domingo, 29 de março de 2015

DIZER BEM

Quando é para dizer mal, a gente não hesita. Pelo menos quando é para apontar o dedo a certas irritações. Já quando é para dizer bem, ficamos acanhados. Tenho vindo a tentar corrigir esta mania. Tendência da idade. Indiferente ao que pensem ou deixem de pensar sobre mim, digo o mal que tenho a dizer e procuro dizer o bem que me querem certas raras coisas. Dizer bem, por exemplo, da última edição do jornal Expresso com uma fotografia arrepiante na primeira página. Passei o fim-de-semana a trabalhar numa livraria, envolto em ruído e rodeado de lixo. Não vendi um único livro de Herberto Helder. Vendi um de Judith Teixeira e agradeci ao cliente por me ter salvo o dia. Ele sorriu, provavelmente sabe que é fácil uma pessoa deprimir-se numa livraria. É fácil uma pessoa enlouquecer, sobretudo se não tiver o bem que lhe salva os dias. Eu ontem tive. Findo o turno, rumei a Lisboa para churrasco em casa de amigos. Foi bom o churrasco. Pelo caminho, li em voz alta os artigos evocativos do poeta e do homem poeta na revista do Expresso. A minha mulher chorou ao volante. Eu, que não sou de lágrima fácil, voltei a senti-las tomarem-me conta dos olhos desde que há tempos perdi a presença física de um amigo. Agora o poeta e aquelas fotografias de Alfredo Cunha. Deus meu, perdoa-me por te negar. Estás naquelas fotografias. Belas como só as coisas salvíficas podem ser. E ler tudo aquilo em voz alta é dor santa, é dor que conforta. Saber haver alguém no mundo que. O desassombro de Ana Cristina Leonardo, tão raro nas páginas dos jornais portugueses, salva. O testemunho do Pedro Mexia, na última página, salva. Fiquem sabendo que salva, salva o dia a um pobre desgraçado que o passou rodeado de lixo e envolto em ruído. Salva.  A eles agradeço do fundo da minha mais humilde insignificância. Também comecei a ler Herberto Helder quando cheguei à universidade, idos de 1992. Levava comigo O Medo, talvez o mais influente dos livros de poetas portugueses que tinha lido à época. O meu poeta contemporâneo era Al Berto. E não foi ter encontrado Herberto que me afastou das origens. O que me afastou das origens foi ter regressado às origens, foi ter passado a ler Ruy Belo sem o preconceito de sermos conterrâneos. E assim ficou Ruy Belo no trono dos preferidos. Ao pai, ao filho, ao espírito santo, a gente junta muita sagrada família. Eu não tenho um poeta, um país não tem um poeta, um homem também não, eu tenho poemas que amo como alguém pode amar às coisas mais amáveis. E podem ter sido assinados por muito nomes, de Cinatti a Cesariny, de Jorge de Sena a Alexandre O’Neill, Ramos Rosa, etc & tal. Mas houve esse dia de 1994 em que Do Mundo saiu uma coisa estranha, um “canto munificente”. Lembro-me de estar com a Ana no Chapitô a ouvir o Joaquim Rocha dizer de cor a segunda parte do Poemacto, a gente tremia de ouvi-lo. Eram noites que nos salvavam dos dias. Agora isto, um homem cai em si de pequeno aos pés da grandeza. As fotografias de Alfredo Cunha são um outro “canto munificente” que está para lá do inteligível. Não interessa compreendê-lo, tanto quanto interessa desfrutar da comoção que provoca. Ao escutar o canto, o homem breve, rodeado de lixo e envolto em ruído, aparta-se por instantes das coisas pequenas, é como quando ora sem ter fé nos poderes da oração. Entoa a palavra, o mantra, e sente na vibração o poder da voz, a força do ritmo, uma luz que se imagina e reequilibra a consciência, postura. A poesia não interessa, nem interessa que Eliot o tenha escrito num poema. Não interessa mesmo. O que interessa é salvarmo-nos dos dias com estas coisas, mesmo que seja com poetas e poemas que não interessam, cantos munificentes fotografados com anonimato, como se o fotógrafo não estivesse lá. Apenas o que nos salva ao trazer comoção ao rosto dos dias servis.

5 comentários:

maria disse...

"um homem cai em si de pequeno aos pés da grandeza." deve ser isso a redenção.

soube-me tão bem ler este teu texto.

Jorge Melícias disse...

Comoveu-me o teu texto, Henrique. De coração. E eu que não tenho o melhor dos feitios, que me exaspero com facilidade e que, raras vezes, encontro nos outros (em mim a questão nem se coloca) redenção para os "dias servis", agradeço-te por isso.

Anónimo disse...

Obrigado por compartilhares o sentimento e por o escreveres tão bem. Sofia

bea disse...

Não me ocorrem (nem correm) as lágrimas ao ler Herberto; não me salvo de nada, sejam dias ou noites. Mas gosto de lê-lo. Porque a sua poesia é sempre inesperada.

Da sua morte, acho um facto normal. Era velho. E ficam-nos os poemas. A ele mesmo ele, só a família e os amigos choram.

marta disse...

Caramba, Henrique, caramba!