segunda-feira, 20 de outubro de 2014

[Se não dormimos]


para o Henrique Manuel Bento Fialho

Se não dormimos,
O melhor é abandonarmos as palavras,
As imagens sedutoras, a si próprias;
Cumprir a rotina de nos alimentarmos
Da voz, do sangue, das coisas pequenas
Que chegam trazidas por não sabermos.

Nada será apagado,
Ainda que o tempo obrigue à rectificação.
Continuaremos a correr, apesar
De as ruas nos estarem vedadas,
Cercadas pelo zelo mortal de alguns
Que sossegam de sono quem passa.

Sabemos já que agora é o tempo em que não dormimos,
Agora a falta que se sente de cada vida,
Que escapa ao que da memória se escolhe.
Na presença do tempo há um sorriso
Concedido a esse absoluto
Que nos fascina e que não conhecemos.

O território dos que se deitam para dormir
É o rigor das máquinas, é a altura
Que não acrescenta à delicadeza
Mais do que o frio portátil da vigilância;
É o mundo dos que não falam,
Dos que preferem a lisura do sigilo.

Tudo será dito sem memória nem futuro -
Sujeito à solidão das vagas,
Porque só as pessoas se amam,
Não a corrosão dos sintagmas ou das vírgulas,
Nunca o prestígio, a ilusão da cor do nome
Ou a sucessão de submissões.

É neste instante aqui que saboreamos,
Que permitimos ao corpo a fome e a sede
E as carências todas de justiça
Confronto com o que está próximo,
Movimento de ascender ao reino desconhecido
Mesmo que o não reconheçamos ou desejemos.

E embora seja impossível saber
Quantos e quais os momentos
Em que ultrapassamos a banalidade,
Nunca é sombra o gesto de apagar
O cigarro sabendo que esteve aceso.
Sabendo que antes e depois de agora,
                                                         o sono.


Rui Almeida (n. 1972), in Lábio Cortado (2009). «Estamos perante uma poética que estabelece uma subtil conjugação entre a palavra e o mundo, assumida numa apresentação do poema como produto da linguagem. Rui Miguel Leal de Almeida oferece-nos uma poesia que, como Paul Valéry escreveu, "o poeta consagra-se e consome-se a definir e a construir uma linguagem na linguagem". E ao fazê-lo com evidente qualidade reflexiva e uma sólida austeridade formal, a poesia de Leal de Almeida ganhou uma inegável e singular identidade entre mais de uma centena de concorrentes ao prémio Manuel Alegre. Diria mesmo que o poeta de Lábio Cortado se abeira da poesia como sendo ela um modo "de descoberta, de criação e de alargamento do conhecimento" (Nelson Goodman)» (Paulo Sucena, in posfácio a Lábio Cortado).

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