quarta-feira, 8 de outubro de 2014

TAPETES DE ERVA E FOLHAS CAÍDAS

 
 
Nada entendo do optimismo com que Walt Whitman canta a humanidade, ele que viveu entre a revolução e a secessão, assistiu à comercialização de homens e de mulheres em hasta pública, viu tombar jovens soldados, tratou as feridas do escravo em fuga, foi censurado, cantou o mundo moderno, o Novo Mundo. E ainda que perceba o seu entusiasmo pela democracia, ou pelo menos julgue perceber, coloco-lhe as minhas reservas. Caminho por estrada mais estreita, não censuro tanto quanto procuro compreender, evito o contágio dos vermes que tudo corroem e olho para traz com tanta vontade de aprender como olho para a frente com desconfiança. Não é o progresso que me atemoriza, mas o deslumbramento dos homens, a facilidade com que se adaptam a circunstâncias inóspitas e nelas aprendem rapidamente a respirar como se sempre nelas tivessem existido. O meu carreiro é muito mais estreito, tem a liberdade por horizonte e nas margens igualdade em poder ser desigual, a canção filantrópica da natureza quando a chuva rega os caminhos e os pés se enterram na lama.

 
O corpo, sim, o corpo que espreita entre a ramagem e proclama seu silêncio. Julgo compreender essa solidão do viandante que canta um primitivo mundo novo e vê passar por si todas as coisas como um rasto infindável do tempo, e sabe que por cima de si continuarão a transitar astros, ideias, imagens, o eco do tiro disparado pelo caçador, a evocação do índio, a dança do escravo. Que devemos nós a este progresso que retirou dos pescoços e dos pulsos e dos tornozelos os grilhões de ferro, mas prendeu o corpo todo, e no seu todo a alma intumescida, a uma voracidade insuportável que não ama, nem deseja, só condena? Aceito o amor viril por todos os homens, aprenderei a aceitá-lo, e de mão dada com eles também eu caminharei, quando em cada nascimento vislumbrar já não apenas a morte anunciada mas uma vontade indómita de viver. Sobre a terra cai a folha, da terra brotam árvores, nas árvores fazem meus olhos o ninho de semanas inteiras d’espera.

 
Whitman viu a ave migratória, isolou-se no deserto, sabia das índias exploradas e dos búfalos em extinção. Como pôde amar integrando no seu coração norte e sul, branco e negro, tudo aquilo que se opõe em cada grão que floresce? Saberia ele das coisas paradas que transitam? Da pedra que morre? Da água que respira enquanto no seu leito aves e insectos e peixes se devoram uns aos outros? O humanismo do poeta consistiu em caminhar lado a lado, aceitando o tempo de cada coisa, a essência de cada coisa, a contradição no imo de cada coisa, como sendo suas. Disse:
 
Acredito na carne e nos apetites,
Ver, ouvir, sentir são milagres, e cada uma das minhas partes e extremidades são um milagre,
Sou divino por dentro e por fora, e torno sagrado o que quer que toque ou me venha tocar,
O odor destes sovacos é um aroma mais delicado do que uma oração,
Esta cabeça é mais do que igrejas, bíblias e todos os credos.
 
Sacralizado o corpo, o homem sobre todas as coisas, sua capacidade para amar, o amor, a democracia, a liberdade, a amizade, profetizou o poeta como um cristo impresso. Mas o poeta não é Deus, o poeta observa, escuta, contacta, interroga, ama, canta. Tal ave de arribação, o poeta caminha entre os homens e aos homens devolve a sua caminhada.



Por mais que me esforce não consigo entender o amor eterno na glorificação das armas. Percebo o canto de si mesmo no que tem de canto de todos, porque num só estão todos e em todos apenas um. Aceito a beleza da morte tanto quanto aceito a beleza da vida, mas esses hinos metálicos de guerra e sangue, esses hinos fazem-me outro apelo enquanto olho a minha cidade de hoje. Desço à lagoa, caminho, espreito as aves, releio o corpo eléctrico do p(r)o(f)eta. Isolo-me dos cortejos fúnebres que à noite recitam versos, distancio-me das trupes com palhaços e ilusionistas, caminho até tornar silêncio a gritaria dos altifalantes, e já nesse silêncio, isolado, procuro escutar no interior das gotículas o canto das aves, infundo os aromas da terra na página dos olhos, adormeço por instantes «as minhas filhas adâmicas e inexperientes», reencontro-me com a coesão do mundo na terra molhada, nos tapetes de erva e folhas caídas, no pântano onde a ave busca alimento, energia para o voo, de manhã cedendo às tardes bebo as formas perfeitas da natureza e desejo ainda mais silêncio, ainda mais distância, ainda mais isolamento. Porque é quando me isolo que melhor sinto desabrochar o eco da palavra inscrita, e cresço e mingo e derramo-me como quem mergulha de mãos dadas para dentro do vento.

1 comentário:

maria disse...

muito bom, p(r)o(f)eta! :)