Costumo dizer, e não é brincadeira, que os Tarnation foram
das melhores coisas que me aconteceram na década de 1990. Apaixonei-me pela voz
de Paula Frazer à primeira, foi aquilo a que podemos chamar amor à primeira
audição. A atmosfera western, que desde muito pequeno me fascina, pode ter contribuído
para a faísca, mas há algo de absolutamente telúrico na música dos Tarnation e
na voz de Frazer que transcende qualquer tentativa de compreensão de uma paixão
que foi, sobretudo, um encontro. Gentle Creatures (1995) é apenas o primeiro registo
de uma discografia breve mas intensa. Os Tarnation formaram-se em 1992, ano em
que fui viver para Lisboa, em que me apaixonei pela minha mulher, ano em que
percebi com uma clareza que os dois que trago abertos no rosto jamais esquecerão
a distância que afasta a cidade do campo. Gentle Creatures ofereceu-me, por assim dizer, cama no Big O Motel:
«Down the road sits the Big O Motel, where people tell lies in their own
private cell». Podia ser a descrição de um filme de John Sturges, mas não
é. Basta ouvir Tell Me It’s Not So, canção de uma vida, para o perceber. Há no estilo
country dos Tarnation uma capacidade de recriar o romantismo das pequenas
cidades de província que nos emociona e perturba, por ao mesmo tempo nos
sentirmos afastados e ligados a esse tom. Cada acorde, perfeito, transporta-nos
para a atmosfera sombria, obscura, nebulosa, de ventos secos e redemoinhos empoeirados,
que as primeiras paixões transformam em amores eternos. Por vezes, a voz masculina
de Matt Sullivan acrescenta ao conjunto uma dramaticidade que ainda hoje me
humedece os olhos. Já viram Johnny Guitar? Gostaram? Ouçam Tarnation. Escutem
só aqui.
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