligência (digo eu). No entanto, o que há de problemático nesta realidade não é a maior ou menor inteligência dos conteúdos. É mesmo a total fealdade e o absoluto carácter inestético dos mesmos, sejam eles transfigurações pífias do erotismo ou pessoas tornadas representação de si próprias num contexto complexo onde o palco deixou de distinguir o íntimo e o privado do público e do mero exibicionismo.
Há, sem dúvida, uma “palermização” da sociedade que parece irreversível. O infantilismo que oportunisticamente penetra todas as esferas da vida pública, desde a política (com seus pedidos de desculpa) à artística (com seus videoclipes), passando pela comercial (com suas promoções), entre outras, é uma espécie de vírus que tudo contamina e tudo torna simplesmente feio. Talvez nunca tenha sido tão feio e descaracterizado e aberrante como hoje o mundo em que vivemos. O que não é estranho, sobretudo se pensarmos que é essa fealdade o que mais se promove com a natural desresponsabilização dos agentes a quem dantes cabia, permitam-me recordá-lo, a transmissão de uma certa urbanidade (aquilo a que chamávamos valores).  Com as famílias em permanente estado de negação, com as escolas transformadas em meros negócios, com os media demitidos das suas mais nobres funções, resta-nos fazer como o eremita: recolhermo-nos no deserto onde por certo encontraremos a beleza, a felicidade, a alegria de viver.

 

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