quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

#53


Falemos de coisas sérias. Nos idos de 1996, quando guitarras combatiam personal computers, algures nas terras de Shakespeare uma seita denominada The Aloof blasfemava zeladores da ordem vigente e respectivas convenções. Sinking (1996) é um álbum poderoso que não perdeu nenhuma vitalidade, escutando-se hoje exactamente com o mesmo espanto que então provocou. É difícil descrever a música dos The Aloof. A voz de Ricky Barrow envia-nos para Horace Andy, cantor de reggae que colaborou frequentemente com os Massive Attack. Daí que se ouça falar de uma inspiração dub quando, raramente, se ouve falar de Sinking. Mas as aproximações, na realidade, ficam-se por aqui. A poesia deste álbum é urbana e intimista, apesar dos apelos à festa, os ritmos não são tão arrastados como os da banda de Robert Del Naja (excepto, talvez, no magnífico Stuck on the shelf), as orquestrações remetem-nos para um universo romântico que não conseguimos dissociar daquele tom nostálgico que caracterizou imensos projectos surgidos no termo do século XX. No entanto, esta nostalgia tem já um pé no futuro. As programações de Jagz Kooner (trabalhou com Rádio 4, Manic Street Preachers, Primal Scream, dEUS…) são de uma contemporaneidade irresistível, apostada no hipnotismo repetitivo e minimalista do techno e em experiências com loops onde é possível reconhecer tanto a influência de um Ennio Morricone como de um Steve Reich. Fica o excelente Wish you were here em versão truncada para televisão, pelo que o ideal seria ouvir o álbum todo do princípio ao fim (em repeat):


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