domingo, 26 de abril de 2015

MAS NÃO SERIA A MESMA COISA


Para o PS


Hei-de meter os meus dedos num mp3, converter em quilobits as crises asmáticas, arritmias provocadas por síncopes cardiovasculares, hei-de conseguir fazer desenhos da respiração, riscar no ar taxas padrão de riffs ocasionais, só para te poder escutar diapasonalmente quando voltarmos a estar juntos. Mas não seria a mesma coisa, pois não? Seria como aquela mulher que depois de foder nos diz que devíamos foder mais vezes, ou como aquela mulher que depois de falar diz que devíamos falar mais vezes, ou como aquela mulher que depois de estar diz que devíamos estar mais vezes, ou como aquela mulher que não percebe nada de diapasões. Digamos o quão crescidos se mostram os dedos quando o pulmão salta para fora da boca e enche de ar o ralenti das horas vagas, disso desfrutando como fotografias desfrutam da luz. Compreendo que para quem nos oiça não seja tão luminosa a fotografia, mas nunca foi preocupação do indito que artesanava cestinhos encher os caixotes do lixo com poemas silenciosos. Ele queria meter nas canastitas a sua canção: «cada um dos meus cestos tem de ser uma canção, que ouço de manhã quando o sol nasce, quando as aves despertam e as borboletas vêm pousar neles». Não te pedirei perdão, és mais índio do que eu. Não seria a mesma coisa, pois não? Por isso guardo das noites cada uma das notas sopradas a esmo, guardo os pontos luminosos de uma fantasia/vontade morfologicamente semelhante a libélulas e vagalumes, guardo não essa retórica do improviso mas exactamente o oposto, isto é, a gramática do encontro, ou seja, a gramática de dois acasos fenomenalmente sintonizados, a raridade do acontecimento, uma espécie de caos adormecendo no regaço de outro caos. Nada disto caberá num mp3 e tudo o que lá caiba servirá apenas para que, da próxima vez, nada seja a mesma coisa. Pois não?

4 comentários:

bea disse...

Puxa! Que amor perdido e desencontrado ao PS, qualquer que ele seja.

hmbf disse...

Não me parece nada desencontrado, muito menos perdido.

bea disse...

Pois. A mim, que sou leitora, é que parece; a mim e a todos que passem é possível a amplitude e diversidade de pareceres.

hmbf disse...

Corre-se o risco. Por gosto.