Andou por aí aceso debate subordinado ao tema “vale a
pena ler livros novos?”. Vale. Quem tiver dúvidas, pode começar por aqui: Um
Bárbaro em Casa (Língua Morta, Agosto de 2014), de Frederico Pedreira (n.
1983). Não é livro perfeito (qual é?), não tem a consistência dos clássicos
(nem a tal se propõe, se é que propõe alguma coisa), falta-lhe profundidade
reflexiva (ainda bem). Mas é livro que diverte e inquieta em doses quase
excessivas, no limite da overdose, ao mesmo tempo que tenta equilibrar-se no
traço descontínuo da experiência. Aparentemente, trata-se de um livro de
contos. Sete, para ser preciso. Mas há entre os textos coligidos um elo que nos
permite olhar para Um Bárbaro em Casa como algo mais do que uma colectânea de
contos. Esse elo é, desde logo, a voz persistente do narrador, um sujeito que
por vezes nos parece desequilibrado, noutras circunstâncias autêntico como só
os cínicos puros logram ser, em certas ocasiões tão intragável como inspirador.
O olhar que lança sobre si próprio não é menos crítico ou implacável do que o
olhar que lança sobre os outros e o mundo que o rodeia, bebe muito, usa e abusa
de uma linguagem rude, deixa-nos constantemente na dúvida sobre a mise-en-scène
adoptada para a representação das suas histórias. Têm todas elas nome ou
diminutivo de mulher (Tota, Hanna, Jasmine, Ivanna, Martina, Mel, Filipa),
ocorrem em cidades europeias que parecem corresponder a estádios do desenvolvimento do narrador (Reykjavík, Porto, Lisboa, Londres), transitam da
tenda para a rua, desta para os bares, daqui para os ocasos da noite,
atravessam ocupações medíocres, aventuram-se nas esquinas da embriaguez com
muito sexo frustrado e relações fracassadas. Este bárbaro é, como costuma
dizer-se, um anti-herói, sendo possível vislumbrar nas suas vivências vertiginosas algo de geracional que é a encenação do maldito. Descrevem-se
situações repletas de pormenores abjectos, acções e gestos caricatos, usa-se a
língua como um instrumento cortante para provocar sensações desconfortáveis.
Tudo isto, como é óbvio, pode ser montado como um lego, adquirindo especial
interesse quando no texto se intrometem as dúvidas do narrador sobre o seu
próprio discurso: «Saí do bar a correr e depois de alguns quilómetros fui
sentar-me numas rochas que ficavam perto da crispação nebulosa do mar.
Nebulosa? Ah, poeta romântico, escritor maldito… Não permitas que te fintem,
não deixes escapar o teu livro negro pela cueca. Um dia destes um varredor to
apanha e bota no lixo» (p. 23) Um outro exemplo: «O seu avô morreu. Eu
arrastava estas palavras pelo corredor, sem encontrar uma saída plausível (não
é arroto metafísico), arrastava-as com a indiferença de quem se habitua aos
poucos a um porta-chaves tenebroso que lhe foi oferecido» (p. 102) Como
interpretar esta denúncia recorrente das artimanhas do texto senão pressupondo
uma segurança, uma consciência de si, que permite ao autor detectar e evitar o
sentimentalismo sensacionalista e o “arroto metafísico”? São sinais de uma
firmeza na prosa que é raro encontrar, mais ainda num autor tão jovem. Sinais que
não devem, porém, distrair-nos de algo substancial que extravasa a
aparência formal da narrativa. Estando todos os contos marcados por relações
ambivalentes entre o narrador e as mulheres que se lhe atravessam pelo caminho,
ou aquelas contra as quais ele embate como que por acidente e desastrosa condução
(autores como Fante e Bukowski ecoam a espaços), o autor não se furta à emoção,
sendo por vezes dilacerante o modo como essa emoção irrompe do caos sensitivo.
Nem tudo é pele nestes contos, embora tudo se exerça à flor da pele. A morte do
avô no conto Martina é um desses momentos, capaz de negar «a tristeza de
bate-chapas da escrita» (p. 95) deslocando-nos da notícia melancólica para o frenesim
da vida nocturna na 24 de Julho. Outro momento altamente emotivo é-nos oferecido
no último conto, estádio derradeiro de uma espécie de queda na realidade,
quando o narrador se vê na contingência de tomar nos braços a “educação” de uma
criança órfã de mãe toxicodependente: «não deixes que o amor te escangalhe o
voo, as mulheres jogam em planos ínfimos para nos foderem a vida, cheira-lhes
só o perfume e afasta-te, a tua mãe morreu e eu estou aqui contigo» (p. 153).
Palavras nada convencionais, de uma dureza só possível em quem exibe
na testa as cicatrizes de várias cabeçadas dadas na parede. Digo na parede para
não dizer muro de lamentações, pois nenhum lamento ressoa nestes contos. Antes
pelo contrário, são textos afirmativos de situações porventura lamentáveis mas
que não inspiram lamentos. Momentos de aprendizagem no traço descontínuo da
experiência.
sábado, 29 de novembro de 2014
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
O QUE É FEITO?
Anáfora para Fátima Campos Ferreira.
O que é feito do polícia branco que matou um jovem preto?
O que é feito da Ucrânia?
O que é feito das Pussy Riot?
O que é feito da Palestina?
O que é feito do Estado Islâmico?
O que é feito da legionela?
O que é feito da Paula Teixeira da Cruz e do Citius?
O que é feito do ébola?
O que é feito do Nuno Crato e dos erros na colocação de
professores?
O que é feito da Serra Leoa?
O que é feito dos Vistos Gold?
O que é feito dos submarinos?
O que é feito do Papa?
O que é feito das vítimas de violência doméstica?
O que é feito do desemprego?
O que é feito do Orçamento de Estado para 2015?
O que é feito das pensões vitalícias?
O que é feito do padre de Canelas e dos acólitos que o
agridem?
O que é feito dos cartéis de droga no México?
O que é feito do Carlos do Carmo?
O que é feito dos reclusos em fuga?
O que é feito das viagens a Cuba para curar cataratas?
O que é feito do BES?
O que é feito do salário mínimo?
O que é feito de Manuel Baltazar e dos acólitos que o
aplaudiram?
O que é feito de Dias Loureiro e Miguel Relvas?
O que é feito da dívida na Madeira?
O que é feito de Alberto João Jardim?
O que é feito da imigração ilegal?
O que é feito da Europa?
O que é feito da independência da Catalunha?
O que é feito da Guiné Equatorial?
O que é feito da justiça em Timor?
O que é feito da verdade?
O que é feito da mentira?
O que é feito de mim e de ti e de nós?
O que é feito das energias renováveis?
O que é feito do fim do mundo?
O que é feito da política ambiental e da sustentabilidade?
O que é feito da Maddie?
O que é feito de Fidel?
O que é feito de Abu Ghraib?
O que é feito de Guantánamo?
O que é feito de Snowden e de Assange e da WikiLeaks?
O que é feito da National Security Agency?
O que é feito da palavra passe?
O que é feito do meu amigo Omar?
O que é feito do tráfico de órgãos?
O que é feito do sono?
O que é feito do cansaço?
Não sei. Devia dizer: acordem caralho! Mas só me apetece
dormir.
terça-feira, 25 de novembro de 2014
ÓDIOVISUAL
uma vez fui à merda
voluntariamente
o que não é bem o mesmo
que me terem lá mandado
fui à boleia por uma autoestrada
que me liga o mero músculo à alma
para que nada me subisse à cabeça
antes de passar pela sensibilidade
só peguei no cosmos na pasta de dentes
num frasco com o cordão umbilical
para ter sempre à mão as raízes
pousei o coração como uma mochila aberta
nunca um dedo espetado foi tão revolucionário
acabei por ir de carroça e burro
mas atravessei meio mundo
pelo caminho fui violado por um jovem polícia
num desses países onde se esquecem de nós para sempre
fui lava pratos num desses países onde já não há gente
para comer seja o que for ou morrer à fome
fui sopeira iluminada numa casa de passe
de um desses países onde ninguém fode
fui jardineiro de um cemitério importante
onde só vai parar quem já nem morre
mas também me apareceu um anjo ao cair da noite
um sábio disse que o meu amor era inocente e forte
um profeta falou da minha vida como se falasse da morte
quando cheguei à merda estavam todos à minha espera
acabei por não entrar achei que não valia a pena
o que não é bem a mesma coisa que o porteiro da merda
me ter impedido de entrar ou fazer concluir à força
que eu já conhecia aquela merda de algum lado.
Joaquim Castro Caldas (n. 1956 – m. 2008), in Convém Avisar
os Ingleses (2002). Estreado no alvoroço do 25 de Abril de 1974, Joaquim Castro
Caldos publicou uma dezena de livros de poesia ao longo da vida. Nascido em Lisboa,
vagueou durante seis anos pela Europa. Veio a fixar-se no Porto, cidade onde se
tornou figura central na dinamização da cena poética com a organização das
noites de poesia do Pinguim Café. Com
uma escola que remonta às tertúlias organizadas por José Carlos Ary dos Santos,
a poesia de Castro Caldas radicaliza as dimensões lúdica e provocatória do
poema. Iconoclasta, heterodoxo, libertário, o discurso desta poesia
desenvolve-se a partir de uma visão desencantada do mundo e das suas instituições,
reagindo de um modo visceral à normatividade e a todo e qualquer engajamento
político. Encontramos nestes poemas de inclinação satírica uma postura
corrosiva que escolhe como alvos predilectos as forças de ordem nos diferentes
estádios da organização social. Entre os estilhaços das paredes partidas
podemos encontrar, porém, momentos de esperança, afecto e extrema humanidade, o
que aconteceu, de resto, num dos seus derradeiros poemas: «ainda há gente boa,
de cabeça deslumbrada, o coração em cima da mesa como uma pistola descarregada,
a contar a última aventura sem medo que lh’a levem» (in Mágoa das Pedras).
E AGORA, JOSÉ?
A bomba noticiosa do passado fim-de-semana originou três
correntes de comentário. Primeiro, a politicamente correta. Esta corrente materializa-se,
no contexto da política oficial, com a lacónica expressão «à política o que é
da política, à justiça o que é da justiça». Todos os partidos políticos sem
excepção a adoptaram, não tendo sido integralmente respeitados pelos seus
representantes. A expressão é lacónica por esquecer a interligação entre a
actividade política (legislar) e a actividade judicial (fazer aplicar a
legislação). Muitas vezes ouvimos queixas sobre leis feitas à medida de quem
as produziu, numa cadeia de interesses que favorece poderosos e apenas
é capaz de julgar indefesos. Ouvimos falar também dos “entraves à
investigação” que uma legislação dúbia coloca. Não são de agora os lamentos. No
canto IX de Os Lusíadas, Camões não omitiu o problema: «Vê que aqueles que
devem à pobreza / Amor divino, e ao povo caridade, / Amam somente mandos e
riqueza, / Simulando justiça e integridade; / Da feia tirania e de aspereza /
Fazem direito e vã severidade; / Leis em favor do Rei se estabelecem, / As em
favor do povo só perecem».
Esta desigualdade leva-nos à segunda corrente de
opinião, patenteada ontem de forma magistral no Trio de Ataque protagonizado
por José Pacheco Pereira, Miguel Sousa Tavares e Clara Ferreira Alves.
Simplificando: nada na lei, dizem, justifica o tratamento dado ao
ex-primeiro-ministro, com detenção à saída da manga do avião, três noites nos
calabouços da PSP e consequente prisão preventiva na cadeia de Évora. Uns dizem
tratar-se de pura humilhação, outros falam de espectacularização da justiça,
ouros mencionam ainda a desproporcionalidade das medidas adoptadas em
comparação com casos similares. Há quem sugira vingança contra Sócrates, há quem
refira exibicionismo justicialista. O argumento utilizado para a prisão
preventiva é o de garantir que não haja perturbação da investigação, tendo
Pacheco Pereira sublinhado a existência desse risco tratando-se Sócrates de uma
pessoa poderosa com ligações e conhecimentos que podiam favorecê-lo. Enquanto
cidadão olho para isto com perplexidade. Parece-me que todas as pessoas têm
direito a defender-se daquilo que são acusadas até estar provada a culpa. É à
justiça que cabe provar a culpa de Sócrates, não é a Sócrates que cabe provar a
sua inocência. Perante uma acusação tão grave, deve ser-lhe concedida oportunidade
para se defender por todos os meios disponíveis (o que, aliás, é diferente de preparar uma defesa, como se viu em casos como o de Carlos Cruz). Prendê-lo
preventivamente não só me parece excessivo como, de facto, se assemelha a uma
condenação sem prova.
Há muito que Sócrates foi condenado pela opinião pública,
a qual se divide entre uma reverência incondicional e um ódio irracional à
personagem. Eu, que nunca votei no político, e sempre suspeitei haver nele uma grande
dose de trafulhice, sinto-me hoje incomodado com o tratamento. Paulo de Morais,
mosqueteiro da denúncia contra a corrupção, a quem devemos uma análise corajosa
sobre a mais grave consequência de um país que há muito negligencia o mais importante
dos seus pilares, a educação (e nesta incluo cultura), afirma um pressentimento
de que algo está a mudar. Desconfio que este pressentimento se fundamente nas
condenações de Armando Vara, Maria de Lurdes Rodrigues, José Oliveira e Costa,
Isaltino Morais, assim como no espoletar dos casos BES e Vistos Gold, com
inúmeras detenções e vários interrogatórios. Depois de tantos anos em que os actores
do poder podre prosseguiam com o teatro da impunidade, parece que finalmente
temos alguma agitação. Pelo menos nas plateias ela existe, mas isso não deve
excitar-nos a ponto de esquecermos o essencial: justiça não é vingança, toda a
gente tem direitos.
Mas estará mesmo algo a mudar? A justiça não pode sobrepor-se a direitos básicos e
fundamentais, sob pena de resvalarmos para o justicialismo que caracteriza a
terceira corrente de opinião das acima aludidas. O justicialismo chateia-me porque
me faz lembrar linchamentos públicos. Nos westerns o problema foi sobejamente
retratado. A conclusão a retirar é sempre a mesma: os linchamentos públicos
raramente fazem mais justiça do que vítimas. The Ox-Bow Incident/Consciências Mortas (1943) é um filme primoroso que convém rever. Ao escutar a satisfação
das pessoas perante os últimos acontecimentos, ao constatar o regozijo perante
condenações prévias, nada mais me vem à cabeça senão a imagem distorcida,
salivante e lunática daquele que assiste ao enforcamento em plena praça
pública. Evoluímos o suficiente para acabarmos com esses espectáculos, mas o
sentimento deplorável que lhes garantia lotação esgotada mantém-se dentro de nós. Revela o pior que há em nós. E isso é
triste, leva-nos a crer que entre o tempo de Camões e o nosso pouco mudou. Podem os poetas continuar a morrer na miséria.
XADREZ DOS PIÕES
Os investigadores suspeitam que o antigo líder socialista
terá usado Carlos Santos Silva como pião para traficar influências.
Felícia Cabrita, aqui.
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
TODOS OS CISNES QUE TEMOS VISTO SÃO BRANCOS
Uma das tontices mais cómicas que a excitação dos últimos dias tem despertado
é a afirmação, proferida por comentadores cativos e repetida exaustivamente
pela escumalha, de que Portugal nunca mais será o mesmo ou, na sua variante
menos hiperbólica, a justiça nunca mais será a mesma. A sério que me dá vontade
de rir, tal como ontem me ria enquanto uma jornalista num directo de televisão
conseguia adivinhar o “ar nervoso” de Sócrates atrás das cortinas do Campus de
Justiça. A minha mulher ainda me perguntou, perscrutando atentamente o momento
em que o semblante passava por uma frincha de vidro: “mas ele não vai a rir?”
Não, mulher, confia na visão de raio-x da jornalista. E presta atenção a esta
outra que fala dos “dois primeiros mandatos” do detido como se tivesse havido
um terceiro, e sublinha aqueloutra que contou “14 pizzas a caminho do Largo do
Rato”… São tantos os exemplos de reportagem pacóvia e jornalismo medíocre patenteados
que até nos sentimos mal quando ouvimos falar de um jornal que fechou as portas
ou de despedimentos na comunicação social. Nada mudou nem nada mudará no
país, está tudo entregue a uma corja do mais ordinário e imbecil que pode
haver. O Santana ou outro como ele continuará a distribuir empregos pelos seus bulldogs
e o Presidente da República, o mais indecente de todos por ser aquele com
maiores responsabilidades, não hesitará na condecoração a 10 de Junho. A
corrupção é endémica, diz-se. Diz-se mal, porque na realidade é
pandémica. Corrói tudo a ponto de ser orgástico um exemplo de discernimento, a
ponto de causar espanto e estranheza um discurso articulado, a ponto de
considerarmos excepcional o que devia ser dado adquirido. Notem bem, estamos a
ser governados pelo indivíduo acima, o mesmo que há não muito afirmava a
sua decisão irrevogável de se demitir. Dá para acreditar nas palavras desta gente? Dá. Se há coisa que ele tem
bem decidida na sua cabeça é que não quer ser político. Foi ele que disse e nós
acreditamos. Não é, nunca foi, nuca será. É oportunista, aldrabão, nepotista, hipócrita. Tal como a maioria que ao lado dele
se vai sentando, e todos os outros que se cumprimentam nos corredores do poder,
corredores que mais parecem ascensores de riqueza, porque entre poder e riqueza
não há diferença alguma nesta sociedade de que já Camões se queixava. Ora, se
Camões se queixava pode alguém pensar que no futuro será diferente? Manda a lógica indutiva que se todos os príncipes que temos visto
são sapos, logo todos os príncipes são sapos. Mudem de rumo, mudem de rumo, já lá vem outro carreiro.
domingo, 23 de novembro de 2014
TRISTE PAÍS
Não há, de facto, paciência para tanta hipocrisia, no
arrasto da qual se manifesta tanta estupidez. Acabei de ver o
ex-primeiro-ministro Pedro Santana Lopes, o mesmo que chegou a primeiro-ministro
sem ir a votos, para passados poucos meses ver a Assembleia da República
dissolvida e ser posto a andar pelo Presidente da República Jorge Sampaio,
manifestar a sua profunda tristeza pelo que está a acontecer ao país. Se Diogo
Infante viu o que eu vi deve ter vomitado para cima da televisão. O que está a
acontecer ao país… Bem, o que está a acontecer é que o ex-primeiro-ministro
José Sócrates foi detido, segundo a Procuradoria-Geral da República, por «suspeitas
dos crimes de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção». Na
sequência da detenção tem sido mantido nos calabouços da polícia, sem que
saibamos porquê. Um jornal avança que Sócrates teria sido informado da possível
detenção antes de resolver regressar a Portugal. Podia ter ido visitar Dias
Loureiro a Cabo Verde. Não foi. Muitas pessoas se espantam, e bem, com a forma
como foi detido e o porquê de ser mantido na prisão, causando o mesmo espanto o
facto de jornais que sempre fizeram marcação cerrada a Sócrates estarem no
local da detenção à hora certa. Coincidência? Fuga de informação? Perguntem à
Felícia Cabrita, essa misteriosa figura do jornalismo português que anda sempre
um passo à frente da realidade.
Enfim, atenhamo-nos aos factos e desprezemos
tudo o que seja especulação. Até ver, vi pouco de novo. Mas lembrei-me de muita
coisa velha. Ao ver o ar triste de Santana Lopes lembrei-me do caso Moderna e
da empresa de sondagens de Paulo Portas, lembrei-me do processo Casa Pia e da
vergonhosa politização de que foi vítima… Lembrei-me disto tudo por se repetirem
personagens sempre sinistras a meus olhos, métodos, fugas de informação,
direitos básicos desrespeitados, vozearia, confusão. Mas também porque à época em
que esses casos ocorreram eu colaborava com um jornal tristemente
conhecido como o mais fantasmagórico da imprensa portuguesa.
Não se encontra na
Internet muita informação disponível sobre esse jornal, de seu título
Semanário. Em 2003, uma notícia do DN informa que «O Banco Efisa arrematou (…)
em leilão público os títulos de registo de propriedade do jornal
"Semanário" e da revista "Olá/Semanário" por 945 mil euros
(cerca de 190 mil contos), metade do valor a que foi submetido a hasta pública.
Esta entidade bancária era um dos principais credores do jornal dirigido por
Rui Teixeira Santos que foi decretado falido pelo Tribunal Comercial de Lisboa
há praticamente dois anos». Isto foi em 2003. O jornal continuou a publicar,
mas nunca ninguém soube explicar como. Nem nunca ninguém parece ter-se
interessado. A imprensa raramente investiga a imprensa. A mesma
notícia adianta que «O jornal dirigido por Rui Teixeira Santos tinha dívidas ao
Estado - entre Segurança Social e entidades fiscais - na ordem dos sete milhões
de euros (1,4 milhões de contos), e a entidades privadas, num valor total que
rondaria, de acordo com o jornal "O Independente" da passada semana,
os 19,5 milhões de euros (perto de 3,9 milhões de contos)». Muito dinheiro,
ainda mais em 2003. O sublinhado é meu.
Pouco mais se encontra sobre a história do Semanário.
Apenas duas notas: a emissão de um mandato de detenção de Rui Teixeira Santos para
garantir a sua comparência num julgamento em que era acusado de “crime de abuso
de liberdade de imprensa” e o obituário do jornal ocorrido em 2009. Não
estranhei o obituário, estranhei a demora. Devo dizer que enquanto colaborador
do jornal sempre fui pago a tempo e horas. Os pagamentos processavam-se à
semana, em dinheiro, não sendo passado um único recibo sobre o pagamento. Não
havia contrato. Eu pecador me confesso. Os poucos meses que por lá passei
fizeram-me um jeitão. Muitas vezes me interroguei de onde viria o dinheiro. Da
publicidade não era, das vendas muito menos. Nunca encontrei resposta, iliba-me a passagem efémera?
Ora, voltei a ouvir falar de Rui
Teixeira Santos recentemente. Não sei se as dívidas acima
referidas foram saldadas, não sei se algum governo beneplácito as perdoou,
sendo certo que o director do jornal se mantém no activo. Não como jornalista,
mas, ao que parece, como «coordenador dos gabinetes de Estudos e Planeamento e
de Auditoria Interna da Misericórdia de Lisboa». O sublinhado é meu. E repito: «coordenador dos gabinetes de Estudos e Planeamento e de Auditoria Interna da Misericórdia de Lisboa». Foi nomeado para o cargo, espantem-se!, pelo tristonho
Santana Lopes. É ler aqui. A notícia é toda ela um tratado sobre pesares,
tristeza e melancolia.
A TURBA
A turba só vai à praia quando o bar está aberto, o banhista
vigia, as bóias de salvação estão por perto. A turba adora sentir-se
acompanhada, por isso escolhe dias de multidão para poder reclamar do parque de
estacionamento atolado. Depois estaciona em qualquer lado e se for multada a culpa
não é sua, é do parque, da junta de freguesia, do arrumador, do verão quente,
da maresia. Quando está frio, a turba fica em casa a ver televisão, pinta o
cabelo, arranja as unhas, dá banho ao cão. A turba anda sempre atrás de si
própria, é como a pescadinha de rabo na boca: cheira-se, morde-se, maltrata-se.
Faz-nos sentir sós, à turba estamos gratos.
sábado, 22 de novembro de 2014
SÓCRATES
A detenção do mestre deixou-me curioso quanto aos
comentários dos discípulos. Já deu para perceber que não terá graça:
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
MEDULA: DOIS LIVROS
Começa a ser um lugar-comum, embora nunca seja de mais acentuá-lo,
referir o esforço colocado por pequenos projectos editoriais na sobrevivência
da edição de poesia em Portugal. Medula vai na sexta publicação, tem sede em
Coimbra, fora do núcleo lisboeta, arrisca em nomes praticamente desconhecidos,
não necessariamente portugueses, e cultiva as edições limitadas. Há nisto um
risco louvável que não encontra eco devido na imprensa especializada, raramente
disponível para sair de onde tudo o que é relevante parece acontecer: a agenda
do crítico. Não fosse a libertária função da rede, dificilmente teríamos
conhecimento da estreia de E. Ethelbert Miller (n. 1950) em língua portuguesa.
Afro-americano nascido no Bronx, este “literary activist”
conta com vários prémios no currículo e publica poesia desde 1974. Andromeda
foi o livro de estreia. Infelizmente, nada em Falta de Ar (Medula, Setembro de
2014) nos informa sobre tais aspectos. A discrição destas edições fica-se pela
referência à tradução, neste caso do próprio editor e também autor manuel a.
domingos, números de exemplares impressos e pelo sempre bom gosto na escolha de
uma imagem para a capa. Gostaria, porém, de saber se Falta de Ar, tradução
pedida de empréstimo ao poema The Shortness of Breath, é uma antologia, um
livro novo na curta bibliografia do autor (pouco mais de meia dúzia de livros
de poesia, se bem consegui apurar) ou a tradução de um volume publicado
anteriormente (onde e quando?). Ter-se optado por uma edição bilingue é digno
de aplauso, mas falta o enquadramento biobibliográfico que permitiria alguma
luz sobre um autor de todo desconhecido no circuito português.
Os poemas de Falta de Ar são de uma enorme contenção
lexical, tendendo por vezes para o sublinhado epigramático cuja aparente
simplicidade gera curiosos enredos temáticos. É verdade que pela repetição da
palavra amor, na forma substantiva ou enquanto verbalização do gesto amoroso,
somos tentados a considerar estes poemas no contexto de uma lírica de contornos
eróticos. Mas esses contornos envolvem no seu interior uma ética onde o
problema existencial, a liberdade e a morte, surgem de uma profundidade que as
palavras apenas anunciam. A título de exemplo, fique este assertivo poema:
Amar é sobre perdoar —
por isso perdoo-te seres tu — seres
bela e maravilhosa (sempre) e rires
e fazeres nascer poemas — seres uma amiga
que me faz uivar sempre que sonho
com a tua nudez — o que acontece muitas vezes
Já não tenho palavras para amor — só lágrimas.
Sim, chorar é o rio junto ao qual caminho
quando penso em ti.
Talvez alguns destes versos aceitassem outras soluções de
tradução. Por exemplo, não ficaria melhor «o que acontece tantas vezes / que já
não tenho palavras para amor» como versão para «wich is so often / I no longer
have words for love»? Evitava-se uma maiúscula desnecessária no início de um verso e consequente quebra rítmica.
Pormenor que, estando disponível o texto original, não deve colocar reservas
quanto à disponibilidade para uma leitura.
Bem diferente é o caso Namban (Medula, Outubro de 2014). John
Mateer (n. 1971) não é um total desconhecido. Nascido na África do Sul, foi
viver para o Canadá, regressou ao país de origem e fixou-se na Austrália.
Viajante incansável, ouvimos falar dele pela primeira vez a propósito de um
pequeno volume publicado pela Tea for One (com tradução de Andreia Sarabando e
Miguel Martins) em 2009. Manuel de Freitas escreveu sobre ele no Expresso.
Outros livros em português apareceram nas editoras Língua Morta e Averno, mais
precisamente no ano de 2012. O poeta integrou ainda o Programa Poetas em
Residência 2010, tendo à época sido anunciada a publicação de Namban pela Tea
For One.
O interesse de John Mateer pela cultura portuguesa e pela
sua presença no mundo explica a atenção, mas não a justifica por si só. Valem, sobretudo, os poemas. Diga-se que namban é termo de origem japonesa com o significado
“bárbaros do sul”, apelido dado aos europeus que aportavam em terras de sol
nascente por altura dos descobrimentos. Southern Barbarians (2007), sobre a
presença dos portugueses no mundo, é um dos livros do autor e título de um dos
conjuntos deste volume. O estudo dos grandes escritores portugueses, Camões e
Pessoa serão os mais evidentes embora outros existam, nota-se ao longo dos
poemas. Talvez influenciado pelas múltiplas referências históricas, lembrei-me
amiúde de João Miguel Fernandes Jorge.
Namban é uma representação de lugares, (re)visitas,
contactos com a história portuguesa. Menções a Lisboa e Coimbra, mas também
às cidades do império colonial português, sustentam um discurso onde a presença
do sujeito surge influenciada pela cultura, pela noção histórica, pelo
conhecimento. Não se ausentando dos poemas em proveito da reconstrução ou
recriação histórica, o sujeito poético como que se representa na encruzilhada
da história. É uma espécie de exilado que transporta para a pátria poética a
experiência do desterro, ao mesmo tempo que se reconstrói num diálogo aberto
com a realidade. O remate do poema Cemitério da Ajuda é elucidativo: «Estou
farto disto. Não consigo parar de chorar» (p. 19). Voltaremos a sentir a mesma
explosão emotiva:
AINDA EXISTE OUTRO LUGAR
Anos antes de andar pelas ruas calçadas de Lisboa
e, bebendo uma bica piscar o olho a mim próprio no espelho
por trás do balcão n’A Brasileira
Anos antes, ao descobrir numa livraria
em Quioto o livro de Pessoa Lisboa:
O que o turista deve ver, quase chorei
Quase chorei de tão feliz
por outros na Velha Capital
estarem a sonhar com o Império da Nostalgia
Tão feliz porque em todas as nossas mentes
ainda existe outro lugar
e aí um alçapão: a voz humana: saudade
Este Império da Nostalgia, referido de igual modo no poema
Ensaio Sobre a Doçura, acaba por sintetizar o tom geral de Namban, conjunto de
poemas que têm o cada vez mais raro valor de ser cultos em andamento, ou seja,
captando o trânsito das coisas, viajando, vadiando, misturando-se com os
cheiros das ruas sem largar no lixo o cheiro da História. Belíssimo livro onde
vislumbramos a perspectiva do outro sobre nós, falando em termos culturais, mas
um outro que entre nós se mistura para que se não perca em elogios fúteis ou críticas
fúnebres. Porque este outro, afinal, e como sempre sucede na mais alta poesia,
esconde um eu que a palavra ilumina, que a língua revela, que a poesia mostra. A tradução é de Andreia Sarabando.
UMA PEDRA NA INFÂNCIA
Põe uma pedra
uma pedra sobre a infância
Para que de vez se cale essa respiração
contida suspensa no escuro
Põe, digo-te, uma pedra de silêncio sobre
essa infância essa fala ininterrupta essa
falagem que falha e promete e inventa
os sonhos e as promessas o riso sem porquê
Para que de vez se interrompa a esperança esse
mal que não desiste. Escreve, faz o que o ditado dita:
Enterra no silêncio da pedra essa intolerável coisa
que é a infância, as vozes da noite do poço.
Apaga a infância isso que falta sempre à chamada
e para sempre trocou já os desejos e os medos.
Já não vais a tempo, ela enredou sem remédio
as vidas os nomes a tua condenação. Mas vai.
Para que se cale de vez essa respiração que se ri
na cara da morte, nos olhos do enviado de deus
recita o que o ditado ditou: Põe uma pedra sobre
a infância e ouve a erva a folhagem que cobrem
o céu em ruínas.
Também então havia uma pedra no canto do quarto
Ali onde a noite começava, era uma pedra e depois
crescia, petrificava-se no seu coração de pedra
dividia-se e eram várias crescendo; ocupando
todo o espaço do sono, do sonho do mundo.
Pesavam no teu peito procuravam-te os olhos
que de pedra ficavam e o grito era uma pedra
que na garganta subia contra a outra pedra.
O próprio ar golpeado era e dividia a voz
pedra contra pedra, o deserto a perder de vista.
Põe uma pedra sobre outra pedra. Inventa uma
outra infância de que possas recordar-te.
Obedeces ao poema e é sem espanto que vês:
nada acontece. Não há
nenhuma voz na voz dos condenados.
Manuel Gusmão (n. 1945), in Migrações do Fogo (2004). «O ritmo desta poesia, de uma deliberada plasticidade, não deriva tanto dos versos quanto da sequencialidade sintáctica, da vontade afirmativa e declarativa. Assim, cria zonas de enfeixamento prosódico, nós de construção rítmica, donde se desprendem, deliberadamente, mais os dizeres do que os cantares. (...)Estes poemas, onde o rigor das escolhas lexicais e o decurso complexo parecem traçar um certo hermetismo conceptual, vivem de densos esforços memoriosos: a infância, as mulheres, a mulher, as crianças, a sua textura na malha lírica. Assim produzem, entre as sensações de estranheza elaborativa, um solo de afectos que, como que em pudor, os andaimes, os guindastes do crescimento dos poemas querem neutralizar sem de modo algum o conseguirem. Este jogo de ocultação e de rebentamento da voz emotiva é um dos funcionamentos mais sedutores desta obra. (...) No fundo, o que se joga nesta poesia é o esplendor (magoado ou eufórico) de várias memórias: biológica, biográfica, histórica, da passagem visceral das coisas e dos seres. São estratos que se aglutinam para nos falar de obsessões e da transmutação de cada coisa. Este movimento entre a memória e a mudança vibra, verso atrás de verso, pleno de rumores, de sugestões, representacional e ínvio, mas temendo abstractizar-se: o concreto preenche todos os veios que são a declaração» (Joaquim Manuel Magalhães, in Rima Pobre).
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
OURO E CINZA
Desconfio que um dos problemas mais frequentemente
colocados ao cronista seja a iminente desactualização dos seus textos. A crónica
oferece a perspectiva que do mundo tem quem a escreve, sendo raras as
ocasiões em que transcende as barreiras do tempo e do espaço do autor para
poder fixar-se com a universalidade que a grande obra exige. Ouro e Cinza –
Crónicas 2002-2012 (Tinta-da-China, Julho de 2014) colige alguns desses raros
momentos, fruto da arte e do engenho de Paulo Varela Gomes (n. 1952). Sendo do
seu tempo, estas crónicas nunca a ele se circunscrevem irremediavelmente. Isto
porque o autor consegue olhar para o presente sem prescindir do passado e com a
humilde sabedoria de deixar ao futuro as suas próprias conclusões. A maioria
dos textos provém do jornal Público, mas há deles que foram publicados
inicialmente nas revistas Os Meus Livros, Comtextos e Pública. O critério
cronológico não ditou a organização. Ainda bem. Os trechos foram antes agrupados em
seis grupos que correspondem a outros tantos temas de interesse: Bichos, Com os
Olhos, Este País, Indianas, O Campo, O Tempo. A grande vantagem desta opção é evitar
uma leitura dispersiva; isto é, concentra os pontos de vista ampliando, desse
modo, a panorâmica sobre um tema em concreto. No primeiro conjunto encontramos
textos sobre os direitos dos animais, textos de uma militância assumida que não
descarta a utopia:
«Às vezes gostaria de andar com uma camioneta muito grande a
recolher todas as crianças, cães e outros seres vivos vadios que não sabem
falar. Depois levava-os todos para as Maldivas, os Açores ou Madagáscar, que
sempre é maior, e deixava-os à solta sem trabalho nem escola, sem horários e
sem regras de trânsito, sem donos e sem patrões, para que andassem no mar e nos
bosques. Fá-lo-ia apesar de saber que um dia alguma coisa haveria de correr
drasticamente mal e Deus teria de correr com eles, recomeçando esta grande
chatice toda outra vez» (p. 24).
Sem prescindir dos exemplos que a realidade
histórica oferece, Paulo Varela Gomes excede-os, funda parábolas e ironiza, tem
a capacidade de com uma linguagem simples e depurada acrescentar sonho à
realidade. A alegria de viver e de se estar vivo pode fundar uma ética que não oculte
os horrores e a maldade da existência, apelando antes à conservação da beleza,
à preservação de uma identidade e dos valores que enformam essa identidade.
Apelando, sobretudo, à resistência de um olhar que aceite todas as cores como
inerentes ao mundo, um mundo que não é a preto e branco, que não é dicotómico,
alicerçado na alteridade, na complexidade, na diversidade. O país aparece
perspectivado com polémica e desencanto: os eleitores são estúpidos, devemos
querer voltar a ser como os espanhóis, a juventude tornou-se uma das grandes
desgraças do país, esqueçam a treta da produtividade e da dívida pública.
Descontextualizadas, podem parecer frases frívolas. Mas por detrás delas há a
consciência de um outro vazio:
«Não tenho culpa do que é hoje este país e o
regime que o representa: militei e votei sempre em partidos que apregoavam
querer outro tipo de regime e deixei de militar e de votar quando vi esses
partidos tornarem-se tão legitimistas como os outros.
Espero um rebate de
consciência política por parte destes políticos, ou o aparecimento de outros.
Faço como muitos portugueses: espero por D. Sebastião, desempenho a minha
profissão o melhor que posso, e penso em emigrar» (p. 87).
Não admira,
portanto, que a maior parte do livro seja ocupada com crónicas onde a Índia aparece em
pano de fundo. São notáveis as paisagens traçadas por Paulo Varela Gomes, quer
quando se perde na agitação das cidades, quer quando se recolhe nos resquícios
de uma antiguidade que o progresso tem vindo a aniquilar. A desconfiança acerca
do progresso é, aliás, uma das características mais marcantes destas crónicas,
sobretudo quando entendemos por progresso algo oposto à preservação e à
conservação dos patrimónios cultural e natural. Julgo que seria um erro tentar medir
nestas crónicas os índices de optimismo ou de pessimismo do seu autor. Não se
trata disso. O tom nostálgico é transversal, mas a nostalgia tem tanto de
optimismo acerca do passado como de pessimismo quanto ao futuro. O aspecto mais
tocante de Ouro e Cinza talvez esteja entre o que o tempo consome e o que no
tempo perdura, as contradições de uma humanidade que tão bem se reconhece na
definição de campo partilhada a páginas 202:
«O campo, para mim, é a
revivescência permanente de uma recordação imóvel. Sucede isto porque no campo,
por mais que tudo mude, tudo está sempre no princípio, silencioso e quieto. É
da ordem das coisas que não haja tempo».
CIDADELAS
Os poemas
são cidadelas para os
lábios
Mais longe as sentinelas
do espaço
e os degraus do oceano
no contorno das pálpebras
Na hora anterior
ao vidro das lágrimas
a mulher ocasionou o parto
das cidades
e as plantas
foram úteros reflexos
de água
gerando no lodo
o vício do ódio
submerso nas palavras
Maria Teresa Horta (n. 1937), in Cidadelas Submersas (1961).
Com uma primeira obra publicada em 1960, Espelho Inicial, Maria Teresa Horta
(n. 1937) começou por ser associada ao grupo Poesia 61, que se propunha
«importar de novo o reconhecimento duma hipótese poética que surgisse
preocupada com o poema enquanto objecto verbal, mas sem permitir a recuperação
desta hipótese pelas escolas formais então existentes» (Joaquim Manuel Magalhães).
No entanto, a poesia da autora de Tatuagem (1961) distanciava-se da dos demais
elementos do grupo, entre eles Gastão Cruz, Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza
Neto Jorge e Casimiro de Brito, por nela ser evidente um erotismo desassombrado,
que viria a agudizar-se em livros subsequentes, marcado pela «veemência da sua
iconoclastia feminista» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes). Ainda que sejam estas as
marcas mais reconhecidas da poesia de Maria Teresa Horta, não se pode excluir
da mesma a atenção social que livros tais como Cronista não é Recado (1967) ou Mulheres
de Abril (1977), já posterior à revolução dos cravos, quiseram sublinhar.
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
O RESTO É PAISAGEM
Leio no Malomil, de enfiada, uma série de transcrições de
entrevistas a escritores. Sou traído pela repetição. As primeiras provêm de uma
entrevista a António Lobo Antunes, vou lendo da mais
recente para a mais antiga. Às tantas, deixo de verificar a autoria do dislate e a
sua proveniência. E no final dou com José Luís Peixoto. Lobo Antunes e Peixoto,
um mesmo discurso, um mesmo tom, uma mesma frivolidade. Tudo tão tacanho que
seria estúpido querer pertencer a um clube destes. Ah, que bem se está na
paisagem deste país.
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
VOLTO JÁ
A minha filha Matilde ensinou-me a consultar o Gmail como
deve ser. Parece que eu só via os e-mails primários, os que estão alojados na
gaveta Primary. Desculpem-me a linguagem tosca, mas não percebo nada do
assunto. Fiquei a saber que além dessa gaveta Primary há ainda a gaveta Social
e a gaveta Promotions, repletas de mensagens úteis como convites para o
LinkedIn o Twitter e congéneres, notícias de inúmeros eventos, lançamentos de
livros e de revistas, exposições, festivais, estreias, a cultura ao rubro, mais
as campanhas costumeiras com promoções irrecusáveis, vales de desconto, cartões
maravilhosos, opções de pagamento apelativas. Descobri também que há gente de
quem eu espero há séculos resposta a um “como vai a vida?” que aguarda a minha
adesão a redes onde, por certo, a vida lhes corre lindamente. Este mundo é
estranho, preciso de uma pausa deste mundo. Volto já.
GALINHA DOS OVOS GOLD
Tão privados têm andado de dignidade, que ao mínimo sintoma
os portugueses exultam. A galinha dos ovos gold, chocados na mente
irrevogável de Paulo Portas, pôs uma demissão. Miguel Macedo já lá vai, e os
comentaristas de lugar cativo logo se apressaram a sublinhar o gesto digno,
raro até. O homem não fez mais que a sua obrigação. Digno no cumprimento do
dever, como aliás já tinha sido noutras ocasiões. Recordemos:
O ministro da Administração Interna, Miguel Macedo, recebe
todos os meses cerca de 1400 euros por subsídio de alojamento apesar de ter um
apartamento seu na área de Lisboa onde reside durante toda a semana.
Isto para não falar de bastonadas em jornalistas em pleno
exercício da profissão (alguém se recorda disto?) num país “com muitas cigarras
e poucas formigas”. Macedo foi-se, não deixa saudades. É digno de esquecimento
até voltar a ser lembrado.
Imagem respigada aqui.
INGÉNUA CRUELDADE
Acusado de pedofilia, um chefe de escuteiros suicidou-se.
Tinha 29 anos. Proliferam fotografias suas nos media, com os rostos desfocados
das pessoas à sua volta. O homem matou-se, desconfio que tivesse amigos e família. Deixem-nos em paz.
domingo, 16 de novembro de 2014
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
GATO VADIO, SÁBADO, DIA 15
A propósito deste evento, lembrei-me que durante parte do ano de 2008 o Rui deixou no Insónia algumas leituras iconoclásticas. Ficam os links para as mesmas, com referência aos títulos abordados:
CARTA ABERTA À MINISTRA DAS FINANÇAS
Excelentíssima ministra, escrevo-lhe depois de ter sido informado sobre uma sua afirmação. Trata-se de um raciocínio demonstrativo da lógica da batata a que nos habituou o seu Governo. A senhora ministra declarou que a classe média é a mais prejudicada pelo Orçamento de Estado para 2015 porque “ricos temos poucos”. É a chamada verdade de la Palice que custa reconhecer. De facto, se pensarmos que, como recentemente revelava um relatório da Oxfam, metade da riqueza mundial pertence a 1% da população, é natural que não tenhamos muitos ricos. São poucos os ricos no mundo, comparados com os pobres. Mas os poucos ricos são mesmo muito ricos, são infinitamente mais ricos do que a infinitamente maioria dos pobres e muito pobres. A senhora ministra nada terá que ver com estas aritméticas, mas podia pensar que os poucos ricos que temos em Portugal podem ter o seu quê de responsabilidade na existência de tantos pobres. Sabemos que a responsabilidade não é o forte do nosso país, sabemos que os muito ricos que tornaram possíveis todos esses escândalos que vão escoando nos esgotos da banca portuguesa podem continuar a coleccionar os seus Miró e a passar férias na Comporta. Desconhecíamos, porém, a sua capacidade para numa simples frase sintetizar com cruel verdade o problema do país.
Repare, eu sou de origens muito humildes. Os meus pais prosperaram no comércio, pagaram os cursos aos filhos, os filhos vão-se desenrascando. Trabalho há oito anos numa livraria, depois de dez anos a leccionar. Tenho uma licenciatura à qual muito gostaria de acrescentar outros estudos não fossem as despesas correntes que, porque não sou rico, me impedem de continuar a estudar e me obrigam a deslocar-me todos os dias para um shopping onde ganho o pão de cada dia. A vida é assim. Não nasci rico, não sou filho de gente rica, dos poucos que há no país, não sou rico, dificilmente poderei vir a sê-lo. Porquê? Porque não tenho vocação para tal, mas também porque estou forçado pelas circunstâncias a continuar pobre. No tempo em que o meu pai tinha a minha idade era, pelo menos, possível sonhar com essa riqueza que não chega a todos. Ele lutou e amealhou, foi-lhe possível. No meu tempo, que é o tempo da senhora ministra e dos seus poucos ricos, esse sonho foi-nos usurpado, essa ambição foi cerceada pela raiz com impostos, burocracias, taxas e taxinhas que os senhores inventam todos os dias para que, et voilà, os poucos ricos possam continuar a enriquecer e a classe média seja, como a senhora diz, a mais sacrificada com o Orçamento de Estado. Fica-lhe bem reconhecê-lo.
O que talvez a senhora não reconheça, porque está num patamar acima da realidade que a impede de sentir o que a maioria dos cidadãos sente, é que para mim, e falo de mim apenas a título de exemplo, a senhora é rica. A senhora e todos os seus colegas ministros, para mim, eu que não me queixo da falta de nada verdadeiramente essencial, para mim, repare, a senhora e todos os seus colegas ministros, todos os vossos secretários de estado e sub-secretários e técnicos especializados contratados como só os senhores sabem contratar, todos vós sois ricos quando comprados comigo e com a maioria dos cidadãos deste país. A senhora, para nós, está no lote dos poucos ricos que há em Portugal, embora saibamos existir gente muito mais rica que a senhora ministra. É uma questão de escala. Por vezes, confesso, vejo indigentes a brigar por causa das beatas largadas num cinzeiro público e penso: foda-se, de que me queixo eu? Ainda posso comprar os meus cigarros. Serei, para a senhora e para a madame Jonet, um privilegiado. Mas não tanto quanto os privilegiados de que Gustavo Sampaio fala no livro que tem por título a mesma palavra, ou como os facilitadores investigados pelo mesmo autor, ou como os chamados donos de Portugal que deram azo a outro livro assaz esclarecedor.
Pois bem, senhora ministra, é claro que temos poucos ricos. Eu gostaria que tivéssemos mais. Como tantas vezes ouvi há dias, a propósito de um grande prémio no Euromilhões que por sorte tornou rico mais um português, a mim bastavam-me cem mil euros daqueles cento e noventa milhões. Podia voltar a estudar, e sabe-se lá que mais. Podia contribuir para as dores de cabeça da Angela Merkel e ser um português mais culto, palavra cada vez mais distante dessa outra que dizemos riqueza. A senhora é uma rica ministra, tem um rico marido que a defende e protege com ameaças a jornalistas; nós, os pobres, pagamos e calamos ou voltamo-nos uns contra os outros. Os senhores, que estão por cima de nós, sabem destas nossas fraquezas. E por isso podem continuar a dormir descansados enquanto engendram e aplicam orçamentos que nos agridem. Sabem que não teremos reacção, estamos demasiado ocupados com a nossa pobreza. Só os ricos teriam tempo para vos fazer a vida negra. Nesse caso, nem o seu marido lhe valeria. Bem haja,
quarta-feira, 12 de novembro de 2014
UM ANÚNCIO
Anda por aí um anúncio da Vodafone
com criancinhas a debaterem-se por uma sobremesa ou objectos tais como uma
camisola, um skate, o comando da televisão, a coleira do cão. Reclamam aos
berros a presença do pai para a resolução do conflito. São irritantemente betas
e mal-educadas, lembram uma personagem de Charlie e a Fábrica de Chocolate. Cenas vulgares, quem tem filhos sabe disso. A verdade é que, falando por mim,
raramente sou solicitado para a resolução de conflitos do género. Entre
aguentarem uma palestra sobre os méritos da partilha ou verem-se privadas do
objecto causador do conflito, as minhas filhas preferem resolver o problema
entre elas. No anúncio, a solução encontrada pelo pai é distribuir smartphones,
julgo que são smartphones, pelas criancinhas. E lá vão elas sossegadas no banco
de trás do carro, cada uma com o seu telemóvel, enquanto a mãe as olha
embevecida para depois se voltar para o homem da família e concluir descansada:
«boa, pai». É o anúncio mais estúpido que vi nos últimos tempos, e não me
refiro ao pormenor sexista da mãe ir no lugar do pendura. Aquele pai, aquele
bom pai, é o típico exemplo de um esvaziamento ético que predomina na sociedade
actual. Para ele, a partilha não se resolve partilhando. O bom capitalista cede
às virtudes do consumo e cala as meninas com um telemóvel para cada uma delas (com tarifário especial, claro, a pensar no conforto das famílias). O bom pai cala
as filhas enchendo-lhes a boca com chocolate, por assim dizer. Isto tem as suas
vantagens, como é óbvio. Uma delas, talvez a mais visível, é a grande vantagem
destes utensílios pós-modernos: evitam conversas estúpidas. Não sabemos é se a
estupidez das conversas que se ouvem hoje em dia vem da falta de prática ou das
próprias pessoas, cuja permeabilidade a este tipo de soluções é por demais
evidente. Entretidas com os telemóveis, podem famílias inteiras crescer em
silêncio. Chegará o dia em que sentar-se-ão à mesa e não se recordarão dos
nomes uns dos outros. Para quê? Têm o número de telefone, só isso interessa.
terça-feira, 11 de novembro de 2014
TURISMO DE GUERRA
Diferente de O Livro das Aves (Prémio Daniel Faria 2009,
Quasi Edições, Abril de 2009), onde a linguagem se desenvolvia num ambiente simbolista
repleto de imagens, alegorias e metáforas de índole mitológica, este Turismo de
Guerra (Edições Artefacto, Agosto de 2014) é muito mais contido nessas erupções
de sentido promovidas pela subjectividade discursiva. Um dos aspectos desde
logo evidentes é o da relação íntima destes poemas com os «lugares de passagem»
por eles evocados. A República Checa, que não é de todo estranha à obra de Tiago
Patrício (n. 1979), surge como palco de situações ilustradas por componentes
identificadores de uma cultura: do vinho da Morávia à
arquitectura soviética, passando pelo Mosteiro de Břevnov, pelo Café Slavia ou pel’O
relógio socialista de Olomouc (título de um dos mais belos poemas do livro).
No
entanto, apesar do pendor descritivo dos poemas, eles penetram os lugares a
partir de vivências intimistas. Longe de se constituírem como meros
postais, nem sequer nos é possível reduzi-los a retratos transfiguradores da
paisagem. Veja-se como no poema Cemitério Judeu se opera uma transposição da
experiência para a alusão, sendo que o referido cemitério é não só um dos
aspectos físicos da paisagem como já a referência metafísica de algo que se
perdeu: «uma vez encontrámos uma rapariga / que nos levou para o último andar
de um prédio / onde se podia ver o antigo cemitério judeu / e depois de três
dias sem sairmos do quarto / decidimos mudar-nos para casa dela // no dia em
que íamos fazer as mudanças / e subíamos a rua em direcção à nossa casa / tu
fixaste um homem do outro lado do passeio / que mandou parar um táxi onde
entraste com ele // e nós ficámos a ver o carro afastar-se / contigo a
desapareceres infinitamente / ao lado daquele homem de uniforme escuro» (p.
39).
Apesar de claramente narrativas, estas estrofes permitem-nos sublinhar
dois aspectos marcantes nas três secções do livro (Língua Eslava,
Cristal da Boémia, Inverno Eslavo). Primeiro, a predominância da
primeira pessoa do plural. Este aspecto é importante por nesta opção ser
possível suspeitar um desvio do foco subjectivo do sujeito poético para a
problematização da experiência em grupo. Por várias ocasiões Tiago Patrício faz
referência à presença de um grupo que, não apagando a presença do sujeito, como
que aparenta protegê-lo do isolamento em que se encontra, sobretudo o
isolamento provocado pela distância das origens e pela estranheza de uma língua
que não é a sua. O problema da língua, aliás, começa por ser sondado logo na
primeira secção.
A frequência de uma residência literária na República Checa é,
pois, o mote que obriga à adaptação, ao relacionamento, ao encontro de uma
força de conjunto que o isolamento intimida. O segundo aspecto marcante é o de
um tom aparentemente esquivo ou elíptico que certos poemas inspiram apesar e
para lá da sua dimensão explicativa, tal como o erotismo, mais ou menos velado,
que alguns versos alcançam com impressionante inteligência sedutora. O poema
Cidade Termal seria óptimo exemplo, mas este outro merece-me especial
referência por haver nele algo de extraordinário, tanto em termos sintácticos
como semânticos, na visão de conjunto:
MEDIR O PULSO À PALAVRA
comíamos o corpo com as palavras na terra
dizíamos a terra com o corpo na palavra
metíamos as mãos no tempo e a terra no corpo
tirávamos palavras do corpo para a terra
e semeávamos a palavra dada ao corpo
alimentávamos a terra enquanto era tempo
e servíamos de corpo à terra sem palavras
escrevíamos como se enterrássemos um relógio
de corda e aguardássemos que desse frutos
para vender ou trocar por mais tempo juntos
sentimos o corpo programado
para se desligar num tempo médio
na equidistância do corpo ao silêncio
Muito mais refreados em termos rítmicos e imagéticos, os
restantes poemas (à excepção de Chave Dicotómica) distanciam-se deste na forma,
mas partilham com ele uma ética que a relação aqui estabelecida entre os
vocábulos corpo, palavra e terra permite estipular. Turismo de Guerra revela um
olhar lúcido, talvez demasiado lúcido, sobre os desígnios da humanidade, não
sendo necessariamente candente sobre a situação do homem dito civilizado —
«mostram-nos o quarto de um rei / de um monge de uma prostituta famosa / e
pensamos na nossa cama inútil» (p. 32) —, deixa no ar a fina
ironia do tempo que passa por nós enquanto nós nos ocupamos das coisas banais
que, afinal, são exactamente aquelas que asseguram um certo equilíbrio existencial:
«fazemos isto em vez de nos matarmos uns aos outros» (p. 26). Há aqui um
movimento que não é óbvio daquele que se afasta das raízes para que possa
ver-se melhor no encontro com o essencial, sendo que o “eu” aparece permanentemente sufocado pela presença do "nós". No fundo, nunca estamos
totalmente isolados. Somos sempre uns entre outros, e essa é a única forma de nos
descobrimos.
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