sábado, 13 de dezembro de 2014

#52


Estou apaixonado pelo António Zambujo. Dito assim, pode parecer declaração atravessada. Não é. Apaixonei-me pela voz do António Zambujo, o tom sossegado que me conforta e, confesso, irrita. Porque eu queria ter aquele sossego, aquela voz de Beja tão planície de trigo. Aquela planície afagada pelo vento como ao cabo dos dias aziagos nos afaga esta voz, este modo de cantar. Zambujo canta como se estivesse a assobiar, resgata o fado da dor tortuosa onde o meteram e eleva-o à condição superior de estar bem com o mundo mesmo quando o mundo nos provoca coisas assim dolorosas tais a saudade, a distância, a ausência. Canta bem, escolhe lindamente o reportório, permitindo que o popular baile com o erudito sem que nenhum pise os pés ao outro, e tem um modo de tocar guitarra (ou viola, como preferirem) que embala à primeira nota e nos mete a dançar à segunda. Este embalo não adormece, leva o corpo a gingar com paz. É isso, paz. Há uma neblina de paz sobre as canções de António Zambujo, nostalgia desafectada. Por Meu Cante (2004) tem dez anos! Como é possível só ter dado por ele agora? Penitencio-me aos pés da Senhora da Nazaré e digo: As minhas redes lancei com confiança / Colhi só desilusões num mar ruim / Perdi o leme da esperança / Eu não sei remar assim / Senhora da Nazaré, rogai por mim. Deito-me a ouvir esta obra-prima, lanço novamente as redes ao mar.

1 comentário:

maria disse...

Já gostei muito, não gosto tanto dos últimos trabalhos, mas continuo a gostar muito da voz. E gostei do que aqui dizes, ó rapaz das profundidades. :)