sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

NOZOLINO & BAIÃO

Não é de agora a colaboração do poeta Rui Baião (n. 1953) com o fotógrafo Paulo Nozolino (n. 1955). Temos notícia dela no livro Nuez (frenesi, 2003) e, posteriormente, no catálogo da exposição bone lonely (Steidl, 2011), com um conjunto de poemas, assinados por Baião, traduzidos para língua inglesa por Yara Frateschi Vieira e Eric Mitchell Sabinson. Há, neste caso, uma sintonia entre as duas linguagens que torna natural o encontro. Quis o acaso que apenas recentemente tivesse acesso ao catálogo da exposição levada a cabo na Galeria Quadrado Azul em 2009, tornando-se-me possível intercalar esta leitura com a da mais recente recolha poética do autor de Nuez.
Rui Baião, recorde-se, foi um dos organizadores, com Paulo da Costa Domingos e Al Berto, da mais relevante antologia de poesia portuguesa vinda a lume na década de 1980: Sião (frenesi, 1987). De resto, a actividade deste poeta, muito mais discreto, reservado e conciso que os seus dois colaboradores na organização de Sião, está intimamente ligada ao surgimento da editora frenesi. A publicação de Quiasma (frenesi, 1982) marcou a estreia, tendo sido quase sempre com essa chancela que os livros de Rui Baião vieram a lume. Excepções mais recentes confirmam a regra, ampliando as possibilidades de contacto com uma poesia nem sempre de fácil acesso.  Asco (Debout Sur l’Oeuf, Novembro de 2014) colige poemas atravessados por uma «luz suja» (p. 28) que facilmente identificamos nas fotografias de Paulo Nozolino. 
Ao folhearmos o catálogo de bone lonely deparamo-nos com a estrutura óssea de uma paisagem decadente, composta por destroços, lixo, objectos afectivos deixados ao abandono, espaços domésticos deteriorados, numa espécie de congelamento lúgubre do tempo e da história. As figuras iconográficas que surgem a espaços levam-nos a pensar no mundo como numa morgue onde perduram congelados, tais cadáveres, os intervenientes da mudança e da revolução. Esta foi ultrapassada pelo tempo, deixando atrás de si um rasto de trapos velhos e de bairros fantasmagóricos. Um nu feminino surge isolado e a imagem da mulher que pega ao colo uma criança apenas acentua a presença dos afectos como resquício envolto em papel de parede deteriorado. Os versos de Rui Baião, sem se interligarem deliberadamente com estas imagens, ecoam a noite negra da extinção, afirmam-se como peças transviadas de um puzzle construído sobre cinzas. Palavras como aflição, angústia, fel, lama, nada, atingem-nos como facadas do tempo, medindo o pulso à morte num pântano de devastação e de ruína.
Voltamos a contactar com esta experiência do tempo, porventura mais ontológico, no livro Asco, título, aliás, que me parece igualmente programático quanto a uma certa forma de perspectivar a actualidade. Atentemo-nos ao poema da página 23:

Correria

Ruído luzeiro e vezeiro
é lágrima de rapaz sem
desculpa o nome Da morte
num lençol apetece dizer
até quando a faca aí busque
o céu ao cio O meu
amigo no teu silêncio
Um cão a ladrar ao longe
Fazia de conta Corria
o sangue Corria o ano
de mil nove e oitenta
e quatro Corre a correr
o já catorze E ninguém
usa o que é sonhar
Elíptica e enigmática, esta poesia ergue-se das cinzas do tempo e vai largando fragmentos de história que desafiam a leitura num registo estético onde a intenção perturbadora se sobrepõe a preocupações prosódicas ou a qualquer discurso de sedução. Os trinta anos aludidos no corpo do poema demarcam um intervalo que regista o declínio da utopia (sonho), fazendo-o com o recurso ao poder imagético de imagens como a do cão a ladrar ao longe ou ao uso de vocábulos contrastantes tais como ruído e silêncio. De um ao outro, percebe-se o negro da noite, o rastreio de uma precariedade humana cujo destino é a morte mas cuja fatalidade não tem (ou tinha) de ser o negrume das desilusões, «a ruína de fabrico próprio» (p. 29). Ora, é esta «doença / roída de ruíres» (últimas palavras do livro) que Asco expõe intensamente, tédio e repulsa que as fotografias de Paulo Nozolino manifestam tal os versos de Rui Baião derramam.

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