quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

PINHAL DE LEIRIA

 
Na pequena lagoa da Ervedeira vi quilómetros de vento rodeados de rosmaninho, os aromas da terra dançavam no ar e meus olhos mergulhavam num espigueiro longínquo, as aves cantavam e eu não sabia seus nomes, nenhum barco atracado, nenhum homem, nenhuma mulher chamavam por Deus, passadiços usados serviam formigas, seu trabalho seria contar uma a uma as folhas do choupo enquanto eu lia versos de Whitman ao pântano quieto.

 
Milhares de árvores sangrando um sal pegajoso, pinheiros escamosos como peixes ancestrais, uma luz muito fina transpondo os rebentos, e vi toda a infância rodeada de alecrim enquanto aos pulmões chegavam tenras e doces fragrâncias, meus pais declinados na espera da morte, a família em delírio com casas no campo, palavras bordejando demorados segundos e uma eternidade em cada milímetro de vento.

 
Eu vi, porque não procurei, a neve salgada dos pinheiros, tentado que fui pelas feridas sanguentas, uma árvore a verter dores e sementes de ócio, vi brotar do escuro o pinhão d’alegria, espanto e alento para as horas mortas, andei a esmo entre incêndios dispersos e pressenti nas curvas a inquietação dos homens que caminham sós no meio da floresta, vi minha mãe sentada a beber do cântaro e meu pai assobiando como as aves desconhecidas.


Se me perguntassem que fazes aqui, a esta hora, neste dia, debaixo deste frio, diria apenas que escuto o silêncio e que a voz do silêncio é esta resina, estas aves desconhecidas, estes envios no tapete mágico dos cheiros, a voz do silêncio é esta solidão que reconforta e purifica, longe das cidades sem cheiro, distante do estrondo das avenidas, quieto como uma árvore que balança à passagem do vento e todos os sentidos concentrados no olfacto, no tacto, na rendição.

2 comentários:

Sujeito Oculto disse...

Porque para contemplar não é necessário pensar.

hmbf disse...

Pois não.