sábado, 8 de novembro de 2014

A SOBERBA DOS LEITORES

Há quem se sinta ofendido com a oposição, nomeadamente quando a oposição é exercida no território do gosto. Costumamos ouvir dizer que “gostos não se discutem”, mas se assim fosse ninguém se sentiria autorizado a dizer que as declarações de x ou de y foram de mau gosto. Lembro-me que dos textos que escrevi sobre livros, excluindo polémicas estéreis directamente com autores ou editores, aquele que gerou mais ondas de indignação (passe o exagero) foi um texto sobre Uma Casa na Escuridão de José Luí Peixoto. Recebi e-mails de leitores que me acusavam de inveja (acusação, de resto, muito frequente quando criticamos um livro); nos comentários entretanto desaparecidos com o transporte do texto liam-se coisas do tipo “isso é dor de cotovelo”, “as pessoas são livres de gostarem do que gostam”, “gostos não se discutem”, lá está, ou uma das minhas dúvidas predilectas: “quem define se uma obra é boa ou má?” Muito tempo tenho perdido a pensar sobre esta questão, e muito tempo continuarei a perder pois julgo que ela não tem resposta. É o ovo de Colombo da crítica. Neste sentido, qualquer leitor pode dizer mal de um livro. Mas não basta poder dizê-lo, há que dizê-lo.
O leitor assoberbado é aquele para quem só o gosto determina a qualidade. Ele relativiza, subjectiviza, transforma tudo num ponto de vista e o seu ponto de vista é que vale. Não lhe digam o contrário. Se o gosto dos bons leitores determinasse a qualidade das obras, nenhuma literatura resistiria à mediocridade. Há razões para que assim seja e basta pensarmos por onde anda o gosto das pessoas. As massas consomem pornografia e nem por isso dizemos que a Erica Fontes é uma digna sucessora da Eunice Muñoz. Quem se atreve a dizer que a Ágata está ao nível da Amália? O gosto das pessoas leva-nos até produtos televisivos ofensivos como a Casa dos Segredos. Basta olhar para as pessoas que estão lá dentro para desconfiarmos do seu bom gosto. Portanto, o gosto nada ajuíza.
Como definir, então, a qualidade de uma obra literária? Se tomarmos por princípio as vendas, Albino Forjaz de Sampaio seria o nosso maior escritor por causa de um livrinho intitulado Palavras Cínicas. Quem já ouviu falar de Albino Forjaz de Sampaio ou sabe sequer da existência desse best-seller nacional? As vendas não são boas conselheiras para a literatura, assim como o não são para o jornalismo. Desconfio que o Correio da Manhã ou a revista Maria não sejam exemplos a seguir no que a qualidade jornalística diz respeito. Se não é o bom gosto dos leitores nem as vendas, então o que pode determinar a qualidade de uma obra? Os prémios? Bem, os prémios são sempre um estímulo simpático. Não obstante, quantos escritores fundamentais nunca ganharam um prémio na vida? E quando não havia prémios?
Pode parecer estranho, mas esta vaga de prémios que todos os anos se distribui não tem senão interesse meramente comercial. Suponho que as editoras estejam mais interessadas neles do que os próprios autores. Alguns. A verdade é que os prémios não definem absolutamente nada. Um regime premeia os seus autores e exclui os que se lhe opõem. Vejam o Nobel e tentem perceber porque não estão lá uns em detrimento de outros. Jorge Luis Borges seria o exemplo mais flagrante, mas há muitos. Os prémios são uma espécie de bandeirinhas que assinalam momentos de reconhecimento ao longo de uma carreira, sendo que, pessoalmente, considero as bandeirinhas ridículas e a ideia de carreira obtusa. O mais premiado dos escritores portugueses vivos talvez seja José Jorge Letria. E no entanto… Desconfiemos dos prémios, do bom gosto das massas, desconfiemos, por princípio, dos críticos e das academias, desconfiemos das vendas e, sobretudo, desconfiemos do culto do autor que hoje em dia se sobrepõe à leitura das obras. Vivêssemos num mundo perfeito os escritores nunca apareceriam, não dariam entrevistas, não se deixariam fotografar, nem sequer assinariam os seus livros. Evitar-se-ia assim o culto do autor e obrigaríamos os críticos à leitura cega, a mais honesta e indiferente de todas.
Ver objectos como Prometo Falhar nos tops de vendas, semanas consecutivas, meses consecutivos, diz muito do culto dos autores no universo intersocial em que vivemos. As leitoras andam com o livro de Chagas Freitas debaixo do braço como andam com flores no cabelo no Verão, é mero adereço, elemento de socialização que as torna in. Estão actualizadas, modernas, fazem parte. Quantos leitores terá Chagas Freitas? Quantas leitoras? Quando dizemos mal de um livro pressupõe-se apenas que tenhamos termos de comparação. Este livro é mau porque antes deste se escreveram outros que são muito melhores? Não só, mas também. O que faz dos bons livros bons livros e dos maus livros maus livros é exactamente o mesmo que faz um bom prato de comida. Não tem que ver com o gosto, tem que ver com a qualidade dos ingredientes e com a capacidade de confeccionar e apresentar um prato em condições. As crianças não gostam de sopa, depois apuram o gosto. Geralmente.
Não dizemos que alguém é bom cozinheiro porque nos faz um ovo estrelado, mas porque nos traz algo à mesa absolutamente excepcional. Algo que poucos conseguiriam fazer. Qualquer pessoa agarra num ovo e o atira para dentro de uma frigideira, mas poucos se preocupam em estrelar o ovo à temperatura certa, aromatizá-lo com as especiarias adequadas, passar ao de leve a gordura sobre a gema, servi-lo com verduras à medida da estação do ano. Experimentem inventar um pouco e tostem uns pinhões, espalhem alguns pinhões sobre o ovo. Ora, se nem todos têm o olfacto apurado para ser escansões porque havemos de julgar que todos estão aptos a determinar a qualidade de uma obra? Não é bem assim. O bom crítico tem a capacidade de avaliar o risco, a experiência, a criatividade, o ritmo, a informação, a técnica e a táctica, tem a capacidade de avaliar que lhe é oferecida pela prática da leitura. Porque leu muito, e leu atentamente, está mais apto a perceber se este ou aquele livro é bom ou mau. Tem, digamos, termo de comparação.
O problema é que os críticos hoje em dia lêem demasiado depressa, sentem-se obrigados a escrever meia dúzia de caracteres sobre certo livro que lhes vai parar às mãos para encher mais um chouriço no suplemento refundido para o qual escrevem. Sem pretender reduzir a crítica ao trabalho feito nos suplementos culturais da imprensa escrita, um dos problemas com que nos deparamos é a confusão de papéis. Não vendo nada de extraordinário na crítica, o leitor sente-se na autoridade de colocar o seu bom gosto ao nível do gosto do crítico. Quem é este gajo para dizer se este livro é bom ou mau? - pergunta-se. A pergunta surge num contexto em que nem o crítico teve oportunidade de desenvolver as suas capacidades nem o leitor teve oportunidade de perceber a sua ignorância nem o autor, que até pode ser ao mesmo tempo leitor e crítico, teve a hombridade de expurgar-se dos interesses mais mesquinhos que o levam a escrever: a vaidade, o reconhecimento, o elogio, o público, a admiração, o ego, a cama, a mesa, o sucesso. Temos, portanto, um problema de esvaziamento de papéis agravado pelo culto da imagem e da superficialidade, pela tirania do gosto (mesmo e sobretudo quando é mau) e pela estúpida soberba do conhecimento (ou da falta dele). Como é que isto se resolve?

4 comentários:

Claudia Sousa Dias disse...

Nem de propósito, Henrique. Ainda ontem tive uma discussão com uma miúda no Facebook, no mural de um amigo de longa data a propósito de um artigo, muito bem escrito aliás, pois não se tratava de mera opinião (tido era justificado, com exemplos, citações, comparações entre diversos livros do Autor) sobre a escrita de José Rodrigues dos Santos. O artigo era quase um guia sobre como NÃO se deve escrever um livro. Admiro a paciência do autor para ler obras tão intragáveis, de tanto juízo de valor e presunção lá contidas. A jovem, no entanto adorava o autor e as suas explicações enciclopédicas e os resumos simplistas de teorias científicas lá contidas, em linguagem do género "Ciencia para tótós". Acusou o jornalista de inveja, que se não gostava daquilo porque é que tinha lido tanto, a mim acusou-me de presunção por aderir ao ponto de vista do jornalista sem ter lido o autor, enfim...

Se se sugerem outra coisa para lerem e terem termo de comparação ficam ofendidos. Não sei. Se calhar é melhor deixar o país afundar na iliteracia de vez e começar a escrever noutra lingua.

hmbf disse...

São situações muito frequentes, até nas livrarias. Essas reacções revelam pouca inteligência e falta de humildade. Gosto de aprender com quem sabe mais do que eu, sabe mais porque conhece mais, porque leu mais, porque tem horizontes que eu não tenho. E procuro aprender ouvindo, escutando, fazendo exercícios de autocrítica. Nem sempre temos que estar de acordo com quem leu a fundo um objecto e partilha a sua leitura, mas pelo menos seria de bom senso e até higiénico não chamar inveja ao trabalho crítico (infelizmente tão raro e tão precioso entre nós, com as consequências que se vêem).

Cuca, a Pirata disse...

É isso mesmo, Henrique.
Como se resolve? Com críticos literários competentes e intelectualmente honestos e que não se verguem às conveniências promocionais das editoras; com livreiros que não vendam espaços nas montras; com leitores exigentes. O que é o mesmo que dizer que não se resolve.

jpt disse...

Retenho, porque o tenho em conta de bom leitor e capaz de sentido crítico, o que acaba de referir sobre o estrelar do ovo. Sobre o resto também, mas isso dos pinhões francamente, nunca me ocorrera