quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

UMA SALA VAZIA PARA ANTÓNIO CABRITA

Olha, a única metáfora que tenho por resolver é esta (aponta para o corpo) e é assim porque está oculta pela roupa…
Mafalda, in Duas Luas, Entrededos
Num artigo intitulado Poesia, Último Reduto da Literatura? (Diário de Lisboa, 14-04-1972), Ruy Belo como que veio defender-se do desabafo escapado no prefácio a Sob Sobre Voz, de João Miguel Fernandes Jorge, publicado em 1971. No prefácio, referiu-se o poeta a um «tempo em que a poesia morreu». Emendou a mão posteriormente, apelidando a poesia de «indisciplinadora mais audaz». «A poesia está doente, a poesia morreu? A poesia continua». — assegura-nos o autor de A Margem da Alegria. Mas mais interessante nesse artigo é a relação estabelecida entre a poesia e outras artes, nomeadamente o cinema. Para Ruy Belo, a sétima arte «influenciou o romance e mesmo a poesia». Neste caso, obrigou-a «a viver daquilo que nunca deixara de ser: o exercício da sabedoria da linguagem, uma aventura da palavra». A subsistência da poesia está ligada à sua práxis original, continuando a emergir nas outras formas de arte enquanto núcleo a partir do qual a liberdade criativa se manifesta. É curiosa esta relação com o cinema, desde logo por não abundarem poetas que lograram afirmar-se nesse domínio da criação artística. Entre nós há, porém, um caso onde o cinema, a poesia, enfim a literatura, se tocam com inesperada subtileza.
Habituei-me a ler António Cabrita (n. 1959) primeiro como crítico de cinema, depois como poeta, posteriormente como prosador notável e ensaísta. Referências cinematográficas são uma constante na sua obra, aproximando-se inclusivamente alguma da sua poesia de processos eminentemente visuais com estreita ligação a uma discursividade cinematográfica com mensagens cifradas e motivos ligados à efabulação. Detenhamo-nos, contudo, noutras paragens. É impossível determinar se os projectos de filme recusados ao Raul do conto Cegueira de Rios, coligido no volume com o mesmo título (Relógio D’Água, 1994), têm alguma coisa que ver com a peça Duas Luas, Entrededos (Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Março de 1984), apresentada pelo próprio Cabrita como «esboço para um guião». Dez anos separam as duas obras, pese embora o facto de não terem sido suficientes para que a primeira ecoe na segunda e, ó heresia fenomenal do tempo, a segunda se reflicta à luz dos dias de hoje na primeira. Há uma proximidade entre os contos de Cegueira de Rios e a peça Duas Luas, Entrededos que não pode ser negligenciada.
Num autor multímodo como é o de Arte Negra (2000) esta proximidade temática e tonal relega para segundo plano a forma literária escolhida como suporte para a evocação de imagens, situações, circunstâncias, sublinhando a traço grosso aquilo a que Ruy Belo chamava «aventura da palavra». De resto, não deverá ter sido por lapso que no conto Aprendiz de Ícaro foram reproduzidas algumas das passagens mais fortes do guião. No diário da personagem central da guião, um David cínico que lembra amiúde o Jimmy Porter de Look Back in Anger (peça emblemática de John Osborne, publicada em 1956), escreve-se o seguinte: «o meu pai era enfermeiro e viu dissecar muitos órgãos. uma vez teve nas mãos um coração que ainda pulsava; tinha pertencido a um corredor de maratona… mas nunca me contou que tivesse encontrado uma alma» (p. 63). No conto, dez anos depois, a busca da alma reaparece nestes termos:  «Um médico amigo que viu dissecar muitos órgãos garantiu-me que nunca tinha encontrado uma alma» (p. 92). Outro exemplo: David conta a Mafalda que viu em Cacilhas «um vendedor de cautelas, miserável e marreco, a dizer a um cliente engravatado até ao pensamento: «eu há vinte anos que jogo no mesmo número»» (p. 71). O mesmo vendedor de cautelas volta a surgir no último conto reunido em Cegueira de Rios: «Uma vez em Cacilhas surpreendi um cauteleiro em estado de graça. Nascido de uma fecundação apressada num óvulo já sem janelas para a esperança, era marreco, coxo, tinha um imenso nariz de papagaio onde se encastravam umas lentes com meio palmo de miopia e sujidade, mas eu ouvia-lhe para um freguês perfumado e luzidio como os colarinhos de seda que exibia: “eu há vinte anos que jogo no mesmo número!”» (p. 92). Podia ser há trinta, que o mais importante é a dúvida formulada por David depois de falar do cauteleiro a Mafalda: «que estranha fé move aquele homem?»
Refira-se que Mafalda estivera afastada de David durante um ano, regressando agora para o seu coração caducado. A David resta um ano de vida e quer passá-lo com a amada, mas não quer que ela perceba a sua condição sob pena de ficar com ele por piedade. Truque hitchcockiano, este de oferecer ao leitor a perspectiva que as personagens desconhecem. Também acerca de Hitchcock, Slavoj Žižek formulou em tempos uma questão que nos apetece enunciar tendo como ponto de partida as personagens de Cabrita: «Não será que, por vezes, o Sublime faz parte da nossa experiência mais comum de todos os dias?» (in Lacrimae Rerum, Orfeu Negro, Março de 2008, p. 178). Esta dúvida e a de David sobre a fé merecem respostas, as quais talvez estejam implícitas nas relações humanas recriadas nestes livros separados por dez anos de vida, dez anos de acção, dez anos de frustrações, dez anos de vitórias, dez anos de derrotas, dez anos de sucessos.
O que une as múltiplas faces de uma obra é a vida e as experiências de quem a gera, sendo quase certo que apenas um tipo de fé pode mover quem passa a vida a apostar no mesmo número: encontrar o sublime na experiência mais comum de todos os dias. A linguagem metafórica dos contos, o lado, digamos, bem-disposto da língua, por vezes até humorístico, derisório a rasar o grotesco, mas ao mesmo tempo terno e atento, resgata as pessoas comuns, de todos os dias, de uma desesperança fatal. Elas deixam de ser comuns e de por isso passarem despercebidas, tornam-se o centro das nossas atenções, ascendem à condição de personagens centrais. O rosto da vulgaridade como que desaparece dessas faces outrora anónimas, ganha uma segunda existência, uma existência exemplar porque ficcionada. Esta é talvez a maior dívida que temos a pagar ao autor de tais livros, pois com as desilusões dos outros ele ancora-nos à vida. Faz-nos sentir menos sós. Tal como nos sentimos no cinema quando a sala está completamente vazia.

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