Não é de agora a colaboração do poeta Rui Baião (n. 1953)
com o fotógrafo Paulo Nozolino (n. 1955). Temos notícia dela no livro Nuez
(frenesi, 2003) e, posteriormente, no catálogo da exposição bone lonely
(Steidl, 2011), com um conjunto de poemas, assinados por Baião, traduzidos para língua
inglesa por Yara Frateschi Vieira e Eric Mitchell Sabinson. Há, neste caso, uma
sintonia entre as duas linguagens que torna natural o encontro. Quis o acaso
que apenas recentemente tivesse acesso ao catálogo da exposição levada a cabo
na Galeria Quadrado Azul em 2009, tornando-se-me possível intercalar esta
leitura com a da mais recente recolha poética do autor de Nuez.
Rui Baião,
recorde-se, foi um dos organizadores, com Paulo da Costa Domingos e Al Berto,
da mais relevante antologia de poesia portuguesa vinda a lume na década de
1980: Sião (frenesi, 1987). De resto, a actividade deste poeta, muito mais discreto,
reservado e conciso que os seus dois colaboradores na organização de Sião, está
intimamente ligada ao surgimento da editora frenesi. A publicação de Quiasma
(frenesi, 1982) marcou a estreia, tendo sido quase sempre com essa chancela que
os livros de Rui Baião vieram a lume. Excepções mais recentes confirmam a
regra, ampliando as possibilidades de contacto com uma poesia nem sempre de
fácil acesso. Asco (Debout Sur l’Oeuf,
Novembro de 2014) colige poemas atravessados por uma «luz suja» (p. 28) que
facilmente identificamos nas fotografias de Paulo Nozolino.
Ao
folhearmos o catálogo de bone lonely deparamo-nos com a estrutura óssea de uma
paisagem decadente, composta por destroços, lixo, objectos afectivos deixados ao
abandono, espaços domésticos deteriorados, numa espécie de congelamento lúgubre
do tempo e da história. As figuras iconográficas que surgem a espaços levam-nos
a pensar no mundo como numa morgue onde perduram congelados, tais cadáveres, os
intervenientes da mudança e da revolução. Esta foi ultrapassada pelo tempo,
deixando atrás de si um rasto de trapos velhos e de bairros fantasmagóricos. Um
nu feminino surge isolado e a imagem da mulher que pega ao colo uma criança apenas
acentua a presença dos afectos como resquício envolto em papel de parede deteriorado.
Os versos de Rui Baião, sem se interligarem deliberadamente com estas imagens,
ecoam a noite negra da extinção, afirmam-se como peças transviadas de um puzzle
construído sobre cinzas. Palavras como aflição, angústia, fel, lama, nada,
atingem-nos como facadas do tempo, medindo o pulso à morte num pântano de
devastação e de ruína.
Voltamos a contactar com esta experiência do tempo, porventura mais ontológico, no
livro Asco, título, aliás, que me parece igualmente programático quanto a uma certa forma
de perspectivar a actualidade. Atentemo-nos ao poema da página 23:
Correria
Ruído luzeiro e vezeiro
é lágrima de rapaz sem
desculpa o nome Da morte
num lençol apetece dizer
até quando a faca aí busque
o céu ao cio O meu
amigo no teu silêncio
Um cão a ladrar ao longe
Fazia de conta Corria
o sangue Corria o ano
de mil nove e oitenta
e quatro Corre a correr
o já catorze E ninguém
usa o que é sonhar
Elíptica e enigmática, esta poesia ergue-se das cinzas do
tempo e vai largando fragmentos de história que desafiam a leitura num registo estético
onde a intenção perturbadora se sobrepõe a preocupações prosódicas ou a
qualquer discurso de sedução. Os trinta anos aludidos no corpo do poema demarcam
um intervalo que regista o declínio da utopia (sonho), fazendo-o com o recurso
ao poder imagético de imagens como a do cão a ladrar ao longe ou ao uso de
vocábulos contrastantes tais como ruído e silêncio. De um ao outro, percebe-se o
negro da noite, o rastreio de uma precariedade humana cujo destino é a morte
mas cuja fatalidade não tem (ou tinha) de ser o negrume das desilusões, «a
ruína de fabrico próprio» (p. 29). Ora, é esta «doença / roída de ruíres» (últimas
palavras do livro) que Asco expõe intensamente, tédio e repulsa que as
fotografias de Paulo Nozolino manifestam tal os versos de Rui Baião derramam.
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