domingo, 26 de outubro de 2014

AS FACES DE TIGRAN HAMASYAN



 
Nascido na Arménia em 1987, Tigran Hamasyan faz parte de uma geração de músicos para quem os géneros não conhecem fronteiras. Dir-se-ia que a sua música é de fusão, não fosse ela antes de integração. A diferença reside mais na forma do que no conteúdos. Na fusão os diversos elementos perdem a sua singularidade em prol de um corpo que resulta da agregação de diversas identidades, enquanto a integração preserva a diferença reunindo num mesmo espaço identidades que não necessitam de se destruir para conviverem em harmonia. Há nesta atitude uma pertinência que nos leva a acreditar ser de facto a arte a melhor política.
 


 
Sendo geralmente associado ao jazz, Hamasyan frequenta registos tão diversos e aparentemente incompatíveis como a pop e a música erudita, o rock progressivo e a chamada world music (neste último caso com uma subtil assimilação das suas raízes culturais). Tendo começado a gravar em 2006, com apenas 19 anos, conseguiu surpreender pela prodigiosa precocidade no domínio do piano. Sem uma formação estanque ao longo dos últimos anos, apresentou-se ontem com um trio composto por  piano, baixo eléctrico e bateria. O próprio foi-se agitando entre o piano e o sintetizador, recorrendo frequentemente a loops e processamentos que lhe permitiam construir atmosferas ora etéreas, ora visceralmente abstractas.
 
 

 
 

Cada peça interpretada apresentou uma arquitectura onde a dominante parece ser o contratempo com melodias espartilhadas, aproximando-se por vezes de um heavy-metal arrojado com a intenção de expressar intensamente contrastes e ambiguidades sonoras. Lembrei-me dos King Crimson, havendo entre o piano de Tigran Hamasyan e a guitarra de Robert Fripp a coincidência da experimentação suportada pela incorporação dos sintetizadores. Por outro lado, o músico arménio denota amiúde um rigor na reprodução das suas texturas que o aproxima muito mais de certa música erudita contemporânea. O álbum Shadow Theater (2013) esteve em evidência, nomeadamente nos momentos em que o formato canção sobressaiu. A versão apresentada do tema Drip, por exemplo, foi um dos momentos altos do espectáculo, quer pela agressividade, quer pela desconstrução/reinvenção operada numa versão muito mais longa do que a de estúdio. Uma imagem roubada a estes sons pode ser a de uma lágrima seca a escorrer por dentro de um rosto, por vezes de raiva, outras vezes de medo, por vezes de solidão, outras de saudade, intensa, vigorosa, prémio do homem que reage para lá do ódio.

 
 

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