quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

VIAGENS NA MINHA TERRA #14

Quando a vida era bela, ou seja, antes do condecorado inventor da coisa ter zarpado para parte incerta carregado de dívidas, tive a imprudência de oferecer à minha mulher uma dessas caixas que transformaria os nossos sonhos em realidade. Por uma qualquer razão que nunca hei-de entender, fomos parar a Ílhavo. Nunca antes tinha estado em Ílhavo, nunca mais quis voltar. Mas ficou para contar a caricata experiência no hotel. Agendada a massagem com pedras quentes para dois, apresentámo-nos à hora certa no local do crime. Levávamos no pensamento merecidas ambições de paz, sossego, descontracção. Sucede que a sala de massagens ficava junto a um salão de jantares onde decorria um encontro da confraria do bacalhau. O resultado foi desastroso. A massagem fez-se, mas ao som de uma confusa vozearia que incluiu discursos e vivas ao peixe das mil e uma receitas. Não quis voltar a ouvir falar de bacalhau durante anos, peixe que para o resto da minha vida hei-de associar a essa cidade do distrito de Aveiro. E com razões posteriormente fundamentadas, já que muitos dos homens que andaram na pesca do bacalhau eram dali originários. Menos desagradáveis, o passeio pela Praia da Costa Nova do Prado, com as suas características casas às riscas, e a visita ao complexo da Fábrica de Porcelana da Vista Alegre, acabaram por inspirar a prosa que agora recupero:

Não cedo à tentação de olhar para as árvores como quem olha edifícios humanos. A estrutura das árvores não obedece à lógica dos homens. Elas não foram pensadas, por isso nos parecem sempre mais acolhedoras. Os pássaros que descansam o voo nos ramos devem olhar para as árvores como antigamente os cavaleiros errantes olhavam para as estalagens. Mas, por vezes, o meu olhar resvala na fé. Então, cedo à tentação de olhar para alguns edifícios humanos como quem perscruta uma árvore. E eu perscruto as árvores com os olhos da comoção. Entro nesses edifícios, sinto-lhes a vibração, sento-me a descansar o voo e medito, não oro, em favor dos homens que suaram para que pudesse eu pousar o meu espírito no trabalho que tiveram. Ainda há dias, passeando junto à ria, pude mais uma vez constatar essa transmutação que transforma em abrigo o espelho das águas e em branda ondulação as fachadas dos edifícios. Casas antigas, pintadas às riscas, como se vestissem um pijama para que os nossos olhos encontrem nelas o conforto do algodão. Ali passeantes, como que adormecidos, sentimo-nos em casa andando pelas ruas. Pode dar-se inclusive o caso de pousarmos as pernas numa esplanada. Pedimos o costume: um café cheio, um pastel de nata com canela e uma água com gás. Ateamos o cigarro, folheamos as páginas de um livro que trazemos por companhia e, subitamente, é-nos o colo assaltado por visita inesperada. Tudo conflui, nestes momentos, para uma estranha e rara harmonia. O homem, as casas, o gato e a ria. Escrever a história desses encontros é, talvez, o elemento mais artificial da reunião vivida. Por que a escrevemos? Talvez por pressentirmos e temermos a sua raridade.

Enfim, nem tudo foi mau por terras de Ílhavo. Ali colada, a capital do distrito propriamente dita, aquela a quem chamam com papalvo hiperbolismo a Veneza portuguesa, tem para oferecer não apenas a beleza dos moliceiros e da ria, mas também a de alguns edifícios a contrastar com um Centro Comercial instalado no centro da cidade — obra que não lembraria ao diabo como lembrou a seres humanos de péssimo gosto. Portugal tem demasiado disto. Entretanto travada, pelo menos amenizada, a moda dos shoppings em zona histórica deixou as suas terríveis marcas e abriu feridas que não serão facilmente saráveis. Tudo em nome de um putativo conforto dos consumidores, essa classe para a qual voltámos o centro das nossas atenções desviando as populações do núcleo essencial das suas vidas: a História. É deprimente constatar como muita da nossa desatenção começa precisamente aqui, junto ao teatro onde as pessoas fazem a vida e operam circunstâncias diversas. Aqui deveríamos ter preservado o que mantivesse viva a história para que ela não se apagasse da consciência dos seres, mas fizemos exactamente o contrário, secundarizando um passado do qual restam à mão das populações resquícios desapercebidos e tendencialmente ignorados por gente para quem a preservação do património jamais terá tanto valor quanto a possibilidade de uma loja Zara a meia dúzia de metros de casa. É a mentalidade do novo-rico a tomar conta dos destinos de um país, essa que um dia apontei a um industrial de São João da Madeira para quem a preservação de um monumento só fazia sentido se constituísse possibilidade de negócio. Os resultados desta mentalidade serão desastrosos, tenderão a restringir a tradição a uma paragem na Mealhada para comer leitão acompanhado de espumante. Há não muito, numa passagem pelo Luso, subi à serra do Buçaco até ao agora Palácio Hotel. Estacionei e fiz uma caminhada pelo parque envolvente, seguindo os passos da Via Sacra ao encontro de inúmeras ermidas rodeadas de vegetação. Saiu assim a prosa:




O homem é a cruz que a floresta carrega, a cruz caminha dentro da floresta como um vírus se espalha pelo sangue. Degrau a degrau, o homem penetra na floresta e com uma catana na mão afasta os impropérios da natureza. A floresta esconde mitos à altura das árvores, o homem olha de soslaio e desconfia, sente uma pontada de medo no peito, respira fundo e continua a subir na direcção do desconhecido. Sente-se protegido pelo espírito de outros homens que já caminharam antes dele na mesma floresta, desbravaram caminho, deixaram rastro, sinalizaram perigos, edificaram degraus, pentearam as árvores. O homem não está só no estômago da floresta.



Senta-se, acende um cigarro e pede à floresta que se sente com ele à mesa. Serve-lhe palavras silenciosas, palavras que crescem no tronco do homem como musgo no tronco das árvores. O homem pergunta às árvores seu nome, mas elas não respondem. Desconversam. Falam-lhe de famílias antigas enterradas por debaixo das raízes, biomassa para o pulmão da humanidade, as árvores contam ao homem a história de uma floresta de homens mortos que foram enterrados ali mesmo e ressuscitaram sob a forma de árvores. O homem percebe a mensagem e diz: em cada uma de vós, um homem.



As árvores sorriem, largam frutos de riso no caminho, e o homem pensa que seria fácil enlouquecer no estômago da floresta. Ajoelha-se e sente o sangue das árvores a colar-se aos joelhos, sente que as árvores lhe limpam o sangue do rosto como ao homem dos homens na sexta estação. O homem não precisa de cair para manifestar a sua fraqueza, ele é fraco por natureza: não consegue entender a fraqueza das árvores. Mas as árvores também caem, caem por revolta e saturação. Por vezes as árvores cansam-se dos homens, deixam-se tombar sobre as casas dos homens. São árvores velhas, destrutivas, os homens olham para elas com espanto mas não há senão vergonha no rosto dos homens.



Estes olhos são incêndios, as árvores também incendeiam os homens. Quem protege as árvores dos homens? Quem protege os homens das árvores? O homem acelera o passo, acelera o passo àquele ponto em que parece estar a correr, quer fugir da floresta, quer sair de dentro dos seus mistérios, saltar os muros de mistério da floresta, teme ficar como o cão louco que ameaça o silêncio com latidos e uivos de reclusa condição. Saltar os muros de mistério e de novo observar o horizonte, uma linha de futuro para lá dos troncos das árvores e do vento que atravessa os ramos e da luz apanhada pelas raízes como o peixe na rede. A floresta está cheia de armadilhas, o homem é a cruz que a floresta carrega, a floresta é uma armadilha. Jesus foi a armadilha dos homens, nasceu no deserto – onde as florestas crescem para baixo da terra.



Anos antes, numa deslocação ao Festival Para Gente Sentada em Santa Maria da Feira, ocorria-me a importância das pessoas se sentarem para ouvir música. À época ainda fazia sentido fechar os olhos e escutar o som que vinha do palco, sem gente pela frente de braços levantados a registar no telemóvel momentos cuja partilha em rede se tornou mais relevante. Eu estive lá, assim marca agora o animal humano seu território. Enquanto à sua volta, por desinteresse e distracção, as marcas de um passado colectivo se vão paulatinamente transformando em ruínas que nem maus poemas inspirarão no futuro.  

1 comentário:

luisa disse...

Em tudo podemos encontrar poesia. Basta querer. Nos concertos, as luzes dos telefones inteligentes substituem hoje as chamas frágeis dos isqueiros. Se nos abstrairmos do fim que buscam essas luzes, da tal triste partilha em rede, fica-nos apenas, na retina, um imenso campo de estrelas.