domingo, 16 de novembro de 2014

RESPIRAÇÃO ALHEIA



Quando morrer quero o que a morte tiver para me oferecer, sono eterno sobre o musgo, obsidiada casa invertida, uma sombra plana que o vento desenha na circunferência dos olhos. Que a morte me tenha espalhado pela terra, erva daninha a crescer com abandono dentro, a vida nada me diz, tristeza de chão batido onde os passos escutam uma leveza decrépita.



Silêncio eterno, paz eterna, desejo nulo, que anseia o corpo curvado dos dias efémeros? Tronco redemoinhado, inclinada vertente cúspide, linguagem estranha que seduz os sentidos da fala. Quando morrer esta língua viva das árvores, respiração alheia do mundo, sob elas passam fauna e flora como se não passassem, como se fosse indiferente ser e estar, a inconsequência do verbo, nascente.

 
Nascem folhas da terra entre folhas caídas, tapete de vida e morte sobre o qual mijam cães aflitos. São restos de ossadas, as ossadas foram já restos de um corpo. Quando nascemos o sangue agenda a morte, tudo vai no sangue, a saúde e a doença, o tempo, a paixão. Que resta a este chão? De que precisa este chão que não tenha já? Só os homens pretendem casas e por isso começam pelos telhados, abrem janelas no peito e dizem: amor – são falsos, mentem, iludem, conspurcam cada palavra do vento com suas mansas teses. Odeio os homens mais suas casas, consciência emparedada, adiamento, odeio o modo como disfarçam a luz que dança entre os troncos das árvores. Quando morrer há-de a vida trazer-me pela trela da compreensão.

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