Nascido na Arménia em 1987, Tigran Hamasyan faz parte de
uma geração de músicos para quem os géneros não conhecem fronteiras. Dir-se-ia
que a sua música é de fusão, não fosse ela antes de integração. A diferença
reside mais na forma do que no conteúdos. Na fusão os diversos elementos perdem
a sua singularidade em prol de um corpo que resulta da agregação de diversas
identidades, enquanto a integração preserva a diferença reunindo num mesmo
espaço identidades que não necessitam de se destruir para conviverem em
harmonia. Há nesta atitude uma pertinência que nos leva a acreditar ser de
facto a arte a melhor política.
Sendo geralmente associado ao jazz, Hamasyan frequenta
registos tão diversos e aparentemente incompatíveis como a pop e a música
erudita, o rock progressivo e a chamada world music (neste último caso com uma subtil
assimilação das suas raízes culturais). Tendo começado a gravar em 2006, com
apenas 19 anos, conseguiu surpreender pela prodigiosa precocidade no domínio do
piano. Sem uma formação estanque ao longo dos últimos anos, apresentou-se ontem
com um trio composto por piano, baixo eléctrico e bateria. O próprio foi-se agitando
entre o piano e o sintetizador, recorrendo frequentemente a loops e processamentos
que lhe permitiam construir atmosferas ora etéreas, ora visceralmente
abstractas.
Cada peça interpretada apresentou uma arquitectura onde a
dominante parece ser o contratempo com melodias espartilhadas, aproximando-se
por vezes de um heavy-metal arrojado com a intenção de expressar intensamente contrastes e ambiguidades sonoras. Lembrei-me dos King Crimson, havendo
entre o piano de Tigran Hamasyan e a guitarra de Robert Fripp a coincidência da
experimentação suportada pela incorporação dos sintetizadores. Por outro lado,
o músico arménio denota amiúde um rigor na reprodução das suas texturas que o
aproxima muito mais de certa música erudita contemporânea. O álbum Shadow Theater (2013) esteve em evidência,
nomeadamente nos momentos em que o formato canção sobressaiu. A versão
apresentada do tema Drip, por exemplo, foi um dos momentos altos do
espectáculo, quer pela agressividade, quer pela desconstrução/reinvenção operada numa
versão muito mais longa do que a de estúdio. Uma imagem roubada a estes sons
pode ser a de uma lágrima seca a escorrer por dentro de um rosto, por vezes de
raiva, outras vezes de medo, por vezes de solidão, outras de saudade, intensa, vigorosa,
prémio do homem que reage para lá do ódio.
2 comentários:
Obrigado! Muito bom!
olá fernando
abraço
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