segunda-feira, 6 de abril de 2015

#59



De que falamos quando falamos de romantismo? Talvez de elevados níveis de emotividade que enchem o vazio do sujeito com a imagem do objecto desejado, o outro crescendo dentro de nós como se fosse já parte de nós mesmos. Por isso associamos ao romantismo aquela melancolia delicodoce que consola mais do que agride, embora por vezes a morte se aproxime tragicamente. A melancolia vem de sabermos impossível o eu tornar-se outro, vem da confusão gerada pelo desejo de fusão, vem da paixão encontrar à sua frente um espelho que é ao mesmo tempo muro. E de não conseguir saltar para o outro lado, o lado do reflexo. A viola acústica vagarosa que introduz O (2003), o primeiro álbum do irlandês Damien Rice, assemelha-se a esse indivíduo parado defronte o reflexo anómalo de uma identidade perdida. Se o leitor julgar o discurso complexo, experimente borrar o rosto com o batom preferido da amada, espalhe pelas faces o aroma que traz na memória, passe o lápis pelos olhos e beije-se a si próprio espelhado como se não fosse já esse si próprio onde está fechado como fechadas em si mesmas estão as coisas mais tristes. É fácil colocar Rice entre os melhores do seu tempo, de Andrew Bird a Elliott Smith, ou dizer que quando se lhe junta a voz de Lisa Hannigan em dueto lembra os The Walkabouts sem sistema nervoso country. Seria fácil apontar-lhe a ausência de ângulos mortos quando os arranjos de cordas elevam a retórica descarnada da folk à épica do desalento, sobretudo nesse I Remember que parece pretender descarregar sobre nós, no final da história, a raiva contida ao longo dos oito últimos actos (ou no canto lírico que surge em Eskimo vindo sabe-se lá de que terras frias). A edição de 2004 traz um conjunto de b-sides que acrescenta qualquer coisa, mesmo sendo fácil apontar, dizer, colocar sobre a música de Damien Rice uma compreensão que profana o sentimento. O melhor é ouvi-lo e esquecer tudo o que sobre ele se diga:

3 comentários:

Cuca, a Pirata disse...

Isto é coisa para partir o coração até a um ogre.

hmbf disse...

Meu coração estilhaçado :-))

maria disse...

oh!, já foi o meu companheiro de muitas noites (o Damien, claro) :)