sábado, 28 de fevereiro de 2015

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

OS DOIS SONETOS DE AMOR DA HORA TRISTE


I

Quando eu morrer - e hei-de morrer primeiro
do que tu - não deixes fechar-me os olhos
meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos
e ver-te-ás de corpo inteiro

como quando sorrias no meu colo.
E, ao veres que tenho toda a tua imagem
dentro de mim, se, então, tiveres coragem,
fecha-me os olhos com um beijo.
                                                        Eu, Marco Pólo,

farei a nebulosa travessia
e o rastro da minha barca 
segui-lo-ás em pensamento. Abarca

nele o mar inteiro, o porto, a ria...
E, se me vires chegar ao cais dos céus,
ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.

II

Não um adeus distante
ou um adeus de quem não torna cá,
nem espera tornar. Um adeus de até já,
como a alguém que se espera a cada instante.

Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar
de novo para ti, no mesmo barco
sem remos e sem velas, pelo charco
azul do céu, cansado de lá estar.

E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação.
E não quero que chores para fora,
Amor, que tu bem sabes que quem chora

assim, mente. E, se quiseres partir e o coração
to peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino
talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino.


Álvaro Feijó (n. 1916 - m. 1941), in Corsário (1940). «O Novo Cancioneiro acolheu o espólio literário de dois poetas que a morte não deixou realizar quanto prometiam: Os Poemas (...), de Álvaro Feijó, cuja combatividade linear e límpida, desentranhando-se de uma anterior formação individualista tingida de erotismo juvenil, se vaza num imaginário de aventura marítima característico do neo-realismo inicial, e em símbolos de antigas vivências religiosas e infantis, às quais atribui um novo sentido revolucionário» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). « O seu primeiro livro e único publicado em via, Corsário, dava já, embora mesclado um pouco de sobrevivências literárias e de um sarcasmo algo superficial, o tom do seu lirismo tão peculiar, que nos poemas póstumos tem já uma voz inteiramente própria. A elegância de sentimentos e a segurança tradicional da expressão aliam-se a um sentido muito lúcido e ao mesmo tempo apaixonado dos contrastes do mundo real, para criar uma poesia áspera e fluente, que deu alguns dos melhores poemas da sua época, e em que o pormenor concreto se engasta admirávelmente numa visão directa que só transfigura metafóricamente o estritamente necessário à acção que o poema pressupõe» (Jorge de Sena, in Líricas Portuguesas). 

TRÍPTICOS DA NUDEZ #3

Com o recuo do Blogger em matéria de nus (explicado aqui), seria normal interromper esta série de trípticos. Afinal, outro motivo não havia para despentear a linha editorial senão o uso do contraditório. Mas agora tomei-lhe o gosto. Aguenta-te Maria.
 

O tríptico de hoje é, na realidade, um políptico. Regresso aos temas bíblicos através d’O Retábulo do Cordeiro Místico – ou A Adoração do Cordeiro -, magnum opus dos irmãos Van Eyck. Conta-se que «teve uma história acidentada: quase destruído em 1566 pelos calvinistas, foi desmembrado em 1816 (altura em que alguns painéis foram vendidos) e danificado por um incêndio em 1822». Graças a Deus, nem tudo se transformou em cinza. Muito do prestígio de Jan Van Eyck (1390-1441) deve-se a esta obra cujos painéis começaram a ser pintados pelo irmão mais velho Hubrecht, embora deste não se fale tanto. Dois nus sobressaem na fila superior. Do lado esquerdo, a figura de Adão. Do lado direito, Eva. Pintados com mestria realista, são de um humanismo sem precedentes na escola flamenga. Vistos de perto têm outra graça.
 

Repare-se como os olhos de Adão sobressaem num rosto onde as rugas, as olheiras, a profusão capilar invocam uma humanidade desesperada. A posição do pé direito, ligeiramente levantado, e do braço esquerdo, dobrado sobre os abdominais na direcção do braço direito, sugerem um movimento na direcção de Eva.
 

Na outra ponta da fila, Eva está parada e segura na mão o fruto do pecado. É um fruto estranho de superfície engelhada, a qual contrasta com as formas indúcteis dos seios, redondinhos e apetecíveis, e com o abdómen exageradamente curvo. Estaria grávida de Adão? Impossível evitar a heresia: olhamos para estes dois e sentimos que somos nós o fruto do pecado. Se por nós morreu Cristo na cruz, também por nós estes dois se amaram, correram riscos, desrespeitaram, agiram. A penugem do ventre não foi esquecida, ao contrário de outras representações onde pêlos, pilosidades e cotões são banidos da história como se a gilete tivesse sido descoberta antes do fogo. Onde se encontra o terceiro nu neste maravilhoso políptico é tarefa que deixo ao leitor. Imagine que está a procurar o Wally num qualquer álbum de Martin Handford. Mas não procure em demasia, caro leitor. Pode cansar a vista e em vez de um Wally encontrar o José Cid com toda a lanugem no sítio e um disco de ouro no lugar das tradicionais folhas.  
 
 

O, MY PRECIOUS!

Camarada Van Zeller, como tem passado? Nós por cá quase ao ponto. Ontem fomos a um restaurante chinês provar chop sueycialismo, prato recentemente inventado pelo camarada Tó Costa. Gostámos muito, tanto que não conseguimos entender a razão do alarido à volta da receita: uma pitada de bajulação aqui, outra de sabujismo acolá, e toma lá de bandeja a REN, a EDP, edifícios no Parque das Nações, um palácio na Lapa, vistos gold e mais não sei o quê. Que agora juntemos à receita o socialismo do Largo do Rato é apenas um sinal positivo das boas realpolitik relações mantidas com o consumunismo confuciano. A esta hora, o Zé Seguro deve estar super, híper, mega entretido com a retórica para chinês ouvir do Tó Costa. Esperavam o quê? Que o homem perdoasse taxas ao Benfica? Que cobrasse aos condutores de carros antigos? Que dissesse que o país está pior? Não só seria estrategicamente inábil como incorrecto. De facto, Portugal está muito melhor do que estava há quatro anos. Prova disso é que tem muito menos portugueses. Não podemos descurar o benefício para a nação que a emigração tem sido. Quanto menos portugueses por cá, melhor. Nisso, a última governança é um sucesso. Nisso e a matar velhinhos, a emagrecer crianças, a engordar meia dúzia de empresários, a modernizar a justiça (até primeiros-ministros já vão presos!), a maltratar professores e alunos e encarregados de educação e demais intervenientes no processo educativo, a meter Marinho e Pinto no Parlamento Europeu, etc e tal. Digamos que os últimos anos de governação estiveram para Portugal como os jihadistas para as esculturas pré-islâmicas, destroem até poder. Já agora, camarada, deixe-me sublinhar a coerência destes guerreiros de além (ia dizer Allah, mas temo represálias pela vã evocação do nome do Senhor). Faz todo o sentido que destruam tudo o que seja pré-islâmico, já que os seus comportamentos não revelam senão uma mentalidade de calhaus. Mas talvez seja melhor mudar de assunto, no Bangladesh matam-se bloggers à machadada. E homem prevenido vale por três. Perguntem aos gregos, que antes de começarem a servir fetta aos chineses se preveniram com um Varoufakis que não é idiota nem mentiroso. É apenas um figurino simpático, pode dizer dívida soberana sem parecer o Gollum da Alemanha a arremelgar os olhos.

TRÍPTICOS DA NUDEZ #2

 
Não há compêndio de arte japonesa que escape ao shunga. É possível que a homófona chunga esteja etimologicamente relacionada com a palavra nipónica, designação atribuída às esplendorosas gravuras eróticas dos séculos XVIII e ulteriores. Há quem impute a origem do género às ilustrações dos manuais de medicina chinesa de antanho, sendo certo que as representações sexuais mais ou menos oníricas deste tipo, contemplando geishas, actores de kabuki e cortesãs em delírio zoófilo como a da famosa gravura de Katsushika Hokusai (1760-1849), transcendem largamente qualquer conceito medicinal. Espíritos doentios poderiam vislumbrar nestas imagens tratamento para a doença do preconceito, não pecassem as mesmas pelo registo underground de um humor refinadíssimo e do devaneio sem limites. Note-se como os dois polvos acertam no resultado muito antes de a FIFA ter organizado qualquer mundial. Hokusai, que ficou famoso pelas ondas de Kanagawa, merecia outro reconhecimento por este sonho da mulher do pescador. Afinal, no corpo da esposa devota temos não apenas um tsunami de sensualidade como o princípio inspirador da bomba de sucção vaginal.
 

Sem comparáveis méritos eróticos mas equivalente perspicácia na representação da nudez temos o contemporâneo Vito Acconci (1940). Performer modelar, deixa-nos sempre, por assim dizer, com água na boca por nunca o termos podido observar em tempo real, ao vivo e a cores. Todos os trabalhos que lhe conhecemos chegaram-nos por vídeo ou através de fotografias. Certo que algumas das suas performances têm por público apenas a câmara, espécie de exibição desconstrutiva da noção de interactividade. Mas exemplifiquemos. No filme Conversas Parte II (Insistência, Trabalho Preparatório, Exposição), datado de 1971, filma-se de cima para baixo escondendo o pénis entre as pernas. A androgenia da situação é evidente, estamos na presença de um corpo masculino com uma vagina. Aparentemente. A ilusão desfaz-se quando Acconci se filma de costas e podemos contemplar-lhe os testículos entalados algures entre as coxas e o cu. Os administradores do Blogger dirão que são hemorróidas, embora os críticos garantam tratar-se de um «dispositivo utilizado para apresentar uma alteração experimental da identidade sexual do intérprete que depende da exposição do oculto (castração simbólica)».
 

E já que estamos numa de imagens em movimento, fica a referência ao filme mais despido de todos os filmes. A sério. É o chamado filme do caralho que toda a gente devia ver. Dediquei-lhe um texto medíocre aqui.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

EADWEARD MUYBRIDGE

 
 
Explorou o Oeste selvagem no parque natural de Yosemite, uma incrível colecção de cataratas, rochedos, desfiladeiros, lagos, vales, precipícios e montanhas, o Éden inóspito da América visto com os olhos de um paisagista europeu, romântico e aventureiro. Viajou até aos novos territórios, como o recém-comprado Alasca, que deu a conhecer aos americanos relutantes. Revelou imagens de tribos índias. Acompanhou a odisseia do caminho-de-ferro, retratando túneis, pontes e outros prodígios da engenharia e do progresso material. Esteve no Panamá, onde encontrou igrejas destruídas por terramotos, a colonização e a selva misturadas. E documentou a plantação de café na Guatemala.
 
Pedro Mexia, in Cinemateca, Edições Tinta-da-China, Dezembro de 2013, p. 18.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

TRÍPTICOS DA NUDEZ #1

A propósito da nova política do Blogger sobre “conteúdos sexualmente explícitos”, a Maria promete uma chuva de nus no seu jardim. Solidarizo-me com o protesto iniciando uma série nova a que dei o título Trípticos da Nudez. O primeiro tríptico é dedicado à Lia, porque faz hoje anos e ficou a pensar no durante.
 
 
 
 


 
Teria a idade da minha filha Beatriz (vai para nove anos) quando me chegou às mãos O Grande Livro da Arte – Tesouros Artísticos do Mundo, com prefácio do então famoso director da Tate Gallery Sir Norman Reid. Um dos primeiros tesouros abordados, ainda no capítulo da arte rupestre, é a Vénus de Willendorf. Datará de 20000 a 18000 a.C., quando os homens andavam nus sobre a terra e não sentiam vergonha por isso. Esta pequena estátua é ainda hoje uma lição acerca da representação da nudez, atraindo todas as atenções para o essencial no corpo feminino: mamas e ancas opulentas. O pormenor dos braços e das mãos a repousarem sobre os peitos é simplesmente delicioso. Também é costume sublinhar-se a ausência de elementos faciais, cobertos por uma suposta farta cabeleira encaracolada. Mas não podemos estar certos de que se tratasse do penteado da senhora. O escultor tinha à época uma mentalidade muito mais sofisticada do que os administradores do Blogger demonstram possuir na actualidade, pretendendo com aquele pormenor exaltar tão-somente o corpo e o seu potencial fecundante. Como em tempos referi, tendo por pretexto Escritos Pornográficos de Boris Vian, a nossa civilização desenvolveu-se no sentido exactamente contrário: tapa as partes, maquilha o rosto (quando não faz do rosto uma das partes).
 

Um dos nus que mais controvérsia gerou ao longo dos tempos foi pintado por Tommaso Masaccio (1401-1428), a ponto de se especular sobre a morte prematura do misterioso florentino (envenenamento?). Impedido de terminar os frescos na Capela Brancacci, Masolino da Panicale (1383-1447) entregou o trabalho ao jovem Masaccio. Numa época em que a realidade se transmitia através de símbolos religiosos, Masaccio privilegiava o realismo fazendo uso da perspectiva e oferecendo às suas figuras uma ilusão de peso que as fazia descer do céu à terra. Eram figuras humanas, demasiado humanas. A Expulsão de Adão e Eva do Éden começou por inquietar as mentalidades mais conservadoras precisamente pela dimensão das figuras. Como podiam Adão e Eva ser maiores que o anjo do Senhor? O caldo estava entornado. O semblante desesperado dos intervenientes também não agradou, demasiado naturalismo humanista. Dois séculos depois, ou seja, lá pelos idos de 1674, os púdicos repararam na inaceitável nudez de Adão. Mesmo Eva, apesar da estratégica mão à frente da fonte, não escapou à censura. Toca de botar ramos de folhas sobre os órgãos sexuais. Só em 1980, após restauração do original, pudemos novamente apreciar o mastro de Adão e o mui moderno ventre depilado de Eva. Se o Blogger não censurar, podeis apreciar na figura o antes que foi depois e o depois que tentou ser antes.
 
 
 
 

 
Para terminar, e num registo mais sexualmente explícito, permito-me recordar os Desenhos Secretos do realizador russo Sergei Eisenstein: aqui. Palavras não há que lhes façam justiça. Estaline não gostava, os administradores do Blogger também não.

ESTATÍSTICAS

A palavra pornografia aparece 10 vezes neste weblog. O termo sexo surge 62 vezes, com esta 63. Pénis e vagina são pouco usuais por aqui, 5 e 6 referências respectivamente. As versões vernáculas têm outra assiduidade: caralho, 24 menções; cona, 16 alusões. Contra todas as minhas expectativas, escrevi duas vezes picha neste weblog. É palavra que detesto. Tanto quanto o verbo espichar. Já o verbo foder foi por aqui utilizado 23 vezes, na forma substantiva 37 vezes e 18 vezes em modo adjectivo. Os conteúdos sexualmente explícitos não são o forte deste weblog. Ou então as estatísticas enganam, e os conteúdos pornográficos estão onde menos os suspeitamos.

ESGOTAR OS ARGUMENTOS

 
Em tempos, Marcuse foi questionado sobre a sua declarada inclinação para a pornografia. Tentou explicar que entre apanhar uma doença má nas putas ou sentir-se vulgar a trair a mulher, preferia satisfazer-se com pornografia. Pressentindo polémica, o entrevistador insistiu: então por que não se satisfaz com a sua mulher? Marcuse olhou-o nos olhos, cofiou as barbichas, e respondeu:
 
Cheguei à conclusão que sexo com a minha mulher só é possível quando ela sente ao largo a ameaça de uma fêmea depredadora. Nesse sentido, o ciúme pode ser um aliado fiel. Noutras ocasiões, exige-me amor. E no que respeita ao amor já esgotei todos os meus argumentos.
 
 
Nota: post originalmente publicado a 24/05/2012, recuperado agora a propósito das novidades anunciadas na imagem ao alto.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

WINGS OF THE HAWK (1953)



Geralmente apresentado como autor de “westerns curtos, nervosos, convincentes”, Budd Boetticher (n. 1916 – m. 2011) denota em alguns dos seus filmes um lado indulgente que não pode passar despercebido. Além do conhecidíssimo Ranown Cycle, ciclo com o qual catapultou o actor Randolph Scott para o panteão das maiores estrelas de sempre do western, há na sua filmografia um conjunto de obras onde o México surge como palco privilegiado para a encenação de paixões improváveis. Esta opção pelo México projecta a sua própria relação com esse país, uma relação obsessiva com múltiplos encontros e desencontros. Do casamento com a actriz Elsa Cárdenas ao furor pelas touradas, passando pela obstinação colocada na realização do documentário Arruza (1972), são muitos os exemplos de uma convivência empolgada com o país de Emiliano Zapata. Sem quaisquer preocupações documentais, Wings of the Hawk/As Asas do Gavião (1953) transporta-nos, precisamente, para a época da Revolução Mexicana. Um mineiro de origem irlandesa vê-se encurralado entre os interesses de um coronel corrupto e o auxílio que lhe é prestado pelos insurgentes, na sua maioria camponeses mal armados e indefesos. O oscarizado Van Heflin (melhor actor secundário em Johnny Eager, de Mervyn LeRoy) é o enérgico e vigoroso irlandês que acabará por lutar ao lado dos revoltosos contra a tirania do Coronel Ruiz. No início, movido por interesses meramente materiais, pretendia apenas recuperar a mina que lhe fora usurpada por Ruiz. Mas o enamoramento pela rebelde Raquel Noriega fá-lo perder as estribeiras e manda a mina pelos ares numa cena onde estão em causa muito mais do que as ambições meramente egoístas do prospector. Julie Adams, actriz experiente nos ambientes de série B, é a Raquel Noriega que o irlandês desarma no final com o seu gesto épico. Verdade seja dita que não basta a indumentária para fazer de Julie Adams uma rebelde convincente. Desde o início que os coldres cruzados sobre os ombros, os dois revólveres e o sombrero pouco têm que ver com a postura melíflua e sensual da actriz, mas essa é a tal dimensão indulgente que vislumbramos nos filmes de Boetticher e que tanto nos agrada. Os movimentos rápidos da câmara nas perseguições, o travelling da sequência inicial que acompanha o irlandês e o coronel Ruiz na direcção da cabana onde tudo terá início e irá terminar, contrastam com os planos fixos oferecidos ao rosto da figura feminina. É como se Boetticher nos quisesse mostrar com os seus planos enlevados o ouro que o irlandês Gallager está prestes a encontrar, um ouro em forma de mulher. Deste modo, o espectador pode contemplar na figura de Julie Adams, desde a primeira aparição, a beleza e o deslumbre que Irish Gallager e o seu sócio vêem nas pepitas douradas descobertas assim que o filme começa. Há um vagar e um cuidado nestes planos que nos acalma no decorrer da frenética narrativa, são momentos de pausa entre contendas.  As explosões finais, com a mina a ir literalmente pelos ares, celebram um outro encontro, um outro deslumbre, a outra descoberta do mineiro interpretado por Van Heflin. Chegados a este ponto, já nada tem que ver com guerras e revoluções, coronéis corruptos e camponeses indefesos, estamos no território clássico das paixões improváveis. Mas possíveis, assim o queira a obstinação dos amantes.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

EN EL ESTADO MÁS LIBRE DEL MUNDO

Pero siempre fue así: a quien está destinado a precipitarse en el vacío, se le tapan los ojos para que no sienta vértigo.
Ret Marut
Antes de ter sido Bert Traven, enigmático autor dos populares romances The Treasure of the Sierra Madre (1927) e The Death Ship: The Story of an American Sailor (1926), Otto Feige (n. 1882 – m. 1969) foi Ret Marut. A confusão persiste ainda hoje, valendo a tese que atribui ao polaco Otto Feige a verdadeira identidade por detrás dos pseudónimos Marut e Traven. O que podemos dar como certo é que o nome de Ret Marut aparece na conturbada vida pública da Alemanha do início do séc. XX como autor da revista Der Ziegelbrenner, publicada entre Setembro de 1917 e Dezembro de 1921 na cidade de Munique. Para quem não esteja familiarizado com o tema, convém esclarecer que à época publicações como Der Ziegelbrenner afastavam-se radicalmente do conceito que hoje temos de revista por não terem senão um único autor no lugar de vários jornalistas ou grupos de escritores. De resto, a imprensa convencional, a quem Marut chama “a puta pública”, é um dos alvos principais dos seus artigos dardejantes: «Tenéis un solo enemigo que es el más degenerado de todos. La tuberculosis y la sífilis son epidemias terribles que sufre el hombre. Mucho más terribles, malignos y perniciosos son los efectos de la epidemia más asoladora: la puta pública, la prensa» (in ¡Hombres!, 20 de Março de 1920). A razão de assim ser é facilmente compreensível se tivermos em conta dois factores que impediam a imprensa de se afirmar como veículo de informação em prol da verdade: por um lado, a censura; por outro, a subjugação do jornalismo aos poderes económico e político. Se o primeiro desses factores foi, em parte, erradicado da realidade europeia, exercendo-se hoje essa censura não de uma forma institucional mas a partir de condicionalismos que dificultam o trabalho dos jornalistas, o mesmo não podemos afirmar da subjugação, sobretudo, ao poder económico. Mais sentido faz a expressão utilizada por Ret Marut quando constatamos ser o jornalismo que hoje se pratica completamente dependente de agências de comunicação com interesses específicos, meticulosas fugas de informação ou, para citar Pacheco Pereira, “empresas,associações de interesse, agências de comunicação e marketing, por sua vezempregues por quem tem muito dinheiro para as pagar”. Ora, é de todos sabido quem tem esse dinheiro. O que chega ao público disfarçado de informação mais não é, pois, do que veneno com um único objectivo: manipular a opinião pública. Quase 100 anos nos distanciam dos textos coligidos neste En el estado más libre del mundo (Alikornio ediciones, Setembro de 2000), título irónico para a edição castelhana dos textos com que Ret Marut agitou a Baviera e arredores durante e algum tempo depois da I Grande Guerra. Descontando o tom datado de algumas intervenções, a verdade é que artigos como El temor a la vida (1 de Dezembro de 1917), La nueva libertad (3 de Dezembro de 1919) ou Siete rostros del tiempo (21 de Dezembro de 1921) mantêm uma inquietante actualidade. Tomemos de princípio o posicionamento político do autor: «Yo no pertenezco ni al partido socialdemócrata ni soy socialista independiente. Ni pertenezco al grupo “Spartakus” ni soy bolchevique. No pertenezco a ningún partido, a organización política de ninguna clase» (in Comienza la revolución mundial, p. 49). Esta reivindicação de independência não o impede, porém, de manifestar as suas simpatias. Podemos mesmo afirmar que lhe garante coerência às contradições do pensamento, mostrando-se adepto da ditadura do proletariado e do sistema dos conselhos ao mesmo tempo que reivindica o fim do Estado à maneira de um anarquismo individualista que tem nos escritos de Max Stirner a sua mais eloquente expressão. Andreas Löhrer resume assim o pensamento de Marut na introdução: «Vacilaría entre el “socialismo ético”, el libre pensamento de un artista, el afán de la subversión radical y la necesidad de una fuerte organización proletaria» (p. 10). Elementos que confluem invariavelmente para uma mesma ideia: a de que o capitalismo e sua intrínseca avareza são os maiores inimigos do indivíduo, promovendo a preguiça intelectual ao mesmo tempo que o hipnotizam com as ilusões de felicidade supostamente proporcionadas pelo dinheiro. Transformados em escravos do dinheiro, os colonizados do capitalismo temem perder o emprego, criam dentro de si fortes resistências à mudança, o medo ergue dentro desses indivíduos muralhas de ignorância propagadas pela imprensa manipuladora. Subjugados aos interesses "da comunidade" os indivíduos mais facilmente aderem às guerras entre os estados do que promovem as suas próprias batalhas. Esta realidade resulta em sociedades divididas, indivíduos esvaziados da sua individualidade, estados onde «no se quiere personas capaces en los departamentos porque la gente consciente de sus capacidades no sirven para subalternos» (in La censura. El hecho, 15 de Janeiro de 1919, p. 46). Curiosíssimo paradoxo, o individualismo de Ret Marut é filantrópico. Certo solipsismo que por vezes emerge nas suas palavras é o garante de uma humanidade mais solidária, sem estados egoístas e castradores dos seus povos. Mais ou menos utópico, Marut foca-se na liberdade e na felicidade individuais contra a “paz e ordem “ podres dos estados opressores: «”Paz y orden” significan: protectión del capitalista para que pueda explotar en “paz y orden” a los que quieren comer» (in Comienza la revolución mundial, 30 de Janeiro de 1919, p. 52). Contra os rebanhos eleitorais incultos e desinformados, contra os oportunistas e os traficantes de escravos, Marut propôs um socialismo que consistisse na «distribución justa de los bienes existentes y producidos según el valor del trabajo realizado y según la necesidad del beneficiario de los bienes. El Estado no tiene necessidades. El Estado es una institución inútil que consume más valores de los que puede producir» (in La nueva libertad, 3 de Dezembro de 1919, p. 76). É óbvio que “o estado mais libre do mundo” só poderia ver-se libre da liberdade deste indivíduo, perseguido pelo Estado por ser considerado seu inimigo. Ao contrário de outros, que pereceram ostracizados pelas beneméritas democracias ocidentais, ou foram simplesmente executados, assassinados, por defenderem tais heresias — ¡Sed indivíduos, sed hombres! —, Ret Marut conseguiu escapar à acusação de delito e alta traição. Fugiu para o México e, entre os índios oprimidos e explorados desse país, tornou-se Bert Traven. Ainda o lemos.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

IRRESPONSÁVEIS

Um dos epítetos que a direita mais reiteradamente atribui aos partidos de extrema-esquerda é o de serem irresponsáveis. Os comunistas são irresponsáveis porque querem sair do euro, os bloquistas são irresponsáveis porque querem renegociar a dívida, o Livre & C.ª Lda. é irresponsável porque escreve ao Syriza cartas de solidariedade. São todos irresponsáveis. Já dos amestrados pela troika, dos fãs da austeridade, dos amigos do FMI e do BCE e da Comissão Europeia onde o ex-maoísta Barroso andou a fazer pela vida, desses não podemos dizer que sejam irresponsáveis. Nisto temos que concordar com a direita. Na realidade, estes canídeos do europeísmo à Lagarde são responsáveis. Responsáveis por termos chegado, como dizia o outro, a este estado de coisas. Foram eles que estiveram nos governos, foram eles que tomaram decisões, foram eles que esbanjaram dinheiros públicos e fizeram negócios ruinosos, foram eles e são eles quem manda no país. São eles os responsáveis. Para o bem e para o mal, os irresponsáveis da esquerda radical nada têm que ver com a miséria em que estamos. Tudo se deve à responsabilidade dos sociais-democratas, dos socialistas e dos democratas cristãos, ao populismo das suas políticas e às suas mentiras. Eles são os responsáveis. Que se orgulhem de tal responsabilidade, enfim, só mostra o quão inconscientes são.

WESTERN E OSCARS

Apesar de inúmeras nomeações, o western nunca foi dos géneros mais premiados nas cerimónias dos Oscars. A título de exemplo, verifiquei quais os filmes desta lista ainda em construção que arrecadaram estatuetas da Academia. Ei-los:
 
- Os Dominadores (1949): melhor fotografia para Winton C. Hoch;
- O Comboio Apitou Três Vezes (1952): melhor actor para Gary Cooper, melhor montagem para Elmo Williams e Harry W. Gerstad, melhor canção original para Dimitri Tiomkin e Ned Washington, melhor música para Dimitri Tiomkin;
- Shane (1953): melhor fotografia para Loyal Griggs;
- A Velha Raposa (1969): melhor actor para John Wayne (curiosamente, o remake dos irmãos Coen mereceu dez nomeações mas não arrecadou nenhuma estatueta);
- Imperdoável (1992): melhor filme, melhor actor secundário para Gene Hackman, melhor realizador para Clint Eastwood, melhor montagem para Joel Cox;
- Django Libertado (2012): melhor actor secundário para Christoph Waltz e melhor argumento original para Quentin Tarantino.
 
John Ford foi premiado 4 vezes como melhor realizador, mas nunca por um western. Henry Fonda viu a sua extraordinária carreira premiada apenas em 1982 pelo desempenho no filme A Casa do Lago (1981). Realizadores emblemáticos como John Sturges, nomeado por A Conspiração do Silêncio, ou Budd Boetticher, nomeado por Homens na Arena (1951), não mereceram a consagração da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Tal como sucede com o Nobel da Literatura, também neste domínio o melhor fica quase sempre de fora.

CUCOS

Não acredito em nada do que leio nos jornais, valendo a premissa para tudo o que leio nos jornais. Portanto, não acredito que Portugal e Espanha tenham tentado bloquear o acordo da Grécia com o Eurogrupo. O que tinham a ganhar com tal postura? A metáfora do cão apoiado nas patas de trás não chega, seria necessário pensar num outro tipo de animal. Talvez o cuco, a ave parasita que, em vez de construir o próprio ninho, deixa os ovos nos ninhos das outras aves. Mas no caso português isto de ser cuco tem os seus contratempos. Portugal sempre foi um cuco estúpido, desde os tempos das especiarias da Índia ao ouro do Brasil. Desta feita, deixou os ovos no ninho da águia alemã. Está visto que a águia não podia senão devorar-lhe os ovos, impedindo o desenvolvimento da espécie parasitária. Talvez poupe o cuco e até lhe ofereça um ramo onde repousar de baixos voos. Com ministros das Finanças transformados em animais políticos, o zoológico faz as vezes da floresta. Os animaizinhos estão presos em gaiolas financeiras, cumprem as suas vidas obedecendo às regras dos tratadores. Isso a que chamam troika, e que a Wikipédia lembra ser um carro conduzido por três cavalos, mais não é do que o banquete dos omnívoros. Alguns cucos podem aspirar à mesa do rei. Entre nós, Durão Barroso e Vítor Gaspar são apenas dois exemplos de parasitas bem sucedidos. Já na base desta cadeia alimentar estarão sempre insectos ignorantes como eu, que olho para o recibo de vencimentos e para as facturas da electricidade, do gás, da água e não percebo nada do que estou a descontar e a pagar. Mas desconfio, embora os jornais o não expliquem, que não seja subsídios para os putativos paralíticos da Grécia.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

BALADA ÍNTIMA


Dês as voltas que lhe deres:
Dentro do teu coração,
As coisas são o que são,
Não aquilo que tu queres...

A fantasia modela,
Modela as formas e os seres,
Como um Deus, à feição dela!...

Tudo quanto em nós anime
A fria realidade,
Só em verdade se exprime
À luz da nossa saudade!...

Coisa, ou ser, ou criatura,
Que a vida a meus olhos traga,
Se há-de erguer àquela altura
Em que o meu sonho divaga!...


Fausto José (n. 1903 - m. 1975), in Solstício (1940). «(...) como acontecera frequentemente desde o séc. XVI, um grupo de jovens intelectuais a sair da universidade é que vai ser o veículo de consagração do modernismo. / A revista coimbrã presença (54 números, 1927-40), fundada por José Régio, Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca, Edmundo de Bettencourt, Fausto José e António de Navarro e de cuja direcção depois participam Casais Monteiro e Miguel Torga, é o centro desse grupo» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). «Quando estudante, acompanhou o grupo da Presença, se bem que a sua poesia não tenha grande afinidade com as tendências manifestadas pela maioria dos colaboradores dessa revista. Os seus temas preferidos são de circunstância, mas depurados pela altura do voo lírico: assuntos de história caros à sua sensibilidade poética, certo regionalismo e, por último, o culto do lar e da família» (Cabral do Nascimento, in Líricas Portuguesas).

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

UMA SALA VAZIA PARA ANTÓNIO CABRITA

Olha, a única metáfora que tenho por resolver é esta (aponta para o corpo) e é assim porque está oculta pela roupa…
Mafalda, in Duas Luas, Entrededos
Num artigo intitulado Poesia, Último Reduto da Literatura? (Diário de Lisboa, 14-04-1972), Ruy Belo como que veio defender-se do desabafo escapado no prefácio a Sob Sobre Voz, de João Miguel Fernandes Jorge, publicado em 1971. No prefácio, referiu-se o poeta a um «tempo em que a poesia morreu». Emendou a mão posteriormente, apelidando a poesia de «indisciplinadora mais audaz». «A poesia está doente, a poesia morreu? A poesia continua». — assegura-nos o autor de A Margem da Alegria. Mas mais interessante nesse artigo é a relação estabelecida entre a poesia e outras artes, nomeadamente o cinema. Para Ruy Belo, a sétima arte «influenciou o romance e mesmo a poesia». Neste caso, obrigou-a «a viver daquilo que nunca deixara de ser: o exercício da sabedoria da linguagem, uma aventura da palavra». A subsistência da poesia está ligada à sua práxis original, continuando a emergir nas outras formas de arte enquanto núcleo a partir do qual a liberdade criativa se manifesta. É curiosa esta relação com o cinema, desde logo por não abundarem poetas que lograram afirmar-se nesse domínio da criação artística. Entre nós há, porém, um caso onde o cinema, a poesia, enfim a literatura, se tocam com inesperada subtileza.
Habituei-me a ler António Cabrita (n. 1959) primeiro como crítico de cinema, depois como poeta, posteriormente como prosador notável e ensaísta. Referências cinematográficas são uma constante na sua obra, aproximando-se inclusivamente alguma da sua poesia de processos eminentemente visuais com estreita ligação a uma discursividade cinematográfica com mensagens cifradas e motivos ligados à efabulação. Detenhamo-nos, contudo, noutras paragens. É impossível determinar se os projectos de filme recusados ao Raul do conto Cegueira de Rios, coligido no volume com o mesmo título (Relógio D’Água, 1994), têm alguma coisa que ver com a peça Duas Luas, Entrededos (Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Março de 1984), apresentada pelo próprio Cabrita como «esboço para um guião». Dez anos separam as duas obras, pese embora o facto de não terem sido suficientes para que a primeira ecoe na segunda e, ó heresia fenomenal do tempo, a segunda se reflicta à luz dos dias de hoje na primeira. Há uma proximidade entre os contos de Cegueira de Rios e a peça Duas Luas, Entrededos que não pode ser negligenciada.
Num autor multímodo como é o de Arte Negra (2000) esta proximidade temática e tonal relega para segundo plano a forma literária escolhida como suporte para a evocação de imagens, situações, circunstâncias, sublinhando a traço grosso aquilo a que Ruy Belo chamava «aventura da palavra». De resto, não deverá ter sido por lapso que no conto Aprendiz de Ícaro foram reproduzidas algumas das passagens mais fortes do guião. No diário da personagem central da guião, um David cínico que lembra amiúde o Jimmy Porter de Look Back in Anger (peça emblemática de John Osborne, publicada em 1956), escreve-se o seguinte: «o meu pai era enfermeiro e viu dissecar muitos órgãos. uma vez teve nas mãos um coração que ainda pulsava; tinha pertencido a um corredor de maratona… mas nunca me contou que tivesse encontrado uma alma» (p. 63). No conto, dez anos depois, a busca da alma reaparece nestes termos:  «Um médico amigo que viu dissecar muitos órgãos garantiu-me que nunca tinha encontrado uma alma» (p. 92). Outro exemplo: David conta a Mafalda que viu em Cacilhas «um vendedor de cautelas, miserável e marreco, a dizer a um cliente engravatado até ao pensamento: «eu há vinte anos que jogo no mesmo número»» (p. 71). O mesmo vendedor de cautelas volta a surgir no último conto reunido em Cegueira de Rios: «Uma vez em Cacilhas surpreendi um cauteleiro em estado de graça. Nascido de uma fecundação apressada num óvulo já sem janelas para a esperança, era marreco, coxo, tinha um imenso nariz de papagaio onde se encastravam umas lentes com meio palmo de miopia e sujidade, mas eu ouvia-lhe para um freguês perfumado e luzidio como os colarinhos de seda que exibia: “eu há vinte anos que jogo no mesmo número!”» (p. 92). Podia ser há trinta, que o mais importante é a dúvida formulada por David depois de falar do cauteleiro a Mafalda: «que estranha fé move aquele homem?»
Refira-se que Mafalda estivera afastada de David durante um ano, regressando agora para o seu coração caducado. A David resta um ano de vida e quer passá-lo com a amada, mas não quer que ela perceba a sua condição sob pena de ficar com ele por piedade. Truque hitchcockiano, este de oferecer ao leitor a perspectiva que as personagens desconhecem. Também acerca de Hitchcock, Slavoj Žižek formulou em tempos uma questão que nos apetece enunciar tendo como ponto de partida as personagens de Cabrita: «Não será que, por vezes, o Sublime faz parte da nossa experiência mais comum de todos os dias?» (in Lacrimae Rerum, Orfeu Negro, Março de 2008, p. 178). Esta dúvida e a de David sobre a fé merecem respostas, as quais talvez estejam implícitas nas relações humanas recriadas nestes livros separados por dez anos de vida, dez anos de acção, dez anos de frustrações, dez anos de vitórias, dez anos de derrotas, dez anos de sucessos.
O que une as múltiplas faces de uma obra é a vida e as experiências de quem a gera, sendo quase certo que apenas um tipo de fé pode mover quem passa a vida a apostar no mesmo número: encontrar o sublime na experiência mais comum de todos os dias. A linguagem metafórica dos contos, o lado, digamos, bem-disposto da língua, por vezes até humorístico, derisório a rasar o grotesco, mas ao mesmo tempo terno e atento, resgata as pessoas comuns, de todos os dias, de uma desesperança fatal. Elas deixam de ser comuns e de por isso passarem despercebidas, tornam-se o centro das nossas atenções, ascendem à condição de personagens centrais. O rosto da vulgaridade como que desaparece dessas faces outrora anónimas, ganha uma segunda existência, uma existência exemplar porque ficcionada. Esta é talvez a maior dívida que temos a pagar ao autor de tais livros, pois com as desilusões dos outros ele ancora-nos à vida. Faz-nos sentir menos sós. Tal como nos sentimos no cinema quando a sala está completamente vazia.

NOTÍCIA

Mais do que dúvidas sobre o que é notícia hoje em dia, penso que devemos interrogar-nos sobre o que não merece atenção noticiosa. O fait divers tornou-se epidémico, ocupa milhares de caracteres preciosos que roubam espaço a outras matérias. As redes sociais ajudam tornando viral a parvoíce. Quem decide sobre o que se publica talvez esteja apenas interessado no que julga ser as preferências dos seus leitores, os quais aparecem invariavelmente nivelados pela mediocridade tendo em conta o julgamento exercido. Só isto explica notícias como esta: Gastroenterite quase impediu ataque ao "Charlie Hebdo". Infelizmente, não vai impedindo que os nossos jornais se transformem paulatinamente numa latrina onde se expele tudo o que é porcaria.

A POSIÇÃO PORTUGUESA

Não sou de ligar ao que os outros pensam sobre mim, mas, paradoxalmente, nutro sempre alguma curiosidade sobre o que lá fora se diz acerca de Portugal. Aqui têm um exemplo assaz ilustrativo. Parece fado, pois em tempos remotos a posição canina e servil foi sendo sublinhada por ilustres visitantes. Vale a pena lembrar Byron? Fiz-lhe referência aqui.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A TESE DE MALAGUETA SOBRE O NÚMERO QUATRO



As mais frugais razões podem levar-me a comprar um livro. Neste caso, conjugaram-se o desconhecimento do autor, o culto da editora, as ilustrações de Henrique Manuel e a data de publicação (mês e ano em que nasci). José Martins Garcia (n. 1941 – m. 2002) nasceu na ilha do Pico fez ontem, 17 de Fevereiro, precisamente 74 anos. Biógrafo de Vitorino Nemésio (n. 1901 – m. 1978), foi professor universitário, cronista, contista e romancista. Lugar de Massacre (1975) está entre as primeiras e, diz quem leu, mais incisivas abordagens literárias à experiência da Guerra Colonial. Colaborador assíduo de Fernando Ribeiro de Mello, publicou nas Edições Afrodite, entre outros, o livro de contos Alecrim, Alecrim aos Molhos... (1974). Meia dúzia de contos de carácter heterodoxo onde sobressai um país conservador, arraigado ao catolicismo mais castrante, com suas personagens ao mesmo tempo caricatas e abjectas. Na narrativa que oferece o título à recolha nota-se a influência surrealista, através de uma sucessão de episódios delirantes onde os aspectos grotescos da sexualidade convivem com os ditames de uma moral beata. Possessões e exorcismos assomam as personagens, as quais implodem num desnorte de direcções debaixo de torrente satírica imparável. O Conto do Vigário é muito bom, sátira impagável sobre o antiespiritualismo de certos agentes do Senhor com fortuna feita na província. Mas o momento mais feliz é a Ascensão e Queda de Alfredo Malagueta, típico reaccionário em terra de paredes de vidro para quem os comunistas comem não apenas criancinhas mas tudo o que lhes vem ao dente. Num país ainda hoje de malaguetas, incrivelmente populares e credibilizadas pelo generoso tempo de antena, seria injusto deixar na penumbra tamanha personagem. De nota, estas contas sobre a poesia portuguesa:
   Também foi muito mal aceite pelos portalejos a tese de Malagueta sobre o número quatro. Foi o caso que, interpelado por um colega curioso sobre os maiores nomes da poesia nacional, Alfredo Malagueta confessou não ter dúvidas quanto ao preenchimento da trilogia cimeira. Camões, Quental, Pessoa. Mas depois?... O quarto lugar constituía um problema gravíssimo. Os historiadores da literatura não davam achegas para tão melindrosa avaliação. Nem os catedráticos sabiam quem era o quarto poeta, nem o Ministro da Educação Nacional ousava decidir em tão transcendente matéria. Quem seria?... Alfredo Malagueta já sofrera noites de insónia, em demanda do almejado nome. Sem êxito. Ora a voz da inspiração lhe segredava o nome de Bocage, ora o bom senso lhe lembrava que um libertino nunca poderia ocupar tais píncaros. Por vezes a voz misteriosa segredava-lhe o nome de Teixeira de Pascoaes, mas Pascoaes era pouco lido... Também ouvira algumas vezes o nome de José Régio... Mas Régio ainda vivia... De modo que esse preenchimento do quarto lugar era problema de quebrar a cabeça mais erudita. O próprio Fernando Pessoa lhe chegara a pôr algumas dúvidas em tempos, dada a utilização que fizera, impensadamente, do vocábulo merda. Todavia, dada a sua já relativamente distante morte, tudo levava a crer tratar-se de um pecadilho de juventude. O colega curioso, pouco adaptado à ciência portaleja, perguntou: «Mas por que quer escolher o senhor doutor quatro, e só quatro, poetas?» Alfredo Malagueta entusiasmou-se: «Colega, saiba que depois do quarto virá o quinto, tal como sucederá com os impérios...»
   Como tudo era rapidamente sabido na Porta - onde a moral vítrea açambarcava as atenções de modo a impedir conhecimentos esotéricos - a versão divulgada acerca dos poetas acentuou que Alfredo Malagueta descobrira que, a seguir ao número quatro, vem o número cinco, interpretação causadora de uns primeiros apupos na via pública.
   Um primeiro afastamento dos portalejos deixou-o muito solitário, rondando as águas indiferentes, meditando nas nuvens carregadas, aproximando-se perigosamente das serpentes e dos cães que guardavam os dois extremos da cidade. Estava a findar aquele primeiro e amargurado ano lectivo quando, interrogado por um aluno acerca do Canto IX de «Os Lusíadas», Malagueta perdeu o respeito pelo poeta número um da lista e pipilou que Camões tinha sido um tarado sexual. O reitor, homem franco ao modo antigo, resolveu intervir:
   - Homem! - disse - Camões, fosse lá o que fosse, sempre é o símbolo da pátria... Veja lá o que diz aos pequenos!
   Alfredo Malagueta recolheu-se a um orgulho taciturno, ferido, ensimesmado, incompreendido. Circulava de casa ao liceu, de casa ao templo.
José Martins Garcia, in Alecrim, Alecrim aos Molhos..., com ilustrações de Henrique Manuel, Edições Afrodite, Novembro de 1974, pp. 98-100.

HORA DE FECHO


Por fim, desce o pano
sobre o dia que findou.
É tempo de ficar a sós
com os meus fantasmas.
Após ter sido sumido
Ulisses na metrópole,
regresso ao meu casulo
de crisálida envergonhada,
repleto de sonhos vagabundos
que aqui vão hibernando.
Estou pronto para abraçar
a saudade nesta pausa
dorida fora de horas.
Com pálpebras coladas
à pele, contemplo o incêndio
prestes a principiar.
Hesito. Marco passo.
Hesito novamente.
(Por que é que tem de ser
assim sempre tão difícil?)
Escrevo sobre o que me faz sofrer
(o que sinto e o que não sinto).
Escrevo sobre os despojos
do crepúsculo que virá.
É este o meu ritual de amar
absurdos e tardios devaneios.
Agrada-me ficar assim:
de mão estendida, rendido
às migalhas do vazio que
nunca soube decifrar.
Alheio a tudo,
vou desembrulhando
a noite em câmara lenta.
Tomo o meu tempo.
Não tenho pressa.
Com dedos inseguros
percorro os passos
nómadas da sonâmbula
cidade, enquanto o prédio
em frente encena indistintas
silhuetas, na esperança talvez
de apanhar a boleia do último semáforo.
Como sempre, o silêncio impuro
marca o compasso deste meu
crime perfeito sem fronteiras.
Não tenho plano estabelecido.
Limito-me a lamber as feridas
do meu olhar cansado, dizendo
que sim: a morte é uma flor.
Recomeço. Hesito novamente.
Sem bússola, mapa borda fora,
arrisco nomear coisas rente à terra.
Sonho com mares desnudados
e vislumbres de melancolia
em carne viva - a cor do desespero.
Fico atento às vozes esquecidas.
Expectante, com o dedo no gatilho,
reacendo os estilhaços das veias rasgadas,
pronto a atear rastilhos de sílabas obscuras.
As minhas noites são assim.
Passo-as em claro, na companhia
da minha solidão, hesitando escombros
de beleza, vigiando estrelas perdidas.
Mas eis que chega a hora de me deixar vencer
pelo sono e de assim sucumbir perante
incandescentes lágrimas sem história.
Amanhã estarei de volta ao rascunho
dos ínfimos gestos desprovidos de magia.
Despir-me-ei do assombro de estar vivo.
Vestirei a máscara do costume - disfarce
exemplar que, em vão, procuro enganar
o rasto do lume - a bênção inútil do amor.
No final de contas, bem vistas as coisas,
pode quase tudo a poesia: pedir perdão,
iluminar a errância de não sabermos
para onde partimos e reconhecer que
em breve nos iremos transformar em
fantasmas que serão ou não lembrados.
Em troca, apenas nos pede que
escutemos o rumor do coração:
o envelope vazio de nunca chegar.
E é já muito dizer assim adeus.


Ricardo Gil Soeiro (n. 1981), in Bartlebys Reunidos (2013). Autor de várias obras consistentes nos domínios da poesia e do ensaio literário, tendo-lhe sido atribuído o Prémio PEN Clube 2009 de Ensaio-Primeira Obra por Iminência do Encontro: George Steiner e a Literatura Responsável, Ricardo Gil Soeiro é, entre os da sua geração, aquele sobre o qual se pode afirmar com maior propriedade praticar uma poética da intertextualidade, pejados que os seus poemas estão de referências literárias mais ou menos flagrantes. Num diálogo insistente e exaustivo com a herança literária, questiona a natureza da poesia e o sentido do poema através de uma experiência obsessiva na arrumação dos conjuntos que vem publicando desde 2010. Por vezes, os versos estremecem com o que parecem ser confissões súbitas de cariz existencial e referências intimistas. Mas a tendência mais visível é para a dúvida sobre a utilidade da poesia e a função do poema, manifestando esta dúvida uma incerteza firme quanto ao labor daquele que abraça a literatura quotidianamente.

TEXTURA DO GELO

Não percebo nada do que anda a discutir-se no mundo. Olho para a televisão enquanto aguardo à mesa d’O Borges, em Seia, o joelho de porco. Vejo os carros de combate a disparar algures na fronteira entre a Ucrânia e a Rússia, uma mulher idosa chora debaixo da neve e diz: «sobrevivi à guerra e agora isto outra vez». Isto são os disparos, o desfile das tropas, cortejo de Carnaval com fogo-de-artifício, implosões de medo no coração dos povos. Eis-nos: a morte enquanto a neve cai na Ucrânia e o Quinta dos Termos escorrega em Seia. Como podemos viver assim? Não seria melhor desligar o mundo como quem desliga um plasma?
 

Incursões na natureza selvagem falharão se em vez de luvas trouxeres o tablet, se em vez de cachecóis trouxeres o smartphone, se em vez de botas de neve trouxeres o desktop. Breves minutos que sejam destas rajadas de vento na pele seca têm, pelo menos, o poder de te afastar um pouco mais das discussões do mundo. Podes esquecer por instantes os problemas da Grécia, as loucuras do Estado Islâmico, os atentados em Paris, Copenhaga e nessas terras longínquas e inacessíveis da Nigéria. É já ali, dizem-me. Mas já ali fica a serra fustigada pelo vento, os pedregulhos de Ride Lonesome cobertos de gelo, o sorriso de famílias inteiras em dia de feriado não consentido.
 

Estive aqui quando era criança, ainda o mundo existia envolto em muros e com os portões todos cerrados. Imaginava-me Ben Brigade montado no seu cavalo, os corpos enregelados dos bandidos em Day of the Outlaw. Fazia os meus próprios filmes, nomeava as pedras para fixar os lugares, coleccionava os nomes das ervas selvagens que entretanto esqueci, sabia distinguir uma cabra de um carneiro pelo balido, dava menos erros ortográficos. Ficava a olhar para as torres de vigia como se carecessem de vigilância, fascinavam-me as alturas e os declives, sabia que a Grécia existia mas talvez não soubesse localizá-la no mapa. O canto dos pássaros extasiava-me como supomos terem as sereias extasiado os marinheiros, por isso lhes fiquei com medo, por isso troquei com eles o lugar na gaiola. É já ali a vida a perder-se.

 

Parece que foi ontem, mas não foi. E talvez restem menos dias pela frente do que os que ficaram para trás. Não pretendo congelar o corpo nem suas memórias, experiências todos temos as que a vida nos empresta e a vontade força. A minha intenção é outra, bem mais humilde. Apagar as luzes por momentos, desligar o interruptor sabendo que tal gesto não interrompe o curso das horas. À nossa volta o mundo prossegue seus debates e discussões, problemas que não entendermos por sempre nos parecer tão simples a solução para quem tenha dos factos a consciência da morte. Nesta brevidade enclausurados talvez saibamos aproveitar melhor cada segundo se resistirmos a desperdiçá-los com promoções tentadoras. Nestas paragens a neve não cai como na Ucrânia. Que por lá sirva de consolo à velha a maciez do floco. Por aqui, deitam-se bonecos de neve sobre a textura do gelo.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

MÁSCARAS DE CARNAVAL

 
Geronimo (Mescalero-Chiricahua: Goyaałé [kòjàːɬɛ́] "the one who yawns"; June 1829 – February 17, 1909)
 
 
 
Touro Sentado com "Buffalo Bill" (em dacota: Tatanka Iyotake; na ortografia padrão do dacota: Tȟatȟáŋka Íyotake; em inglês: Sitting Bull; também conhecido como Slon-he ou Slow, "Devagar"; meados de 1831 – 15 de Dezembro de 1890)
 
 

 
 
"Wild Bill" Hickok (May 27, 1837 – August 2, 1876)
 
 
 
Judge Isaac Charles Parker (October 15, 1838 – November 17, 1896)
 
 
General Custer (December 5, 1839 – June 25, 1876)
 
"Buffalo Bill" (February 26, 1846 – January 10, 1917)
 
 
Jesse James (Kearney, 5 de setembro de 1847 – Saint Joseph, Missouri, 3 de abril de 1882)
 
Wyatt Earp (19 de Março de 1848 - 13 de Janeiro de 1929)
 
"Pat" Garrett (June 5, 1850 – February 29, 1908)
 
 
 
"Doc" Holliday (August 14, 1851 – November 8, 1887)
 
Calamity Jane (May 1, 1852 – August 1, 1903)
 
 
Billy the Kid (born William Henry McCarty, Jr. c.1859-1861 – July 14, 1881)
 
"Bob" Ford (December 8, 1861 – June 8, 1892)
 
Kid Curry (born 1865, Dodson, Mo., U.S.—died July 7, 1903, near Parachute, Colo.?)
 
Butch Cassidy (April 13, 1866 – November 7, 1908)