Julgo entender o pescador sentado na berma do rio, no
paredão, no areal da praia, aguardando pacientemente que o peixe morda o isco. Não
o faz por fome nem precisão, nem por desporto ou necessidade. Espera como eu
espero que o sol caia por detrás do horizonte, por vezes espera que ele nasça
nas costas de quem espera. Julgo entendê-lo quando o observo na sua solidão,
descansadamente sentado no pedregulho onde apaga o cigarro que inda agora
acendeu. Como ele ofereço os olhos ao vento, atento-me à tremura das águas, sondo
as luas e as sombras, fico assim horas a fio parado à beira rio e lanço a cana
a quilómetros de distância de mim próprio.
Levanto voo com as gaivotas, perco-me em arroubos de
imaginação, evoco as distâncias que me separam do tempo de todos quantos se
aventuraram para lá do chão que piso. Tivesse coragem, seria como eles. Mas eu
sou mais como o peixe enclausurado num aquário de águas tépidas, mordi o isco
da inércia. Mesmo quando me sacodem arroubos de fantasia e actuo para lá das
minhas forças é com desencanto que o faço, pois atrás de mim vou sempre eu
próprio e se me cansa o mundo mais de me cansar dele me canso. Estão atracadas
as barcas da aventura nunca experimentada, o mais que me permito é caminhar em
praias desertas e sentir no rosto a espera do homem que pesca.
Talvez não esteja a ser justo para comigo mesmo. É certo
que por vezes arrisco em falso um pé no lodo, caminho entre pântanos como
porventura cristo terá caminhado sobre as águas. Todos nós temos para contar
pelo menos uma grande aventura na vida, e se a ela resumimos o gozo de viver é
porque pelo menos num certo instante valeu a pena ter existido. Tantas são as
ocasiões em que a desgraça podia ter-se abatido sobre nós que fazer desta
espera uma desgraça seria sumamente ridículo. Esta espera é apenas mais um dia
que passa, nenhum tédio nela se avista, apenas a leveza de uma intempérie
anunciada e o cuidado posto na escolha de um abrigo.



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