sábado, 1 de novembro de 2014

QUANTO MAIS TEMPO?

Para o MdF
 
O perfil dos meus dias começa a traçar-se quando a porta do terceiro andar se fecha com estrondo. Desço as escadas aos saltos, simulando juventude que não tenho. Hoje, na caixa do correio, o inesperado sobressalto da partilha. Notícias das ilhas e do inferno, poemas e derivações. Entre os dois envelopes, um postal da Noruega. No meio da floresta a cabana aparece rodeada de neve, conta-me o amigo dos pássaros de papel terem cortado árvores velhas e secas e quase inúteis. O machado do patrício tem serviço feito. Isto sim, é curriculum invejável: o fumo a sair da chaminé e a confundir-se com um céu tão distante deste invulgar Outono ardente, a cabana rodeada de neve, os ramos das árvores a suportar o peso do gelo, aquela alegria de um certo isolamento e o silêncio que se suspeita, o silêncio da água que escorre, da neve que cai, do vento que dobra a vegetação, da fauna que migra, da lenha que arde, da madeira que range. Vou para o shopping com os envelopes debaixo do braço. Penso quanto mais tempo resistirei ao calvário, via-sacra de estações intermináveis, rodeado de lixo e de ruído. Correio inesperado, anjo da guarda, quanto mais tempo?

1 comentário:

soliplass disse...

Muito gosta ele de pássaros. Chega e abre as portas e janelas. Depois disso, a primeira preocupação é encher os comedouros de pão e restos para os pássaros, alimentar a bicharada. Pró esquilo meio casqueiro pendurado num ramo. Em casa a mulher despacha-lhe na mochila farnel metada para ele e metade para os pássaros. Agora que o Inverno se aproxima há-de levar também qualquer coisa para os veados...

um abraço de cá,