sábado, 13 de dezembro de 2014

DOIS LIVROS DE NUNO MOURA

A desfortuna crítica a que tem sido sujeita a poesia de Nuno Moura (n. 1970) concorda com a suspeição de uma cobardia latente nos recenseadores nobiliárquicos. Seria possível fundamentar uma censura da linguagem praticada pelo autor de Nova Asmática Portuguesa (Mariposa Azual, 1998; 2ª edição, 2013) ou simplesmente cair na ladainha laudatória e afectiva do costume, mas ignorá-la denota um incómodo que a singularidade de uma voz desde sempre diferente das restantes pode provocar mas não justifica. Não justifica, sobretudo, tão confrangedor silêncio. Dois títulos recentes voltam a confrontar-nos com esta situação.
Um primeiro conjunto de Letras Para Dance Music (Douda Correria, Maio de 2014) surgiu no n.º 12 da revista Bíblia (2001), quando a Sodilivros ainda existia e os € eram $. De há 13 anos a esta parte, as Letras Para Dance Music cresceram em número, mudaram de forma, largaram pele, transformaram-se como tudo se transforma. São um corpo vivo linguístico cuja compreensão pode alicerçar-se nas experiências fonéticas de Hugo Ball (n. 1886 – m. 1927) quando o Dadaísmo dava os primeiros passos. Poesia fonética, portanto, à qual o autor tem oferecido corpo e voz em diversas circunstâncias performativas. No entanto, a dimensão semântica não está ausente destes pequenos apontamentos onde os aspectos sonoros parecem ser hegemónicos. Não está ausente porque, ainda assim, é possível vislumbrar nos interstícios do som certas imagens cujo sentido remete para uma interrogação sobre a própria resistência do poético: «Vai ao inglês puto / a legibilidade / do poema / irmão / a musika / poery / mexe o t cabrão». Estas imagens de carácter lúdico surgem num contexto em que o hedonismo alcoólico é uma evidência, ao mesmo tempo que o romantismo sucumbe perante a potência de uma vida composta de naufrágios nocturnos e existenciais: «Uma tatuagem / de frida khalo / no baixo ventre / aos treze anos / no baixo ventre / aos vinte e um / no baixo ventre / aos trinta e quatro / e há uma altura / em que todos / nos separamos / de frida khalo». Sirvo-me desta frida como ponte para Carimbos & Tatuagens, Lda. (Debout Sur L’Oeuf, Novembro de 2014). Antes de mais, pode ser uma agradável coincidência que a tatuagem tenha sido desenhada no lugar onde tudo começa: o baixo-ventre. E pode ser também coincidência que tenha sido Frida Khalo a ser desenhada, vítima de um acidente que a atingiu precisamente nessa zona do corpo onde tudo começa e, ao começar, tudo também começa a terminar. Coincidência ou não, parece haver aqui um elo semântico entre a vida e a morte, Eros e Thanatos, que, aliás, a própria sonoridade do nome da artista mexicana sugere.
Mas não é apenas o elo entre a vida e a morte, é também entre tudo o que se intromete nesse espaço de tempo que une as duas margens: acidentes, doença, embriaguez, paixões, loucura. Que outra leitura fazer dos carimbos e das tatuagens na poesia de Nuno Moura? O que neles se acrescenta é a sigla cuja definição encontramos no Instituto dos Registos e Notariado. Repare-se como na parte Carimbos a família está em evidência através de evocações sub-reptícias das figuras do pai, tio, avó ou de conceitos genealógicos e dinásticos (ainda que minados pela irrisão e pelo jogo fonético). Nestes carimbos e, por consequência, nas tatuagens, a questão identitária confunde-se com a experiência do caos. O indivíduo é não apenas um apelido, não apenas uma herança, mas a sua própria experiência acidentada, o indivíduo é uma língua revirada do avesso que pode parecer equilibrada quando agenda tarefas — «Ligar ao Jorge Pavão / Seguir o Cavalo Alucinado / Arrumar as claves / Algemado escrever um policial» (p. 12) e ainda «Reeditar o Kim Quebranoz / Escrever o Rei do Drunfundo / para o Manuel a. / Embarcar a ribeira das naus / No paquete / Ler os textos do Ego e da Boa Crítica» (p. 16) — ou quando se debruça sobre o quotidiano e “dá conselhos” — «Vai, corre, és livre» (p. 23) —, mas no final o que fica d’«A vida além é isto / ou ninguém bate palmas / ou alguém bate palmas / ou é uma salva / ou é como o romeno exilado diz / é igual vertigem, manancial ou suicídio» (p. 37). Dito isto, quero aqui confessar algo que julgo nunca ter confessado. Apesar da irrisão, do experimentalismo fonético, dos disfarces, sempre achei na poesia de Nuno Moura uma das expressões mais autênticas da nossa miséria humana. Ele fere e faz doer no imo, porque nos indaga sobre o essencial: a forma como cada um vive ou não livremente a sua vida. A questão fundamental talvez seja mesmo essa, a da liberdade. Questão que em poesia se coloca ao nível do tratamento da língua. Moura, o Nuno, optou por tratá-la livremente, sem constrangimentos gramaticais ou sintácticos. Trata a sua língua como trata (d)a sua vida. É de uma raridade apreciável que, regressando ao início do texto, reforça essa ideia tantas vezes discutida da cobardia endémica dos que pensam a poesia e sobre ela se dão ao trabalho de escrever.

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