segunda-feira, 24 de novembro de 2014

PRAIA DA VIEIRA

 
Julgo entender o pescador sentado na berma do rio, no paredão, no areal da praia, aguardando pacientemente que o peixe morda o isco. Não o faz por fome nem precisão, nem por desporto ou necessidade. Espera como eu espero que o sol caia por detrás do horizonte, por vezes espera que ele nasça nas costas de quem espera. Julgo entendê-lo quando o observo na sua solidão, descansadamente sentado no pedregulho onde apaga o cigarro que inda agora acendeu. Como ele ofereço os olhos ao vento, atento-me à tremura das águas, sondo as luas e as sombras, fico assim horas a fio parado à beira rio e lanço a cana a quilómetros de distância de mim próprio.
 
Levanto voo com as gaivotas, perco-me em arroubos de imaginação, evoco as distâncias que me separam do tempo de todos quantos se aventuraram para lá do chão que piso. Tivesse coragem, seria como eles. Mas eu sou mais como o peixe enclausurado num aquário de águas tépidas, mordi o isco da inércia. Mesmo quando me sacodem arroubos de fantasia e actuo para lá das minhas forças é com desencanto que o faço, pois atrás de mim vou sempre eu próprio e se me cansa o mundo mais de me cansar dele me canso. Estão atracadas as barcas da aventura nunca experimentada, o mais que me permito é caminhar em praias desertas e sentir no rosto a espera do homem que pesca.
 
 
Talvez não esteja a ser justo para comigo mesmo. É certo que por vezes arrisco em falso um pé no lodo, caminho entre pântanos como porventura cristo terá caminhado sobre as águas. Todos nós temos para contar pelo menos uma grande aventura na vida, e se a ela resumimos o gozo de viver é porque pelo menos num certo instante valeu a pena ter existido. Tantas são as ocasiões em que a desgraça podia ter-se abatido sobre nós que fazer desta espera uma desgraça seria sumamente ridículo. Esta espera é apenas mais um dia que passa, nenhum tédio nela se avista, apenas a leveza de uma intempérie anunciada e o cuidado posto na escolha de um abrigo.

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