quarta-feira, 5 de novembro de 2014

PERTURBAÇÕES

Também eu padeci de perturbações infantis. Uma propensão invulgar para a hipérbole fez da minha infância um caso de estudo no que ao tema diz respeito, tantas e tão diversificadas foram as perturbações que me vitimaram. É provável que ainda hoje sofra com o facto, embora não dê por isso, pois da infância um homem guarda tudo nos lugares recônditos da consciência. Sessões consecutivas de psicanálise permitiram-me desenhar uma espécie de mapa, com cruzamentos e entroncamentos, altos e baixos, zonas verdes e pequenos pontos negros de melancolia onde as perturbações da infância construíram seus edifícios inexoráveis.
A primeira de que me recordo foi uma perturbação gastrointestinal crónica. São frequentes as ocasiões em que a família se diverte a inventariar os lugares onde me borrei todo na infância. Lembras-te de quando te esvaíste em merda na marginal da Nazaré? Como esquecê-lo, respondo, foi um dos mais altos momentos de uma infância feliz. Há dias, contava-me o meu cunhado que de visita a Cidade Rodrigo a minha irmã lá fez questão de recordar a imagem de marca que caracteriza os meus tempos de meninice: lembro-me tão bem, disse, quando o meu irmão, coitadinho, se borrou todo aqui, em Cidade Rodrigo. De resto, vários pontos do país são hoje recordados em família pelas caganeiras que o menino, coitadinho, aí foi recobrando.
Tal particularidade, tão abjecta quão desagradável, acabou por gerar um transtorno de ansiedade generalizada. Qualquer pontada nos intestinos, ligeira dor de barriga, indisposição digestiva, provocava-me uma ansiedade infernal. Meu pai, sempre sensível aos tormentos e às debilidades dos nervos, começou por tentar resolver o problema com diversos reforços. Reforços, por certo, positivos, tais como sopas de cavalo cansado, um cafezinho à hora do almoço, sessões de terapia do trabalho tais como engarrafar pipas intermináveis de vinho, encher chouriços, vindima, apanha da azeitona, entre outros trabalhos do campo tonificantes e purificadores da alma.
Deu o cansaço ensejo à preguiça, que não era preguiça, nem mesmo letargia, muito menos espírito pesaroso ou depressão, era um não querer fazer nada para fora que fazia tudo para dentro, uma introspecção desmesurada a que os professores chamavam ora timidez, ora distracção. O menino era distraído, o problema reflectia-se nas notas. Pensava e pensava e pensava, os amigos chamavam-lhe sonhos mas ele nem dava por isso, de tão ocupado que estava e andava com os seus infindáveis pensamentos. A tagarelice enfastiava-me, a competição desalentava-me, a rivalidade consternava-me. Minha mãe levou-me a um bruxo, que, vá-se lá saber como ou porquê, diagnosticou-me males de inveja. Fui sujeito a mezinhas, limpezas espirituais, bebi chás amargos, peregrinei, cheguei mesmo a ser exorcismado num ritual que incluía cornos de carneiro, rabos de coelho, água benta e orações de gosto duvidoso.
Os intestinos andavam controlados, a ansiedade disfarçada, mas a distracção ameaçava dar-me cabo da vida, do futuro, do sucesso, das expectativas, tudo o que um pai e uma mãe haviam sonhado para um filho estava agora nas mãos de um bruxo. Ou de um pai, que adivinhando preguiça onde outros viam outra coisa qualquer, deu uso às mãos num fim de tarde inesquecível. Bofetadas nunca levei, mas os estalos no cu foram com tal intensidade que me levaram os nervos à bexiga. Mijei-me todo. Sofria agora de um descontrole emocional que se manifestava em hiperactividade urinária intensa. Diga-se, porém, que jamais censurei um estalo vindo das mãos de meu pai. Muitas vezes lhos agradeço e não deixo passar uma oportunidade de o premiar pela boa educação que me administrou. Ainda este ano lhe ofereci Educar com Amor do Mário Cordeiro. 
Aprendi a controlar a disfunção à custa de muitos suores, suores que me aqueciam o corpo, temperaturas que me provocavam febres, febres que me levavam ao desmaio, desmaio que passou a designar-se por ataques de pânico. O primeiro ataque de pânico ocorreu aos onze anos. Estava em casa da minha falecida avó Elvira, que me pediu para ir buscar ovos à capoeira. Há muito que tinha medo de galinhas, mas não queria dar parte de fraco. Ainda me arranjavam outra perturbação. Entre ir e não ir aos ovos, ponderei várias situações. Lá está ele com os seus pensamentos, comentou a minha irmã, ai que criança esta, lamentou minha mãe. Na realidade, estava a controlar a bexiga e a conter os intestinos. Não queria cagar-me nem mijar-me todo por tão frouxo motivo. E nisto de controlar-me, deter-me, conter-me, negar-me… desmaiei.
Senti-me estranho ao acordar, ao mesmo tempo aliviado e espantado. Aliviado porque não me tinha sujado, espantado porque estava toda a gente à minha volta em pânico. Ou assim parecia. Mas as pessoas que à minha volta estavam em pânico não desmaiavam, era um pânicozinho, um susto. Eu só dava sustos à minha família, e isso assustava-me.
Podia continuar a desenvolver o rol de perturbações que se seguiram umas às outras, encadeadas como uma corrente que me envolvia o espírito e me aprisionava. Bruxos, psicólogos, médicos de família, nunca ninguém contribuiu para os meus males senão com diagnósticos lacunares e receitas ineficazes. Tudo mudou quando aos quinze, lembro-o como se fosse hoje, lembro-o como se fosse agora, instante decisivo que define uma vida, bebi o primeiro bagaço. Foi na taberna da dona Ilda, no dia dos meus quinze anos, faz agora vinte e cinco anos, que bebi o meu primeiro bagaço. Nunca mais consenti que perturbação alguma me afectasse. Sempre que ameaçam, passo a mim próprio a receita. Há quem desaconselhe a automedicação, há quem não consiga falar de bagaço sem temer o fantasma do alcoolismo. A verdade é que me salvou.

3 comentários:

A VIDA NUMA GOA disse...

**genial*

marta disse...

Muito bom. Envia para a Pais&Filhos, eheheh, há praí muita gentinha a precisar de ler isto.

hmbf disse...

a como está o caracter na pais e filhos?