sexta-feira, 27 de março de 2015

TODAS AS PLAQUETTES

Ao contrário de Camilo Pessanha ou de Cesário Verde, que deixaram, como se diz, obras breves mas de uma extrema intensidade poética, Gabriel Arcanjo investiu toda a sua produção poética na produção de plaquettes. Também não seguiu o exemplo de Rimbaud, que escreveu curto e durante pouco tempo dedicando-se em fase adiantada da maturação intelectual a actividades mais nobres do que a poesia. Tipo tráfico de escravos. Não, Gabriel Arcanjo escreveu e publicou até ao termo de uma vida repleta de peripécias que não nos cabe divulgar. Morreu aos quarenta anos, legando dezenas de plaquettes começadas a publicar quando contava apenas 17 primaveras. A uma média de três por ano, foram, se não nos falham as contas, 69 títulos publicados cada qual com as suas meticulosas 33 páginas. Um total de 2277 páginas publicadas em vida, reunidas postumamente nas obras completas que levaram o título por demais conhecido Todas as Plaquettes. Poucos autores podem gabar-se de monumento tal à literatura, a qual nunca se mediu a metro nem se apurou ao peso. Valha-nos isso.

3 comentários:

Jorge Melícias disse...

Tão dorido e pungente, tão lacerante e autêntico. Como se todo o ser fosse um desmedido hematoma e dissesse não, não, não ao thrombocid. Nem o "pirulito" nem os "lenços enchouriçados" logram esvaecer pathos tão pathoso. De levar às lágrimas, de nos lavar em lágrimas... Recomendo.

http://www.dn.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=4466937&seccao=Livros

hmbf disse...

Agradeço a recomendação. Gosto muito de ler o Daniel Jonas, mas confesso que ao ouvi-lo me lembrei do Inri Cristo.

Jorge Melícias disse...

Sabia que ias apreciar. E agora é que não há mesmo ironia nenhuma.