quarta-feira, 29 de outubro de 2014

ESFORÇO INÚTIL

Dita da forma certa, a maior banalidade torna-se axioma. Nos tempos que correm, a lógica perde para a retórica a força do argumento. Nenhuma capacidade de persuasão supera a sedução de um auditório embasbacado com lugares-comuns. Ninguém chega à verdade pelo raciocínio, mas podemos conjugar essa arte com a ligeireza do dizer. Ligeiro, sedutor, banal, o discurso logra certa aceitabilidade e a adesão do público. A entrevista, o debate, os cronómetros dos media balizam a extensão do pensamento. Dantes, discutia-se até altas horas um mesmo tema, aprofundava-se o tema, andava-se às voltas do tema sem que o tempo fosse preocupação. Os livros eram extensos e pesados. Hoje chamam-se ensaios, são como ir ao cinema e comer pipocas. A razão de tudo isto ser assim está na presunção do saber. Poucas pessoas estão dispostas a aceitar a sua ignorância, mas ninguém se dá por vencido quando toca a afirmar uma ideia de inteligência e conhecimento. Problema de auto-estima (vaidade?). Daí a necessidade de afirmar, afirmar, afirmar (falar), que nada tem que ver com a necessidade de interrogar, interrogar, interrogar (escrever). O que preocupa as pessoas, talvez inconsciente e naturalmente, é o proveito das ideias, dos pensamentos. Rejeitam as utopias como se de lixo se tratasse, não descobrem nenhum ganho nelas, não vêem nas utopias um horizonte que reclama o esforço do pensamento. Qual esforço? Para quê? O proveito imediato das ideias, a utilidade das ideias, das reflexões, facilmente se desmontaria se estivéssemos dispostos a ir um pouco mais além.

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