quarta-feira, 8 de outubro de 2014

#46


A diva da canção egípcia tem imensos nomes. Chamo-lhe Om Kolthom porque assim a encontrei num bazar do Cairo, embora já tenha visto o nome grafado de modos diversos: Umm Kolthoum, Om Kalthoum, Umm Kulthum… Todos estes nomes querem dizer uma mesma coisa: voz divina. Existiu entre 1904 e 1975, mas vive para lá do tempo.
 

É pouco referida a ocidente, talvez por ser “árabe” e, como por vezes se escuta por aí, os “árabes” nada terem de bom a oferecer ao mundo. Ora, quem assim fala deveria abrir os ouvidos para escutar esta voz que se levanta da terra, ascende aos céus e para lá nos transporta em sua companhia.
 

Ainda por cima, as fotografias revelam uma mulher bonita, capaz de embaraçar os xailes negros do fado mais conservador com uma gargalhada estridente. Percurso típico: nascida pobre, foi o pai que a incitou a recitar o Alcorão. A voz poderosa atraiu atenções, aprendeu a tocar alaúde e fixou-se no Cairo na década de 1920. Ahmed Rami introduziu-a na poesia árabe, escreveu-lhe imensas canções, a fama foi chegando naturalmente, embora pouco influísse no estilo de vida sóbrio. Cantava de lenço na mão, uma das suas imagens de marca. 


A discografia é difícil de determinar, tal a dispersão de registos. Yally Kan Yeshgeek Anieny (You who enjoyed my cries) data de 1949, em plena idade de ouro da sua carreira. Podeis retirar d'aqui uma impressão de como seria assistir ao êxtase. O público reage com aprovação, espanto, enlevo, escutam-se suspiros de profunda admiração, seguem-se as palmas. A voz de Kolthom não é apenas a serpente que dança atraída pela melodia que sai da flauta, ela impõe aos instrumentos o desempenho dos ventos, adeja as dunas do deserto como a sombra do falcão. O que da sua voz nos chega não é apenas oração nem lamento, é a celebração da vida, uma oferenda, a exaltação das forças vitais que reúnem o mundo numa mesma entoação.

3 comentários:

Marina Tadeu disse...

Reli Tapetes de Erva e Folhas caídas com o concerto da cantora ao fundo. Para mim, funcionou.

João disse...

Agradeço o magnífico serão no esplendor da erva.

Textículos disse...

É para a música árabe o que a Amália é para o Fado, a Diva. O mundo árabe parava para ouvi-la quando cantava na rádio.
Quando vivi no Egipto passei algum tempo num hotel com o nome da diva ainda hoje amada pelo povo.

http://texticulos.blogs.sapo.pt/48752.html