sábado, 28 de fevereiro de 2015
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
OS DOIS SONETOS DE AMOR DA HORA TRISTE
I
Quando eu morrer - e hei-de morrer primeiro
do que tu - não deixes fechar-me os olhos
meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos
e ver-te-ás de corpo inteiro
como quando sorrias no meu colo.
E, ao veres que tenho toda a tua imagem
dentro de mim, se, então, tiveres coragem,
fecha-me os olhos com um beijo.
Eu, Marco Pólo,
farei a nebulosa travessia
e o rastro da minha barca
segui-lo-ás em pensamento. Abarca
nele o mar inteiro, o porto, a ria...
E, se me vires chegar ao cais dos céus,
ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.
II
Não um adeus distante
ou um adeus de quem não torna cá,
nem espera tornar. Um adeus de até já,
como a alguém que se espera a cada instante.
Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar
de novo para ti, no mesmo barco
sem remos e sem velas, pelo charco
azul do céu, cansado de lá estar.
E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação.
E não quero que chores para fora,
Amor, que tu bem sabes que quem chora
assim, mente. E, se quiseres partir e o coração
to peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino
talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino.
Álvaro Feijó (n. 1916 - m. 1941), in Corsário (1940). «O Novo Cancioneiro acolheu o espólio literário de dois poetas que a morte não deixou realizar quanto prometiam: Os Poemas (...), de Álvaro Feijó, cuja combatividade linear e límpida, desentranhando-se de uma anterior formação individualista tingida de erotismo juvenil, se vaza num imaginário de aventura marítima característico do neo-realismo inicial, e em símbolos de antigas vivências religiosas e infantis, às quais atribui um novo sentido revolucionário» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). « O seu primeiro livro e único publicado em via, Corsário, dava já, embora mesclado um pouco de sobrevivências literárias e de um sarcasmo algo superficial, o tom do seu lirismo tão peculiar, que nos poemas póstumos tem já uma voz inteiramente própria. A elegância de sentimentos e a segurança tradicional da expressão aliam-se a um sentido muito lúcido e ao mesmo tempo apaixonado dos contrastes do mundo real, para criar uma poesia áspera e fluente, que deu alguns dos melhores poemas da sua época, e em que o pormenor concreto se engasta admirávelmente numa visão directa que só transfigura metafóricamente o estritamente necessário à acção que o poema pressupõe» (Jorge de Sena, in Líricas Portuguesas).
TRÍPTICOS DA NUDEZ #3
Com o recuo do Blogger em matéria de nus (explicado
aqui), seria normal interromper esta série de trípticos. Afinal, outro motivo
não havia para despentear a linha editorial senão o uso do contraditório. Mas
agora tomei-lhe o gosto. Aguenta-te Maria.
O tríptico de hoje é, na realidade, um políptico.
Regresso aos temas bíblicos através d’O Retábulo do Cordeiro Místico – ou A
Adoração do Cordeiro -, magnum opus dos irmãos Van Eyck. Conta-se que «teve uma
história acidentada: quase destruído em 1566 pelos calvinistas, foi desmembrado
em 1816 (altura em que alguns painéis foram vendidos) e danificado por um
incêndio em 1822». Graças a Deus, nem tudo se transformou em cinza. Muito do prestígio
de Jan Van Eyck (1390-1441) deve-se a esta obra cujos painéis começaram a ser
pintados pelo irmão mais velho Hubrecht, embora deste não se fale tanto. Dois
nus sobressaem na fila superior. Do lado esquerdo, a figura de Adão. Do lado
direito, Eva. Pintados com mestria realista, são de um humanismo sem
precedentes na escola flamenga. Vistos de perto têm outra graça.
Repare-se como os olhos de Adão sobressaem num rosto onde
as rugas, as olheiras, a profusão capilar invocam uma humanidade desesperada. A
posição do pé direito, ligeiramente levantado, e do braço esquerdo, dobrado
sobre os abdominais na direcção do braço direito, sugerem um movimento na
direcção de Eva.
Na outra ponta da fila, Eva está parada e segura na mão o
fruto do pecado. É um fruto estranho de superfície engelhada, a qual contrasta
com as formas indúcteis dos seios, redondinhos e apetecíveis, e com o abdómen
exageradamente curvo. Estaria grávida de Adão? Impossível evitar a heresia: olhamos para estes dois e sentimos que somos nós o fruto do pecado. Se por nós morreu Cristo na cruz, também por nós estes dois se amaram, correram riscos, desrespeitaram, agiram. A penugem do ventre não
foi esquecida, ao contrário de outras representações onde pêlos, pilosidades e
cotões são banidos da história como se a gilete tivesse sido descoberta antes
do fogo. Onde se encontra o terceiro nu neste maravilhoso políptico é tarefa
que deixo ao leitor. Imagine que está a procurar o Wally num qualquer álbum de
Martin Handford. Mas não procure em demasia, caro leitor. Pode cansar a vista e
em vez de um Wally encontrar o José Cid com toda a lanugem no sítio e um disco de ouro no lugar das tradicionais folhas.
O, MY PRECIOUS!
Camarada Van Zeller, como tem passado? Nós por cá quase
ao ponto. Ontem fomos a um restaurante chinês provar chop sueycialismo, prato
recentemente inventado pelo camarada Tó Costa. Gostámos muito, tanto que não
conseguimos entender a razão do alarido à volta da receita: uma pitada de
bajulação aqui, outra de sabujismo acolá, e toma lá de bandeja a REN, a EDP,
edifícios no Parque das Nações, um palácio na Lapa, vistos gold e mais não sei
o quê. Que agora juntemos à receita o socialismo do Largo do Rato é apenas um sinal positivo das
boas realpolitik relações mantidas com o consumunismo confuciano. A esta hora,
o Zé Seguro deve estar super, híper, mega entretido com a retórica para chinês ouvir do Tó
Costa. Esperavam o quê? Que o homem perdoasse taxas ao Benfica? Que cobrasse aos condutores de carros antigos? Que dissesse que o país está pior? Não só seria
estrategicamente inábil como incorrecto. De facto, Portugal está muito melhor
do que estava há quatro anos. Prova disso é que tem muito menos portugueses.
Não podemos descurar o benefício para a nação que a emigração tem sido. Quanto menos
portugueses por cá, melhor. Nisso, a última governança é um sucesso. Nisso e
a matar velhinhos, a emagrecer crianças, a engordar meia dúzia de empresários,
a modernizar a justiça (até primeiros-ministros já vão presos!), a maltratar
professores e alunos e encarregados de educação e demais intervenientes no
processo educativo, a meter Marinho e Pinto no Parlamento Europeu, etc e tal. Digamos
que os últimos anos de governação estiveram para Portugal como os jihadistas
para as esculturas pré-islâmicas, destroem até poder. Já agora, camarada,
deixe-me sublinhar a coerência destes guerreiros de além (ia dizer Allah, mas
temo represálias pela vã evocação do nome do Senhor). Faz todo o sentido que
destruam tudo o que seja pré-islâmico, já que os seus comportamentos não
revelam senão uma mentalidade de calhaus. Mas talvez seja melhor mudar de
assunto, no Bangladesh matam-se bloggers à machadada. E homem prevenido vale
por três. Perguntem aos gregos, que antes de começarem a servir fetta aos
chineses se preveniram com um Varoufakis que não é idiota nem mentiroso. É
apenas um figurino simpático, pode dizer dívida soberana sem parecer o Gollum
da Alemanha a arremelgar os olhos.
TRÍPTICOS DA NUDEZ #2
Não há compêndio de arte japonesa que escape ao shunga. É
possível que a homófona chunga esteja etimologicamente relacionada com a palavra
nipónica, designação atribuída às esplendorosas gravuras eróticas dos séculos
XVIII e ulteriores. Há quem impute a origem do género às ilustrações dos
manuais de medicina chinesa de antanho, sendo certo que as representações
sexuais mais ou menos oníricas deste tipo, contemplando geishas, actores de
kabuki e cortesãs em delírio zoófilo como a da famosa gravura de Katsushika
Hokusai (1760-1849), transcendem largamente qualquer conceito medicinal. Espíritos
doentios poderiam vislumbrar nestas imagens tratamento para a doença do
preconceito, não pecassem as mesmas pelo registo underground de um humor refinadíssimo
e do devaneio sem limites. Note-se como os dois polvos acertam no resultado muito
antes de a FIFA ter organizado qualquer mundial. Hokusai, que ficou famoso
pelas ondas de Kanagawa, merecia outro reconhecimento por este sonho da mulher
do pescador. Afinal, no corpo da esposa devota temos não apenas um tsunami de
sensualidade como o princípio inspirador da bomba de sucção vaginal.
Sem comparáveis méritos eróticos mas equivalente
perspicácia na representação da nudez temos o contemporâneo Vito Acconci
(1940). Performer modelar, deixa-nos sempre, por assim dizer, com água na boca
por nunca o termos podido observar em tempo real, ao vivo e a cores. Todos os
trabalhos que lhe conhecemos chegaram-nos por vídeo ou através de fotografias.
Certo que algumas das suas performances têm por público apenas a câmara,
espécie de exibição desconstrutiva da noção de interactividade. Mas
exemplifiquemos. No filme Conversas Parte II (Insistência, Trabalho
Preparatório, Exposição), datado de 1971, filma-se de cima para baixo
escondendo o pénis entre as pernas. A androgenia da situação é evidente,
estamos na presença de um corpo masculino com uma vagina. Aparentemente. A
ilusão desfaz-se quando Acconci se filma de costas e podemos contemplar-lhe os
testículos entalados algures entre as coxas e o cu. Os administradores do Blogger
dirão que são hemorróidas, embora os críticos garantam tratar-se de um «dispositivo
utilizado para apresentar uma alteração experimental da identidade sexual do
intérprete que depende da exposição do oculto (castração simbólica)».
E já que estamos numa de imagens em movimento, fica a
referência ao filme mais despido de todos os filmes. A sério. É o chamado filme
do caralho que toda a gente devia ver. Dediquei-lhe um texto medíocre aqui.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
EADWEARD MUYBRIDGE
Explorou o Oeste selvagem no parque natural de Yosemite, uma incrível colecção de cataratas, rochedos, desfiladeiros, lagos, vales, precipícios e montanhas, o Éden inóspito da América visto com os olhos de um paisagista europeu, romântico e aventureiro. Viajou até aos novos territórios, como o recém-comprado Alasca, que deu a conhecer aos americanos relutantes. Revelou imagens de tribos índias. Acompanhou a odisseia do caminho-de-ferro, retratando túneis, pontes e outros prodígios da engenharia e do progresso material. Esteve no Panamá, onde encontrou igrejas destruídas por terramotos, a colonização e a selva misturadas. E documentou a plantação de café na Guatemala.
Pedro Mexia, in Cinemateca, Edições Tinta-da-China, Dezembro de 2013, p. 18.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
TRÍPTICOS DA NUDEZ #1
A propósito da nova política do Blogger sobre “conteúdos
sexualmente explícitos”, a Maria promete uma chuva de nus no seu jardim.
Solidarizo-me com o protesto iniciando uma série nova a que dei o título
Trípticos da Nudez. O primeiro tríptico é dedicado à Lia, porque faz hoje anos
e ficou a pensar no durante.
Teria a idade da minha filha Beatriz (vai para nove anos)
quando me chegou às mãos O Grande Livro da Arte – Tesouros Artísticos do
Mundo, com prefácio do então famoso director da Tate Gallery Sir Norman Reid. Um
dos primeiros tesouros abordados, ainda no capítulo da arte rupestre, é a Vénus
de Willendorf. Datará de 20000 a 18000 a.C., quando os
homens andavam nus sobre a terra e não sentiam vergonha por isso. Esta pequena
estátua é ainda hoje uma lição acerca da representação da nudez, atraindo todas
as atenções para o essencial no corpo feminino: mamas e ancas opulentas. O
pormenor dos braços e das mãos a repousarem sobre os peitos é simplesmente delicioso.
Também é costume sublinhar-se a ausência de elementos faciais, cobertos por uma
suposta farta cabeleira encaracolada. Mas não podemos estar certos de que se
tratasse do penteado da senhora. O escultor tinha à época uma mentalidade muito
mais sofisticada do que os administradores do Blogger demonstram possuir na
actualidade, pretendendo com aquele pormenor exaltar tão-somente o corpo e o
seu potencial fecundante. Como em tempos referi, tendo por pretexto Escritos Pornográficos de Boris Vian, a nossa civilização desenvolveu-se no sentido
exactamente contrário: tapa as partes, maquilha o rosto (quando não faz do rosto uma das partes).
Um dos nus que mais controvérsia gerou ao longo dos
tempos foi pintado por Tommaso Masaccio (1401-1428), a ponto de se especular
sobre a morte prematura do misterioso florentino (envenenamento?). Impedido de
terminar os frescos na Capela Brancacci, Masolino da Panicale (1383-1447)
entregou o trabalho ao jovem Masaccio. Numa época em que a realidade se
transmitia através de símbolos religiosos, Masaccio privilegiava o realismo
fazendo uso da perspectiva e oferecendo às suas figuras uma ilusão de peso que
as fazia descer do céu à terra. Eram figuras humanas, demasiado humanas. A
Expulsão de Adão e Eva do Éden começou por inquietar as mentalidades mais conservadoras
precisamente pela dimensão das figuras. Como podiam Adão e Eva ser maiores que
o anjo do Senhor? O caldo estava entornado. O semblante desesperado dos
intervenientes também não agradou, demasiado naturalismo humanista.
Dois séculos depois, ou seja, lá pelos idos de 1674, os púdicos
repararam na inaceitável nudez de Adão. Mesmo Eva, apesar da estratégica mão à
frente da fonte, não escapou à censura. Toca de botar ramos de folhas sobre os
órgãos sexuais. Só em 1980, após restauração do original, pudemos novamente
apreciar o mastro de Adão e o mui moderno ventre depilado de Eva. Se o Blogger
não censurar, podeis apreciar na figura o antes que foi depois e o depois que
tentou ser antes.
Para terminar, e num registo mais sexualmente explícito,
permito-me recordar os Desenhos Secretos do realizador russo Sergei Eisenstein: aqui. Palavras não há que lhes façam justiça. Estaline não gostava, os administradores do Blogger também não.
ESTATÍSTICAS
A palavra pornografia aparece 10 vezes neste weblog. O termo
sexo surge 62 vezes, com esta 63. Pénis e vagina são pouco usuais por aqui, 5 e
6 referências respectivamente. As versões vernáculas têm outra assiduidade:
caralho, 24 menções; cona, 16 alusões. Contra todas as minhas expectativas,
escrevi duas vezes picha neste weblog. É palavra que detesto. Tanto quanto o
verbo espichar. Já o verbo foder foi por aqui utilizado 23 vezes, na forma
substantiva 37 vezes e 18 vezes em modo adjectivo. Os conteúdos sexualmente
explícitos não são o forte deste weblog. Ou então as estatísticas enganam, e os conteúdos pornográficos estão onde menos os suspeitamos.
ESGOTAR OS ARGUMENTOS
Em tempos, Marcuse foi questionado sobre a sua declarada inclinação para a pornografia. Tentou explicar que entre apanhar uma doença má nas putas ou sentir-se vulgar a trair a mulher, preferia satisfazer-se com pornografia. Pressentindo polémica, o entrevistador insistiu: então por que não se satisfaz com a sua mulher? Marcuse olhou-o nos olhos, cofiou as barbichas, e respondeu:
Cheguei à conclusão que sexo com a minha mulher só é possível quando ela sente ao largo a ameaça de uma fêmea depredadora. Nesse sentido, o ciúme pode ser um aliado fiel. Noutras ocasiões, exige-me amor. E no que respeita ao amor já esgotei todos os meus argumentos.
Nota: post originalmente publicado a 24/05/2012, recuperado agora a propósito das novidades anunciadas na imagem ao alto.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
WINGS OF THE HAWK (1953)
Geralmente apresentado como autor de “westerns curtos,
nervosos, convincentes”, Budd Boetticher (n. 1916 – m. 2011) denota em alguns
dos seus filmes um lado indulgente que não pode passar despercebido. Além do
conhecidíssimo Ranown Cycle, ciclo com o qual catapultou o actor Randolph Scott
para o panteão das maiores estrelas de sempre do western, há na sua filmografia
um conjunto de obras onde o México surge como palco privilegiado para a
encenação de paixões improváveis. Esta opção pelo México projecta a sua própria
relação com esse país, uma relação obsessiva com múltiplos encontros e desencontros. Do
casamento com a actriz Elsa Cárdenas ao furor pelas touradas, passando pela obstinação
colocada na realização do documentário Arruza (1972), são muitos os exemplos de
uma convivência empolgada com o país de Emiliano Zapata. Sem quaisquer
preocupações documentais, Wings of the Hawk/As Asas do Gavião (1953)
transporta-nos, precisamente, para a época da Revolução Mexicana. Um mineiro de
origem irlandesa vê-se encurralado entre os interesses de um coronel corrupto e
o auxílio que lhe é prestado pelos insurgentes, na sua maioria camponeses mal
armados e indefesos. O oscarizado Van Heflin (melhor actor secundário em Johnny
Eager, de Mervyn LeRoy) é o enérgico e vigoroso irlandês que acabará por lutar
ao lado dos revoltosos contra a tirania do Coronel Ruiz. No início, movido por
interesses meramente materiais, pretendia apenas recuperar a mina que lhe fora usurpada
por Ruiz. Mas o enamoramento pela rebelde Raquel Noriega fá-lo perder as
estribeiras e manda a mina pelos ares numa cena onde estão em causa muito mais
do que as ambições meramente egoístas do prospector. Julie Adams, actriz
experiente nos ambientes de série B, é a Raquel Noriega que o
irlandês desarma no final com o seu gesto épico. Verdade seja dita que não
basta a indumentária para fazer de Julie Adams uma rebelde convincente. Desde o
início que os coldres cruzados sobre os ombros, os dois revólveres e o sombrero
pouco têm que ver com a postura melíflua e sensual da actriz, mas essa é a tal
dimensão indulgente que vislumbramos nos filmes de Boetticher e que tanto nos
agrada. Os movimentos rápidos da câmara nas perseguições, o travelling da
sequência inicial que acompanha o irlandês e o coronel Ruiz na direcção da
cabana onde tudo terá início e irá terminar, contrastam
com os planos fixos oferecidos ao rosto da figura feminina. É como se Boetticher nos
quisesse mostrar com os seus planos enlevados o ouro que o irlandês
Gallager está prestes a encontrar, um ouro em forma de mulher. Deste modo, o
espectador pode contemplar na figura de Julie Adams, desde a primeira aparição,
a beleza e o deslumbre que Irish Gallager e o seu sócio vêem nas pepitas
douradas descobertas assim que o filme começa. Há um vagar e um cuidado nestes planos que nos acalma no decorrer da frenética narrativa, são momentos de pausa entre contendas. As explosões finais, com a mina
a ir literalmente pelos ares, celebram um outro encontro, um
outro deslumbre, a outra descoberta do mineiro interpretado por Van Heflin.
Chegados a este ponto, já nada tem que ver com guerras e revoluções, coronéis
corruptos e camponeses indefesos, estamos no território clássico das paixões
improváveis. Mas possíveis, assim o queira a obstinação dos amantes.
domingo, 22 de fevereiro de 2015
EN EL ESTADO MÁS LIBRE DEL MUNDO
Pero siempre fue
así: a quien está destinado a precipitarse en el vacío, se le tapan los ojos
para que no sienta vértigo.
Ret Marut
Antes de
ter sido Bert Traven, enigmático autor dos populares romances The Treasure of
the Sierra Madre (1927) e The Death Ship: The Story of an American Sailor
(1926), Otto Feige (n. 1882 – m. 1969) foi Ret Marut. A confusão persiste
ainda hoje, valendo a tese que atribui ao polaco Otto Feige a verdadeira
identidade por detrás dos pseudónimos Marut e Traven. O que podemos dar como
certo é que o nome de Ret Marut aparece na conturbada vida pública da Alemanha
do início do séc. XX como autor da revista Der Ziegelbrenner, publicada entre
Setembro de 1917 e Dezembro de 1921 na cidade de Munique. Para quem não esteja
familiarizado com o tema, convém esclarecer que à época publicações como Der
Ziegelbrenner afastavam-se radicalmente do conceito que hoje temos de revista por
não terem senão um único autor no lugar de vários jornalistas ou grupos de
escritores. De resto, a imprensa convencional, a quem Marut chama “a puta
pública”, é um dos alvos principais dos seus artigos dardejantes: «Tenéis un
solo enemigo que es el más degenerado de todos. La tuberculosis y la sífilis
son epidemias terribles que sufre el hombre. Mucho más terribles, malignos y
perniciosos son los efectos de la epidemia más asoladora: la puta pública, la
prensa» (in ¡Hombres!, 20 de Março de 1920). A razão de assim ser é facilmente compreensível
se tivermos em conta dois factores que impediam a imprensa de se afirmar como
veículo de informação em prol da verdade: por um lado, a censura; por outro, a
subjugação do jornalismo aos poderes económico e político. Se o primeiro desses
factores foi, em parte, erradicado da realidade europeia, exercendo-se hoje
essa censura não de uma forma institucional mas a partir de condicionalismos
que dificultam o trabalho dos jornalistas, o mesmo não podemos afirmar da
subjugação, sobretudo, ao poder económico. Mais sentido faz a expressão
utilizada por Ret Marut quando constatamos ser o jornalismo que hoje se pratica
completamente dependente de agências de comunicação com interesses específicos,
meticulosas fugas de informação ou, para citar Pacheco Pereira, “empresas,associações de interesse, agências de comunicação e marketing, por sua vezempregues por quem tem muito dinheiro para as pagar”. Ora, é de todos sabido quem tem esse dinheiro. O que chega ao público disfarçado
de informação mais não é, pois, do que veneno com um único objectivo: manipular a
opinião pública. Quase 100 anos nos distanciam dos textos coligidos neste En el
estado más libre del mundo (Alikornio ediciones, Setembro de 2000), título
irónico para a edição castelhana dos textos com que Ret Marut agitou a Baviera
e arredores durante e algum tempo depois da I Grande Guerra. Descontando o tom
datado de algumas intervenções, a verdade é que artigos como El temor a la vida
(1 de Dezembro de 1917), La nueva libertad (3 de Dezembro de 1919) ou Siete
rostros del tiempo (21 de Dezembro de 1921) mantêm uma inquietante actualidade.
Tomemos de princípio o
posicionamento político do autor: «Yo no pertenezco ni al partido
socialdemócrata ni soy socialista independiente. Ni pertenezco al grupo “Spartakus”
ni soy bolchevique. No pertenezco a ningún partido, a organización política de
ninguna clase» (in Comienza la revolución mundial, p. 49). Esta reivindicação
de independência não o impede, porém, de manifestar as suas simpatias. Podemos
mesmo afirmar que lhe garante coerência às contradições do pensamento,
mostrando-se adepto da ditadura do proletariado e do sistema dos conselhos ao
mesmo tempo que reivindica o fim do Estado à maneira de um anarquismo
individualista que tem nos escritos de Max Stirner a sua mais eloquente expressão.
Andreas Löhrer resume assim o
pensamento de Marut na introdução: «Vacilaría entre el “socialismo ético”, el
libre pensamento de un artista, el afán de la subversión radical y la necesidad
de una fuerte organización proletaria» (p. 10). Elementos que confluem invariavelmente
para uma mesma ideia: a de que o capitalismo e sua intrínseca avareza são os
maiores inimigos do indivíduo, promovendo a preguiça intelectual ao mesmo tempo
que o hipnotizam com as ilusões de felicidade supostamente proporcionadas pelo
dinheiro. Transformados em escravos do dinheiro, os colonizados do capitalismo
temem perder o emprego, criam dentro de si fortes resistências à mudança, o
medo ergue dentro desses indivíduos muralhas de ignorância propagadas pela
imprensa manipuladora. Subjugados aos interesses "da comunidade" os indivíduos mais
facilmente aderem às guerras entre os estados do que promovem as suas próprias batalhas.
Esta realidade resulta em sociedades divididas, indivíduos esvaziados da sua individualidade,
estados onde «no se quiere personas capaces en los departamentos porque la
gente consciente de sus capacidades no sirven para subalternos» (in La censura.
El hecho, 15 de Janeiro de 1919, p. 46). Curiosíssimo paradoxo, o
individualismo de Ret Marut é filantrópico. Certo solipsismo que por vezes
emerge nas suas palavras é o garante de uma humanidade mais solidária, sem
estados egoístas e castradores dos seus povos. Mais ou menos utópico, Marut
foca-se na liberdade e na felicidade individuais contra a “paz e ordem “ podres
dos estados opressores: «”Paz y orden” significan: protectión del capitalista
para que pueda explotar en “paz y orden” a los que quieren comer» (in Comienza
la revolución mundial, 30 de Janeiro de 1919, p. 52). Contra os rebanhos eleitorais
incultos e desinformados, contra os oportunistas e os traficantes de escravos,
Marut propôs um socialismo que consistisse na «distribución justa de los bienes
existentes y producidos según el valor del trabajo realizado y según la
necesidad del beneficiario de los bienes. El Estado no tiene necessidades. El Estado es una institución inútil que
consume más valores de los que puede producir» (in La nueva libertad, 3 de
Dezembro de 1919, p. 76). É óbvio que “o estado mais libre do mundo” só
poderia ver-se libre da liberdade deste indivíduo, perseguido pelo Estado por
ser considerado seu inimigo. Ao contrário de outros, que pereceram ostracizados
pelas beneméritas democracias ocidentais, ou foram simplesmente executados,
assassinados, por defenderem tais heresias — ¡Sed indivíduos, sed hombres! —,
Ret Marut conseguiu escapar à acusação de delito e alta traição. Fugiu para o
México e, entre os índios oprimidos e explorados desse país, tornou-se Bert Traven.
Ainda o lemos.
sábado, 21 de fevereiro de 2015
IRRESPONSÁVEIS
Um dos epítetos que a direita mais reiteradamente atribui
aos partidos de extrema-esquerda é o de serem irresponsáveis. Os comunistas são
irresponsáveis porque querem sair do euro, os bloquistas são irresponsáveis
porque querem renegociar a dívida, o Livre & C.ª Lda. é irresponsável
porque escreve ao Syriza cartas de solidariedade. São todos irresponsáveis. Já dos
amestrados pela troika, dos fãs da austeridade, dos amigos do FMI e do BCE e da
Comissão Europeia onde o ex-maoísta Barroso andou a fazer pela vida, desses não
podemos dizer que sejam irresponsáveis. Nisto temos que concordar com a direita. Na realidade,
estes canídeos do europeísmo à Lagarde são responsáveis. Responsáveis por
termos chegado, como dizia o outro, a este estado de coisas. Foram eles que
estiveram nos governos, foram eles que tomaram decisões, foram eles que
esbanjaram dinheiros públicos e fizeram negócios ruinosos, foram eles e são
eles quem manda no país. São eles os responsáveis. Para o bem e para o mal, os
irresponsáveis da esquerda radical nada têm que ver com a miséria em que estamos.
Tudo se deve à responsabilidade dos sociais-democratas, dos socialistas e dos
democratas cristãos, ao populismo das suas políticas e às suas mentiras. Eles
são os responsáveis. Que se orgulhem de tal responsabilidade, enfim, só mostra
o quão inconscientes são.
WESTERN E OSCARS
Apesar de inúmeras nomeações, o western nunca foi dos géneros
mais premiados nas cerimónias dos Oscars. A título de exemplo, verifiquei
quais os filmes desta lista ainda em construção que arrecadaram estatuetas da Academia. Ei-los:
- Os Dominadores (1949): melhor fotografia para Winton C.
Hoch;
- O Comboio Apitou Três Vezes (1952): melhor actor para
Gary Cooper, melhor montagem para Elmo Williams e Harry W. Gerstad, melhor canção
original para Dimitri Tiomkin e Ned Washington, melhor música para Dimitri
Tiomkin;
- Shane (1953): melhor fotografia para Loyal Griggs;
- A Velha Raposa (1969): melhor actor para John Wayne
(curiosamente, o remake dos irmãos Coen mereceu dez nomeações mas não
arrecadou nenhuma estatueta);
- Imperdoável (1992): melhor filme, melhor actor
secundário para Gene Hackman, melhor realizador para Clint Eastwood, melhor
montagem para Joel Cox;
- Django Libertado (2012): melhor actor secundário para
Christoph Waltz e melhor argumento original para Quentin Tarantino.
John Ford foi premiado 4 vezes como melhor realizador,
mas nunca por um western. Henry Fonda viu a sua extraordinária carreira
premiada apenas em 1982 pelo desempenho no filme A Casa do Lago (1981).
Realizadores emblemáticos como John Sturges, nomeado por A Conspiração do
Silêncio, ou Budd Boetticher, nomeado por Homens na Arena (1951), não mereceram
a consagração da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Tal como sucede
com o Nobel da Literatura, também neste domínio o melhor fica quase sempre de
fora.
CUCOS
Não acredito em nada do que leio nos jornais, valendo a
premissa para tudo o que leio nos jornais. Portanto, não acredito que Portugal
e Espanha tenham tentado bloquear o acordo da Grécia com o Eurogrupo. O que
tinham a ganhar com tal postura? A metáfora do cão apoiado nas patas de trás não
chega, seria necessário pensar num outro tipo de animal. Talvez o cuco, a ave
parasita que, em vez de construir o próprio ninho, deixa os ovos nos ninhos das
outras aves. Mas no caso português isto de ser cuco tem os seus contratempos. Portugal
sempre foi um cuco estúpido, desde os tempos das especiarias da Índia ao ouro do Brasil. Desta feita, deixou os ovos no ninho da águia alemã. Está visto que a águia não podia senão devorar-lhe os ovos, impedindo o desenvolvimento da espécie parasitária. Talvez
poupe o cuco e até lhe ofereça um ramo onde repousar de baixos voos. Com ministros
das Finanças transformados em animais políticos, o zoológico faz as vezes da
floresta. Os animaizinhos estão presos em gaiolas financeiras, cumprem as suas
vidas obedecendo às regras dos tratadores. Isso a que chamam troika, e que a
Wikipédia lembra ser um carro conduzido por três cavalos, mais não é do que o
banquete dos omnívoros. Alguns cucos podem aspirar à mesa do rei. Entre nós, Durão
Barroso e Vítor Gaspar são apenas dois exemplos de parasitas bem sucedidos. Já na base desta
cadeia alimentar estarão sempre insectos ignorantes como eu, que olho para o
recibo de vencimentos e para as facturas da electricidade, do gás, da água e não
percebo nada do que estou a descontar e a pagar. Mas desconfio, embora os
jornais o não expliquem, que não seja subsídios para os putativos paralíticos
da Grécia.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
BALADA ÍNTIMA
Dês as voltas que lhe deres:
Dentro do teu coração,
As coisas são o que são,
Não aquilo que tu queres...
A fantasia modela,
Modela as formas e os seres,
Como um Deus, à feição dela!...
Tudo quanto em nós anime
A fria realidade,
Só em verdade se exprime
À luz da nossa saudade!...
Coisa, ou ser, ou criatura,
Que a vida a meus olhos traga,
Se há-de erguer àquela altura
Em que o meu sonho divaga!...
Fausto José (n. 1903 - m. 1975), in Solstício (1940). «(...) como acontecera frequentemente desde o séc. XVI, um grupo de jovens intelectuais a sair da universidade é que vai ser o veículo de consagração do modernismo. / A revista coimbrã presença (54 números, 1927-40), fundada por José Régio, Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca, Edmundo de Bettencourt, Fausto José e António de Navarro e de cuja direcção depois participam Casais Monteiro e Miguel Torga, é o centro desse grupo» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). «Quando estudante, acompanhou o grupo da Presença, se bem que a sua poesia não tenha grande afinidade com as tendências manifestadas pela maioria dos colaboradores dessa revista. Os seus temas preferidos são de circunstância, mas depurados pela altura do voo lírico: assuntos de história caros à sua sensibilidade poética, certo regionalismo e, por último, o culto do lar e da família» (Cabral do Nascimento, in Líricas Portuguesas).
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
NOTÍCIA
Mais do que dúvidas sobre o que é notícia hoje em dia, penso que devemos interrogar-nos sobre o que não merece atenção noticiosa. O fait divers tornou-se epidémico, ocupa milhares de caracteres preciosos que roubam espaço a outras matérias. As redes sociais ajudam tornando viral a parvoíce. Quem decide sobre o que se publica talvez esteja apenas interessado no que julga ser as preferências dos seus leitores, os quais aparecem invariavelmente nivelados pela mediocridade tendo em conta o julgamento exercido. Só isto explica notícias como esta: Gastroenterite quase impediu ataque ao "Charlie Hebdo". Infelizmente, não vai impedindo que os nossos jornais se transformem paulatinamente numa latrina onde se expele tudo o que é porcaria.
A POSIÇÃO PORTUGUESA
Não sou de ligar ao que os outros pensam sobre mim, mas, paradoxalmente, nutro sempre alguma curiosidade sobre o que lá fora se diz acerca de Portugal. Aqui têm um exemplo assaz ilustrativo. Parece fado, pois em tempos remotos a posição canina e servil foi sendo sublinhada por ilustres visitantes. Vale a pena lembrar Byron? Fiz-lhe referência aqui.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
A TESE DE MALAGUETA SOBRE O NÚMERO QUATRO
As mais frugais razões podem levar-me a comprar um livro.
Neste caso, conjugaram-se o desconhecimento do autor, o culto da editora, as
ilustrações de Henrique Manuel e a data de publicação (mês e ano em que nasci).
José Martins Garcia (n. 1941 – m. 2002) nasceu na ilha do Pico fez ontem, 17 de
Fevereiro, precisamente 74 anos. Biógrafo de Vitorino Nemésio (n. 1901 – m.
1978), foi professor universitário, cronista, contista e romancista. Lugar de
Massacre (1975) está entre as primeiras e, diz quem leu, mais incisivas abordagens literárias à experiência da
Guerra Colonial. Colaborador assíduo de Fernando Ribeiro de Mello, publicou nas
Edições Afrodite, entre outros, o livro de contos Alecrim, Alecrim aos Molhos...
(1974). Meia dúzia de contos de carácter heterodoxo onde sobressai um país
conservador, arraigado ao catolicismo mais castrante, com suas
personagens ao mesmo tempo caricatas e abjectas. Na narrativa que oferece o
título à recolha nota-se a influência surrealista, através de uma sucessão de
episódios delirantes onde os aspectos grotescos da sexualidade convivem
com os ditames de uma moral beata. Possessões e exorcismos assomam as personagens,
as quais implodem num desnorte de direcções debaixo de torrente satírica imparável.
O Conto do Vigário é muito bom, sátira impagável sobre o antiespiritualismo de
certos agentes do Senhor com fortuna feita na província. Mas o momento mais
feliz é a Ascensão e Queda de Alfredo Malagueta, típico reaccionário em terra
de paredes de vidro para quem os comunistas comem não apenas criancinhas mas
tudo o que lhes vem ao dente. Num país ainda hoje de malaguetas, incrivelmente populares e credibilizadas pelo generoso tempo de antena, seria injusto deixar na penumbra tamanha personagem. De nota, estas contas sobre a poesia portuguesa:
Também foi muito mal aceite pelos portalejos a tese de Malagueta sobre o número quatro. Foi o caso que, interpelado por um colega curioso sobre os maiores nomes da poesia nacional, Alfredo Malagueta confessou não ter dúvidas quanto ao preenchimento da trilogia cimeira. Camões, Quental, Pessoa. Mas depois?... O quarto lugar constituía um problema gravíssimo. Os historiadores da literatura não davam achegas para tão melindrosa avaliação. Nem os catedráticos sabiam quem era o quarto poeta, nem o Ministro da Educação Nacional ousava decidir em tão transcendente matéria. Quem seria?... Alfredo Malagueta já sofrera noites de insónia, em demanda do almejado nome. Sem êxito. Ora a voz da inspiração lhe segredava o nome de Bocage, ora o bom senso lhe lembrava que um libertino nunca poderia ocupar tais píncaros. Por vezes a voz misteriosa segredava-lhe o nome de Teixeira de Pascoaes, mas Pascoaes era pouco lido... Também ouvira algumas vezes o nome de José Régio... Mas Régio ainda vivia... De modo que esse preenchimento do quarto lugar era problema de quebrar a cabeça mais erudita. O próprio Fernando Pessoa lhe chegara a pôr algumas dúvidas em tempos, dada a utilização que fizera, impensadamente, do vocábulo merda. Todavia, dada a sua já relativamente distante morte, tudo levava a crer tratar-se de um pecadilho de juventude. O colega curioso, pouco adaptado à ciência portaleja, perguntou: «Mas por que quer escolher o senhor doutor quatro, e só quatro, poetas?» Alfredo Malagueta entusiasmou-se: «Colega, saiba que depois do quarto virá o quinto, tal como sucederá com os impérios...»
Como tudo era rapidamente sabido na Porta - onde a moral vítrea açambarcava as atenções de modo a impedir conhecimentos esotéricos - a versão divulgada acerca dos poetas acentuou que Alfredo Malagueta descobrira que, a seguir ao número quatro, vem o número cinco, interpretação causadora de uns primeiros apupos na via pública.
Um primeiro afastamento dos portalejos deixou-o muito solitário, rondando as águas indiferentes, meditando nas nuvens carregadas, aproximando-se perigosamente das serpentes e dos cães que guardavam os dois extremos da cidade. Estava a findar aquele primeiro e amargurado ano lectivo quando, interrogado por um aluno acerca do Canto IX de «Os Lusíadas», Malagueta perdeu o respeito pelo poeta número um da lista e pipilou que Camões tinha sido um tarado sexual. O reitor, homem franco ao modo antigo, resolveu intervir:
- Homem! - disse - Camões, fosse lá o que fosse, sempre é o símbolo da pátria... Veja lá o que diz aos pequenos!
Alfredo Malagueta recolheu-se a um orgulho taciturno, ferido, ensimesmado, incompreendido. Circulava de casa ao liceu, de casa ao templo.
José Martins Garcia, in Alecrim, Alecrim aos Molhos..., com ilustrações de Henrique Manuel, Edições Afrodite, Novembro de 1974, pp. 98-100.
HORA DE FECHO
Por fim, desce o pano
sobre o dia que findou.
É tempo de ficar a sós
com os meus fantasmas.
Após ter sido sumido
Ulisses na metrópole,
regresso ao meu casulo
de crisálida envergonhada,
repleto de sonhos vagabundos
que aqui vão hibernando.
Estou pronto para abraçar
a saudade nesta pausa
dorida fora de horas.
Com pálpebras coladas
à pele, contemplo o incêndio
prestes a principiar.
Hesito. Marco passo.
Hesito novamente.
(Por que é que tem de ser
assim sempre tão difícil?)
Escrevo sobre o que me faz sofrer
(o que sinto e o que não sinto).
Escrevo sobre os despojos
do crepúsculo que virá.
É este o meu ritual de amar
absurdos e tardios devaneios.
Agrada-me ficar assim:
de mão estendida, rendido
às migalhas do vazio que
nunca soube decifrar.
Alheio a tudo,
vou desembrulhando
a noite em câmara lenta.
Tomo o meu tempo.
Não tenho pressa.
Com dedos inseguros
percorro os passos
nómadas da sonâmbula
cidade, enquanto o prédio
em frente encena indistintas
silhuetas, na esperança talvez
de apanhar a boleia do último semáforo.
Como sempre, o silêncio impuro
marca o compasso deste meu
crime perfeito sem fronteiras.
Não tenho plano estabelecido.
Limito-me a lamber as feridas
do meu olhar cansado, dizendo
que sim: a morte é uma flor.
Recomeço. Hesito novamente.
Sem bússola, mapa borda fora,
arrisco nomear coisas rente à terra.
Sonho com mares desnudados
e vislumbres de melancolia
em carne viva - a cor do desespero.
Fico atento às vozes esquecidas.
Expectante, com o dedo no gatilho,
reacendo os estilhaços das veias rasgadas,
pronto a atear rastilhos de sílabas obscuras.
As minhas noites são assim.
Passo-as em claro, na companhia
da minha solidão, hesitando escombros
de beleza, vigiando estrelas perdidas.
Mas eis que chega a hora de me deixar vencer
pelo sono e de assim sucumbir perante
incandescentes lágrimas sem história.
Amanhã estarei de volta ao rascunho
dos ínfimos gestos desprovidos de magia.
Despir-me-ei do assombro de estar vivo.
Vestirei a máscara do costume - disfarce
exemplar que, em vão, procuro enganar
o rasto do lume - a bênção inútil do amor.
No final de contas, bem vistas as coisas,
pode quase tudo a poesia: pedir perdão,
iluminar a errância de não sabermos
para onde partimos e reconhecer que
em breve nos iremos transformar em
fantasmas que serão ou não lembrados.
Em troca, apenas nos pede que
escutemos o rumor do coração:
o envelope vazio de nunca chegar.
E é já muito dizer assim adeus.
Ricardo Gil Soeiro (n. 1981), in Bartlebys Reunidos (2013). Autor
de várias obras consistentes nos domínios da poesia e do ensaio literário,
tendo-lhe sido atribuído o Prémio PEN Clube 2009 de Ensaio-Primeira Obra por
Iminência do Encontro: George Steiner e a Literatura Responsável, Ricardo Gil
Soeiro é, entre os da sua geração, aquele sobre o qual se pode afirmar com maior
propriedade praticar uma poética da intertextualidade, pejados que os seus
poemas estão de referências literárias mais ou menos flagrantes. Num diálogo
insistente e exaustivo com a herança literária, questiona a natureza da poesia
e o sentido do poema através de uma experiência obsessiva na arrumação dos
conjuntos que vem publicando desde 2010. Por vezes, os versos estremecem com o
que parecem ser confissões súbitas de cariz existencial e referências
intimistas. Mas a tendência mais visível é para a dúvida sobre a utilidade da
poesia e a função do poema, manifestando esta dúvida uma incerteza firme quanto
ao labor daquele que abraça a literatura quotidianamente.
TEXTURA DO GELO
Não percebo nada do que anda a discutir-se no mundo. Olho
para a televisão enquanto aguardo à mesa d’O Borges, em Seia, o joelho de
porco. Vejo os carros de combate a disparar algures na fronteira entre a Ucrânia
e a Rússia, uma mulher idosa chora debaixo da neve e diz: «sobrevivi à guerra e
agora isto outra vez». Isto são os disparos, o desfile das tropas, cortejo de Carnaval
com fogo-de-artifício, implosões de medo no coração dos povos. Eis-nos: a morte
enquanto a neve cai na Ucrânia e o Quinta dos Termos escorrega em Seia. Como
podemos viver assim? Não seria melhor desligar o mundo como quem desliga um
plasma?
Incursões na natureza selvagem falharão se em vez de
luvas trouxeres o tablet, se em vez de cachecóis trouxeres o smartphone, se em
vez de botas de neve trouxeres o desktop. Breves minutos que sejam destas rajadas
de vento na pele seca têm, pelo menos, o poder de te afastar um pouco mais das
discussões do mundo. Podes esquecer por instantes os problemas da Grécia, as
loucuras do Estado Islâmico, os atentados em Paris, Copenhaga e nessas terras longínquas
e inacessíveis da Nigéria. É já ali, dizem-me. Mas já ali fica a serra
fustigada pelo vento, os pedregulhos de Ride Lonesome cobertos de gelo, o
sorriso de famílias inteiras em dia de feriado não consentido.
Estive aqui quando era criança, ainda o mundo existia envolto
em muros e com os portões todos cerrados. Imaginava-me Ben Brigade montado no
seu cavalo, os corpos enregelados dos bandidos em Day of the Outlaw. Fazia os
meus próprios filmes, nomeava as pedras para fixar os lugares, coleccionava os
nomes das ervas selvagens que entretanto esqueci, sabia distinguir uma cabra de
um carneiro pelo balido, dava menos erros ortográficos. Ficava a olhar para as
torres de vigia como se carecessem de vigilância, fascinavam-me as alturas e os
declives, sabia que a Grécia existia mas talvez não soubesse localizá-la no
mapa. O canto dos pássaros extasiava-me como supomos terem as sereias extasiado
os marinheiros, por isso lhes fiquei com medo, por isso troquei com eles o
lugar na gaiola. É já ali a vida a perder-se.
Parece que foi ontem, mas não foi. E talvez restem menos
dias pela frente do que os que ficaram para trás. Não pretendo congelar o corpo
nem suas memórias, experiências todos temos as que a vida nos empresta e a
vontade força. A minha intenção é outra, bem mais humilde. Apagar as luzes por
momentos, desligar o interruptor sabendo que tal gesto não interrompe o curso
das horas. À nossa volta o mundo prossegue seus debates e discussões, problemas
que não entendermos por sempre nos parecer tão simples a solução para quem
tenha dos factos a consciência da morte. Nesta brevidade enclausurados talvez
saibamos aproveitar melhor cada segundo se resistirmos a desperdiçá-los com promoções
tentadoras. Nestas paragens a neve não cai como na Ucrânia. Que por lá sirva de
consolo à velha a maciez do floco. Por aqui, deitam-se bonecos de neve sobre a
textura do gelo.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
MÁSCARAS DE CARNAVAL
Geronimo
(Mescalero-Chiricahua: Goyaałé [kòjàːɬɛ́] "the one who yawns"; June 1829
– February 17, 1909)
Touro Sentado com "Buffalo Bill" (em dacota: Tatanka Iyotake; na ortografia
padrão do dacota: Tȟatȟáŋka Íyotake; em inglês: Sitting Bull; também conhecido
como Slon-he ou Slow, "Devagar"; meados de 1831 – 15 de Dezembro de 1890)
"Wild
Bill" Hickok (May 27, 1837 – August 2, 1876)
Judge Isaac
Charles Parker (October 15, 1838 – November 17, 1896)
General
Custer (December 5, 1839 – June 25, 1876)
"Buffalo
Bill" (February 26, 1846 – January 10, 1917)
Jesse James (Kearney, 5 de setembro de 1847 – Saint
Joseph, Missouri, 3 de abril de 1882)
Wyatt Earp (19 de Março de 1848 - 13 de Janeiro de 1929)
"Pat"
Garrett (June 5, 1850 – February 29, 1908)
"Doc"
Holliday (August 14, 1851 – November 8, 1887)
Calamity
Jane (May 1, 1852 – August 1, 1903)
Billy
the Kid (born William Henry McCarty, Jr. c.1859-1861 – July 14, 1881)
"Bob"
Ford (December 8, 1861 – June 8, 1892)
Kid
Curry (born 1865, Dodson, Mo., U.S.—died July 7, 1903, near Parachute, Colo.?)
Butch Cassidy (April 13, 1866 – November 7, 1908)
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